à conta do S. João

(muito) Longe vai o tempo em que o Presidente da República, então António José de Almeida, por causa das trapalhadas da Revolução de Outubro, sempre se inquietava com rumores vindos lá de cima, no norte. Ficou célebre o seu cuidado transmitido ao Chefe do Governo: ‘Veja como andam as coisas pelo Porto, não vá haver por lá alguma bernarda‘!…
Hoje, tudo é diferente: até o Douro, antes tratante, imprevisto e celerado, agora quase parece riacho de águas mansas, onde toda a canalha se espolinha e brinca… Enfim!…
Isto, a propósito do S. João (sobre quem já tinha escrito, mas que me afiançaram ‘nunca é demais’…) que, hoje, não tem nada a ver com as suas épocas mais áureas que, a meu ver, se findaram à martelada
Pois então, indo ao caso, na primeira metade do século passado, esquecidas que fossem as festanças da entrada do ano, do Carnaval e da Páscoa, isto ainda aos rigores do Inverno, a desforra chega com o Verão, no mês de Junho. O Santo António tem apenas os seus nichos, nas igrejas, cheios de jarras com flores e lá se contenta com isso, porque o povo do Porto não lhe dá mais nada. Às vezes, por causa de um jeito que o santo dá a alguma promessa mais aflita, põem-lhe umas moeditas de prata na bandeja. Tirando isso, flores e velas que o Santo, na sua qualidade de lisboeta, não deixa de ser um interesseiro
O S. João, alto lá, isso sim, aí é que todas as ruas do Porto se transformam em cantares, fogueiras, cascatas, fogo-de-artifício e iluminações!…
A noite do Santo é aquela em que as gentes têm mágoas e suspiros de todas as horas que vão fugindo, à escuta de um cismar deleitoso nas trovas às raparigas de todo o lugar, quando se juntam nos quintais ou à porta das casas, sentadas ao pé das fogueiras com os seus conversados ao lado, folgando e rindo com as malícias, as mais das vezes inofensivas…
As cachopas deitam sortes, bilhetinhos enrolados contendo vários nomes de rapazes: o bilhetinho que, ao cair do sol, aparecer desenrolado na taça com água onde os mergulharam, esse é o que dirá o nome do futuro noivo. Há quem lance um ovo dentro do copo, que ao romper da manhã terá sempre uma forma profética e significativa… E outros, muitos, sortilégios do Santo.
(que, antes, eram do solstício, que é a origem de toda esta festança…)
Pelas bandas do Bonfim, nesse tempo pejado de indústria de tecelagem, ouviam-se as vozes esganiçadas das raparigas ao tear:

Não insistas que não posso
Ser só teu nas romarias!…
Há no Terço um Padre-Nosso
Para dez Avé-Marias!

De Cedofeita a Paranhos, de Campanhã à Ribeira, por toda a parte o clarão das fogueiras, o estrelejar dos foguetes ou das bichinhas dos busca-pés. Cascatas e alguma filarmónica num ou outro coreto improvisado, toca as modinhas da altura à conta de subscrição feita dos moradores que se organizaram para dar mais brilho ao bairro ou à rua.
Nesses tempos o maior arraial era o da Lapa. A alameda, junto à igreja, era o local aprazível para os comes e bebes. No adro da igreja abancavam as famílias burguesas; a banda do Regimento de Infantaria fazia as delícias de todos, e o S. João, pintado numa enorme tela de linho transparente, preso à fachada do templo, lançava um sorriso luminoso sobre a multidão, um olhar gaiato e… já agora, alguns pingos de cera, que sempre iam caindo das tigelinhas, profusamente espalhadas nos contornos da igreja.
A festança era tamanha que até chegava aos mortos. Nesse dia, quem tinha parentes no cemitério da Lapa (onde está sepultado Camilo Castelo Branco), mandava-lhe de presente umas flores para a sepultura e uma Avé-Maria para a eternidade. Lembravam-se deles, choravam memórias e, de seguida, toca p’rá festa a cantar…
Outra das (perdidas) tradições eram as pequenas cascatas de rua, de degrau, passeio ou esquina…
As cascatas do S. João perdem-se na própria história dos festejos são-joaninos.
Tradição própria da pequenada que, dessa forma, obtinha dois gandas lucros na altura dos festejos: passar o dia na rua, e ganhar uns tostões para comprar cromos de jogadores, o pião que viu na drogaria ou a boneca de cartão que está na loja das miudezas…
A importância da cascata começava pelo lugar onde ia ser instalada: se não fosse à porta de casa (quase sempre tido como um sítio ‘foleiro’...), era necessária a sempre difícil autorização, normalmente da mãe, já que o pai passava o dia todo na fábrica ou na estiva. Resolvida que fosse a questão (o que não era fácil; o que se discutia era ir ‘trabalhar’ para a rua, nas horas de maior movimento desde a antevéspera do S. João até ao dia de S. Pedro...), ia-se buscar a caixa de sapatos onde estavam guardados os mascatos (pequenos e toscos bonecos de barro). Do quintal de casa ou da vizinha sempre se arranjava uns nacos de musgo e umas rancas verdes; mais uns bocados de papel de cartucho que o senhor J’aquim da mercearia deu depois de se lhe chagar a paciência e… ala que se faz tarde!
A cascata era montada sempre ao gosto (e às posses…) de cada um: não havia regras, nem tamanhos, nem feitios, posturas ou quantidade de mascatos, às vezes de repite. Uns ficavam-se só por dois ou três bonecos: ou porque não havia guita para mais ou, as mais das situações, porque era sostra demais para estar com trabalheira. Mas a maioria esmerava-se: era abancar, espalhar a saca da areia que se tinha trazido da praia uns dias antes, pôr o musgo a fazer carreirinha ou cercadura à areia e, pronto, agora era colocar a bonecada conforme desse ao gosto. Com as rancas verdes fazia-se um arquinho, por baixo o santinho no altar (que quase sempre era uma caixa de fósforos da cozinha, que era das grandes...) e, agora, é pegar noutro santinho numa mão, estender a outra a quem passar e…
…dê um tostãozinho p’ó S. João!…
Na noite do santo não há lugar para tantos alhos-porros, molhos de cidreira e manjericos. Na cerração, as estrelas ficam com inveja do luzeiro que das ruas ou dos bairros, nas Fontainhas ou na Ribeira, subia nos balões, aos empurros da brisa, tremeluzentes de luz e versos de amor

S. Pedro, esse é da Afurada, na outra banda do rio. Festejam-no os paroquianos. É uma festa dos da casa, e ele, na sua qualidade de barqueiro, dá-se bem à beira-rio, o mesmo onde, seja de um ou outro lado, vão cair as lágrimas multicores do foguetório…

S. Pedro foi pescador
foi de santidade de espanto:
o maior milagre foi
ser barqueiro e ser santo.

 

 

 

(Seja lá por que Santo for, Ora pro nobis)

 

Santo António

Santo do século XIII, ele é, sem quaisquer dúvidas,
um manancial de graças concedidas.
Mas, longe do que como a tradição o estampa,
foi um homem de carácter absorto e retraído.


Pouco depois de ter saído de casa, uma senhora verificou que perdera um brinco. Ansiosa, refez o percurso; várias pessoas a ajudaram a procurar a jóia, mas foi em vão. Então, alguém sugeriu que ela ‘rezasse um responso’  a Santo António. Não tardou muito que apareceu um rapaz, a correr, com o brinco, que acabara de achar no passeio do outro lado da rua. Só nesse momento ela se lembrou de que tinha atravessado a rua para falar com uma vizinha.
Um senhor tinha ido à biblioteca da cidade e deixou o carro estacionado numa rua perto. Ao regressar, com a confusão de ruas próximas, paralelas e tão parecidas, constatou que não conseguia encontrar o automóvel. Devoto do Santo, invocou-o, e num relance de olhos reparou que estava a poucos metros do seu carro desaparecido.
Chaves, guarda-chuvas, computadores, carteiras, relógios, anéis, telefones – tudo reaparece de modo misterioso quando as pessoas recorrem, com um, das centenas, dos responsos apelativos a este prestimoso santo.
Santo António não protege apenas objectos inanimados. Muitas pessoas atribuem a sua sobrevivência, em tempo de guerra ou durante catástrofes, à fé que depositam nesse santo. Na Itália, circula uma famosa lenda que data do terramoto que, em 1908, destruiu quase totalmente a cidade de Messina, na Sicília, fazendo mais de 85.000 vítimas. Uma mulher da vizinha povoação Milazzo, cujo marido tinha ido a Messina visitar uns parentes, recebeu a notícia de que toda a família sucumbira durante o sismo. Dirigiu uma prece fervorosa a Santo António e, três dias depois, o marido voltou para casa, ligeiramente ferido num pé.
É curioso, no entanto, que poucas personagens históricas têm sido tão radicalmente modificadas pela posteridade como este tão afamado santo popular. Há cerca de sete séculos, ele era venerado como uma das mais brilhantes inteligências do cristianismo e um dos seus mais eloquentes pregadores. Em aparente contradição, o facto de hoje as pessoas se lembrarem dele como uma espécie de guarda da secção de perdidos e achados, tal conotação poderia ser considerada quase como uma perda de prestígio, ou mesmo uma injuria.
Santo António, porém, sempre teve a reputação de encontrar objectos perdidos, e esse seu atributo já é referido num cântico do século XIII intitulado Si Quaeris Miracula (se procuras milagres). Tal característica do seu culto, no entanto, só se propagaria 400 anos mais tarde. O seu presumível fundamento será uma lenda sobre um noviço que teria fugido com um saltério que Santo António costumava utilizar nas suas lições. Narra a história que o fugitivo foi detido por um descomunal mafarrico, que ameaçou matá-lo com uma foice se ele não restituísse o livro, o que o esgazeado catecúmeno fez sem mais delongas, acabrunhado de remorsos…
Até a aparência física de Santo António foi abastardada pelos devotos. Um exame aos restos mortais do santo, efectuado em 1981, por ocasião do 750º aniversário da sua morte, revelou que ele media cerca de 1,70m, tinha uma testa alta, cabelo espesso e negro, nariz afilado e aquilino, e com joelhos um tanto disformes e calosos devido às prolongadas orações. Não existe, é verdade, qualquer retrato seu feito na época, mas os textos contemporâneos mostram-no como um indivíduo grave, moreno e corpulento. Contudo, vêem-se em inúmeras igrejas estátuas de madeira ou de gesso que o retratam como um homem apagado, anémico, de bochechas querubínicas, segurando um lírio ou açucena (pureza), um livro (sabedoria) ou, então, o Menino Jesus (que, segundo reza a lenda, um dia o teria visitado).
Mas, afinal, que é que Pádua tem a ver com Santo António? O seu principal santuário encontra-se lá. Pádua é uma cidade de 210.000 habitantes, que fica 37km. a oeste de Veneza. Ainda hoje há muita gente pensa que ele nasceu italiano. Na realidade, este português nascido em Lisboa, muito provavelmente nas cercanias da Sé, passou menos da quarta parte de sua vida na Itália e sempre demonstrou possuir o temperamento do seu povo – dinâmico, apaixonado, impetuoso e irrequieto.
Apesar de todas as distorções da realidade histórica (ou talvez por causa delas), António é um dos santos mais estimados em todo o mundo. Seu nome é dado a gente das mais diversas nacionalidades e credos. Há também inúmeros navios, bem como cidades com o seu nome. (No Brasil, por exemplo, há cerca de 165, entre cidades, vilas, povoações e lugarejos, isto sem contar as mais de duas dezenas que trocaram de nome e as centenas de rios, serras, cascatas, baptizadas com seu nome.); são centenas as igrejas que lhe são consagradas. Em Portugal é difícil não o encontrar em qualquer igreja, nome de rua ou lugar, do norte ao sul. Os pobres, os desvalidos da sorte encontram-se sob sua especial protecção, ele que é tido como padroeiro de Lisboa (na verdade é S. Vicente!…) e é militar do exército português (do exército brasileiro também). Aqui, ao lado, podem ver a folha de pagamento do seu pré, em 1812, no Regimento de Artilharia 2, em Lagos. Em 1946, em reconhecimento da erudição, o papa Pio XII conferiu-lhe o título de Doutor da Igreja, uma rara distinção. ‘Rejubilai, feliz Portugal Ditosa Pádua, exultai!’ era como começava a proclamação papal.
A vida de Santo António abrangeu apenas umas quatro décadas. Nasceu por volta de 1190, no seio de uma família importante, e recebeu o nome de Fernando (de Bulhões). Seu pai era, segundo parece, oficial do exército. O pequeno Fernando conviveu com jovens da sua idade até que, em plena adolescência, uma reviravolta interior o fez abandonar os prazeres do mundo e ingressar num mosteiro agostiniano. Além da sua brilhante inteligência, tinha uma prodigiosa memória, que lhe permitia reter textualmente longas passagens das leituras que fazia; esses predicados tornaram-no um modelo de erudição medieval.
Por volta de 1220, Fernando encontrou, em Coimbra, cinco frades franciscanos (membros de uma humilde ordem mendicante fundada 10 anos antes por Francisco de Assis) que descansavam para prosseguir viagem até Marrocos, cujas populações muçulmanas esperavam converter ao cristianismo. Fernando sentiu-se impressionado pela humildade e coragem dos jovens missionários. Ardente de desejo por seguir aquele exemplo, abandonou os agostinianos e ingressou na ordem franciscana, adoptou o nome de António (talvez em memória de Santo António, um eremita egípcio do século III) e fez-se ao mar, rumando ao Norte da África.
Durante a curta permanência em Marrocos, António adoeceu gravemente, provavelmente com malária, e foi colocado num navio para regressar a Portugal. Ventos contrários desviaram-no da rota, e António acabou por desembarcar na Sicília. Os franciscanos da ilha cuidaram dele até se recompor. Mais tarde levaram-no a um capítulo da ordem, em Assis. Ali ele travou conhecimento com o irmão Graziano, provincial do norte da Itália, que lhe disse: ‘Preciso de um padre que vá dizer missa para os irmãos leigos do nosso convento de Montepaolo, próximo de Florença. Por que não vem comigo?’.
Durante os quinze meses que se seguiram, António permaneceu no eremitério de Montepaolo. Fiel ao espírito franciscano, pedia que lhe reservassem as tarefas mais humildes e, quando não estava exercendo qualquer ministério sacerdotal, esfregava o chão e lavava pratos; por temperamento evitava cuidadosamente exibir a sua erudição. Um dia, durante uma cerimónia de ordenação, o orador não apareceu e pediram a António que dissesse algumas palavras. Um pouco avesso obedeceu, fazendo um sermão no qual revelava tão profunda sabedoria, exprimindo-se com tal oratória que os ouvintes ficaram assombrados.
Por ordem do superior, o humilde e acanhado lavador de pratos assumiu então as funções de pregador e professor itinerante na região que viria a ser por toda a Itália, e depois no sul da França. Diz-se que as multidões que compareciam aos seus sermões chegaram a atingir 30.000 pessoas. Infelizmente só podemos imaginar como teria sido a qualidade carismática da sua eloquência.
A elocutória de Santo António era abrangente sobre os princípios básicos do cristianismo. (num único sermão, fez perto de 200 citações do Antigo e Novo Testamentos.) Alguns excertos revelam-nos o seu modo de pensar: ‘Uma vida sem amor é como uma mesa sem pão’, ou: ‘Por que caem as folhas das árvores no inverno? Porque lhes falta o calor que as sustenta; do mesmo modo, a alma do infeliz morre no pecado, se não for fortalecida pelo Espírito Santo’.
Quando se dirigia aos hereges, António deixava-se frequentemente arrebatar pelo seu temperamento fogoso. ‘Hipócritas, falsos profetas’, vociferava ele, ‘não sereis admitidos no reino dos céus. Sois sarmentos ressequidos, bons para atirar ao fogo’. Há relatos de uma ou duas vezes, pouco faltar para que fosse linchado. Um dia o povo não quis ouvir as suas palavras contundentes e voltou-lhe costas; desanimado, Santo António foi à praia e começou a pregar aos peixes, que, segundo diz a lenda, colocaram as cabeças fora da água, a fim de melhor o ouvirem. Seu zelo reformador não poupava os ricos egoístas: ‘Ai daqueles que têm a adega cheia de vinho e o celeiro abarrotando de trigo, que possuem belas vestimentas e quedam-se surdos às súplicas dos pobres de Cristo, seminus e famintos … ‘.
Não existe nenhuma prova de que Santo António se tenha alguma vez encontrado com seu superior, São Francisco; se tal sucedeu, deve ter sido um momento embaraçoso. Graças a sua erudição, Santo António era o principal teólogo da ordem, enquanto Francisco, o ‘Menestrel do Senhor’, desprezava os livros e o saber impresso que, segundo ele, distraíam os fiéis da pura contemplação de Deus. Não obstante, Francisco nomeou António principal professor de teologia da ordem e, em 1227, depois da morte do fundador, os franciscanos elegeram António como provincial das congregações do norte da Itália.
Tendo alcançado grande celebridade na Europa meridional, onde era respeitado e venerado, António não se deixou ofuscar pelos aspectos mundanos da sua carreira fulgurante. A sua necessidade de isolamento e contemplação levavam-no frequentemente a retirar-se para uma gruta solitária ou um recanto tranquilo da floresta. Tinha sido criado na cidade, mas era um amante fervoroso da natureza. Comparava a Virgem Maria ao arco-íris, à Lua, à brisa fresca que sopra durante um dia escaldante e ao benfazejo aguaceiro que rega a terra sequiosa.
Em 1230, António demitiu-se do seu cargo administrativo e instalou-se na ‘bela Pádua, berço das artes’, como Shakespeare lhe chamava. Embora ainda não tivesse 40 anos, estava fisicamente exaurido. Durante anos percorrera os campos e as cidades, provavelmente descalço, como era costume dos franciscanos, alimentando-se de sobras de comida, dormindo em conventos insalubres e desconfortáveis. Sofria de hidropisia (acumulação anormal de fluidos no organismo), de falta de ar e tinha o corpo inchado. O conde de Tiso, um amigo dedicado, convenceu-o a ficar algum tempo no norte de Pádua, onde construíra um pequeno convento. António passava os dias numa cabana improvisada que fora instalada para esse efeito entre as ramagens de uma velha nogueira. Foi nesse insólito refúgio que corrigiu as últimas páginas dos seus Sermões.
Na sexta-feira 13 de Junho de 1231, o seu estado de saúde agravou-se, e ele pediu que o levassem para Pádua. Colocaram-no dentro de um carro de bois revestido de palha, e assim ele percorreu a estrada poeirenta e esburacada. Mas ia perdendo mais e mais as forças, e, antes de entrar em Pádua, foram-lhe ministrados os últimos sacramentos. Suas derradeiras palavras foram o Salmo 143, que reflecte perfeitamente o misto de fé e combatividade que o caracterizava: ‘Pela Tua misericórdia, livra-me dos meus inimigos, aniquila os que oprimem a minha alma, pois sou Teu servo’.
Poucos dias depois da sua morte, registaram-se os primeiros milagres: ao tocarem o seu túmulo, cegos recuperavam a vista, surdos o ouvido, e coxos abandonavam as muletas.
Menos de um ano depois de sua morte, António foi canonizado, ficando assim satisfeitas as exigências do povo. Foram-lhe atribuídos 53 milagres, mas nenhum deles envolvia a recuperação de objectos perdidos. Muitas dessas lendas populares foram imortalizadas por famosos artistas, como Ticiano e Rubens, e fazem parte da tradição antonina. Na Sé de Lisboa, onde estudou, teria ele deixado gravado na parede de pedra que sobe para o coro um sinal da cruz com que exorcizou um demónio. Afirma-se também que teria vindo em espírito salvar seu pai de uma falsa imputação de culpabilidade, no período em que já se encontrava na Itália.
Os naturais de Pádua, onde ele viveu menos de um ano, adoptaram-no como filho e construíram uma grande igreja, a basílica de Sant’Antonio. Cerca de 3,5 milhões de peregrinos se dirigem todos os anos a Pádua (onde António é simplesmente conhecido por Il Santo) a fim de tocarem o túmulo e implorarem a sua intercessão.
Perto do túmulo vêem-se oferendas de acção de graças (entre as quais muitos corações de prata), cm reconhecimento de mercês recebidas, além de testemunhos de carácter mais pessoal.
Um dia, no altar que uma ignota igreja minhota lhe consagra, entre as muitas peças que lhe testemunham devoção, a minha atenção foi atraída por uma pagela com a sua efígie, de uma já ida festividade, onde por baixo da sua imagem estava escrito ‘Querido Santo António, faz com que o Mário volte à missa e que sejamos felizes’.
Espero que o Mário assim o tenha feito. Era o mínimo que podia fazer pelo Santo António.
nota – a estátua, cuja imagem é apresentada no topo do texto, encontra-se na Capela de Nossa Senhora da Vitória, no Museu Militar do Buçaco.

 

 

 

(O que não faz Deus com um gancho, não faz Santo António com garrancho)