armar ao pingarelho

Serão muito poucas as pessoas que não sabem que armar ao pingarelho é uma locução usada para apontar alguém que se serve de manha, treta, jeiteira ou expedientes semelhantes, para chamar sobre si as atenções dos outros ou, também, em determinadas situações, para parecer mais do que é.
Diz-se, do mesmo modo que, em situações semelhantes, se usam outras expressões, vulgares, como armar aos cucos (minguado passaroco que, além de não saber fazer ninhos, a veia musical limita-se àquela monocórdica cantilena a dois tons…) ou armar-se em carapau de corrida (fazer-se esperto, mas com pouco sucesso…), e tantas outras.

Por outro lado, uma vista mesmo que em viés a qualquer dicionário, ficamos a saber que pingarelho é sinónimo de pelintra, maltrapilho, mas também é cada um dos paus ou arames, os elementos de armar as lousas (costelas ou piscócias, conforme o regionalismo).
Se, no caso, não queremos enunciar alguém andrajoso, pelintra ou pobreta, então onde está a relação que nos permita desarmar o pingarelho?…

Já sabemos que o pingarelho é uma das peças que compõem uma armadilha para apanhar pássaros de pequeno porte. O que muitos não sabem (é necessário pegar uma dessas trempes e tentar arma-la, para perceber como não é fácil…) é que é necessário alguma paciência, mas sobretudo arte e habilidade, para deixar que as hastes (os pingarelhos) fiquem colocadas (armar os pingarelhos...) de forma a impulsionarem a mola ao mais leve toque feito pela curiosa e desprevenida ave.
Assim, também parece evidente que a palavra armar, será a relevância da expressão. Dela se originam outros ditos, seja armar usado na forma substantiva (ele é um armante), verbal (armaste uma trapalhada) ou adjectiva (é um pavão todo armado)

Estará aqui a alegoria para a expressão?
(ver snob)

 

 

 

(não há ninguém sem o seu pé de pavão)

lágrimas de crocodilo

A expressão chorar lágrimas de crocodilo é, literalmente, aludir a um choro fingido; por inferência será também referir uma emoção ou perturbação notoriamente postiça e hipócrita.
A origem está numa curiosa característica orgânica do crocodilo que ao abocanhar a presa, por vezes pressiona o céu da boca, o que provoca a compressão das suas glândulas lacrimais: enquanto devora a vítima caem lágrimas dos seu olhos.
Se a expressão, assim, tem apenas um fundamento biológico, não é menos verdade que a correlação do fingimento poderá advir da constatação de as lágrimas nada terem a ver com o acto de devorar a presa. Daí a extrapolação metafórica.

 

 

 

(quem não sabe fingir não sabe reinar)