(mais) Coisas do Arco-da-Velha

(Minhota, de José Malhoa)

Foi com um retrato mais ou menos desfocado que o Coisas do Arco-da-Velha começou, neste dia, há três anos atrás. Não é meu propósito qualquer balanço, conjecturar mais substância no haver e pouca importância ajustar ao dever, coisas essas quase sempre a reboque de mandingas inconfessadas…
Basta-me o agrado na feitura e os fios laçados de palavras amigas que lhe vão tramando teias de bem-querer e amizade. É verdade que, ora aqui ou ali, tempo houve em que ajuntei palavras de despedida e achava por bem que assim fosse. Mas não foi. Talvez por, ainda, achar por bem que assim (devia que) fosse.
Portanto, será continuando a recorrer aos meios mais diversos, às vezes bem estrambóticos, que aqui se vai dando estampa a curiosidades, memórias, ou até mesmo saberes, palavras, factos e coisas, que pelo tempo, foram deixando lembranças ou esquecimentos. As coisas do Arco-da-Velha
Cabe lembrar, a propósito, que especialmente no caso das palavras, foi o povo que criou a Língua, que a animou, que lhe deu vida, ao mesmo tempo que, vivendo-a, a deturpava, enriquecia, aviltava e exaltava. Creio que, neste cadinho, se forjam os adágios, rifões, anexins, ditos, sentenças ou apenas palavras nascidas ao calhas do falar, ou seja, no caldo da cultura oral onde não há a rigidez a que tanto se apegam os eruditos, presos à forma e à fixação das regras, seja na escrita ou na leitura. Repare-se que o poeta popular nunca diz o verso rigorosamente do mesmo molde; cada vez é um novo acto, uma nova enunciação da poesia que representa, para ele, uma atitude criativa e empreendedora da circunstância e do momento. É esta a mesma verdade para o rifoneiro que, quase sempre de origem anónima, colectiva e popular, acaba carregando mutações constantes do uso franco e livre na boca do povo. Sabemos bem que, não raras vezes, alguns sapientes cultores, misturam um bocejo com esta ou aquela locução que a populaça criou e consagrou, e que, mesmo sabendo-lhe o sentido, acham que tudo o mais é perda de tempo, arrazoado sem nexo ou valor, e, bem pior, grave lesão aos preceitos estabelecidos das coisas do bem dizer e falar. Na freima da sua erudição bacoca esquecem que ‘o mister de recordar o passado, é uma espécie de magistratura moral, uma espécie de sacerdócio. Exercitem-no os que podem e sabem porque, não o fazer, é um crime’, escreveu Herculano.
Enquanto vão arranjando sarna e mão que a coce com acordos sem ponta nem nó (digam-me, deste último, se há alguém, capaz de explicar por que, agora, deverá ser hifenizado cor-de-rosa ou água-de-colónia e a cor-de-laranja ou o fim-de- semana não lhes assiste tal direito tão jeitoso e traçadinhoSabem? Não?!… Também eu!…).
Bem ficaria eu de candeias às avessas se por artes de berliques e berloques, alguns desses doutos de patavinices, armados em carapaus de corrida, se aguentassem no balanço a explicar tudo isto. Não lhes pagaria tuta e meia, com certeza…
Agradecido que vos sou, a todos.
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(Arco-da-Velha pela manhã, mal do pobre que não tem pão e ada ovelha que não tem lã)

13 comentários sobre “(mais) Coisas do Arco-da-Velha

  1. tinta permanente 7 Dezembro, 2009 / 18:56

    bettips
    Agradeço-te os parabéns! Os parabéns e a tua 'escrivança' aqui, que é cousa sempre bem-vinda, claro! Agora quanto aos 'dótores', isso já é mais complicado: quem é que consegue impedi-los de botar leis e faladuras, não me dizes?…
    abraços!

    Baila sem peso
    Parabéns em verso, a verdadinha, só conhecia os do João de Deus. E não lhe ficas nada em favor, não senhora! O que já é hábito, pois!
    Cá por mim espero que o enguiço sempre fique para os lados dos Acordos e seus mentores. Pleo menos, olha… deixa-me ficar com esta crença!
    abraços!

    Isamar
    Obrigado pelas tuas palavras, amiga. E, como vês, cá estou…
    abraços!

    Arménia Baptista
    Não penso não senhora! (minto…) Mas, a verdade é cá estou. E a agradecer o apoio, amiga!
    abraços!

    Dulce
    Tudo bem: não digo que vou embora. Procurarei ficar por aqui o mais tempo que for possível, prometo. E obrigado, amiga!
    abraços!

    Meg
    Elogios com exageros, amiga! Mas agradeço o conselho. É verdade, é: cautelas e caldos de galinha…
    abraços!

    gaivota
    O quadro é do Malhoa, claro. Do texto manda o recato que nada diga. Mas digo da voz da Amália e do poema do Pedro Homem de Mello, que bem parceiram com o Malhoa…
    abraços!

    Justine
    Tem hífen, tem hífen!… E não penses que é caprichosa coisa do novo Acordo, não!
    E, grato pela amizade e pelos parabéns.
    abraços!

    Rosa dos Ventos
    Obrigado pelo primeiro e o melhor que puder e souber ao segundo, que é desejo…
    abraços!

    mfc
    tchim… tchim…, amiga! Obrigado.
    abraços!

    MagyMay
    Absolvida, senhora, absolvida!
    Credo!, que coisa não era de tão grave penitência…
    (essa do auto-penitenciada é assim a modos que um tudo nada esquipática! Não é que não se possa determinar que, a partir de agora, o palavrão passe a existir; mas até hoje…)
    Ora tiro-lhe o hífen e, com muita amizade…
    abraços!

    mena.m
    Pois também eu agradeço: as palavras e a amizade.
    abraços!

    e a tantos outros que por aqui passam…
    obrigado!

    tinta permanente

  2. mena m. 5 Dezembro, 2009 / 22:15

    ´Pois eu também dou os parabéns e agradeço tudo quanto por aqui tenho aprendido!

    Um abraço!

  3. MagyMay 2 Dezembro, 2009 / 18:30

    A minha penitência, primeiro, Senhor:
    Perdi o último post, em tempo de comentário…………………………………………………………………………………..

    Prontos, auto-penitenciada estou (terá hífen?)!

    Parabéns, pelos três anos de blogue. Eu usufruo há menos de um, aprendi e aprendo muito.
    "Senti" as teias da amizade, também.
    Obrigado, TP… obrigado

    Abraço

  4. mfc 1 Dezembro, 2009 / 16:28

    Muitos e muitos parabéns!
    3 anos já é muito tempo!
    Tchim… tcchim…

  5. Rosa dos Ventos 30 Novembro, 2009 / 15:57

    Primeiro os meus sinceros parabéns.
    Segundo desejo que continues a descobrir para nós "coisas-do-arco-da-velha"!
    Sou leitora assídua do teu blogue que é instrutivo e divertido!

    Abraço

  6. Justine 29 Novembro, 2009 / 16:24

    TP, bem hajas(leva hífen ou é pegado??)por este trabalho de divulgação da cultura oral e popular do nosso país, que já leva 3 anos e espero que durante muitos mais se mantenha, para meu deleite e informação.
    Um grande abraço de parabéns:))

  7. gaivota 28 Novembro, 2009 / 21:18

    Parabéns,amigo!
    lindo post! com uma magnífico quadro de malhoa…e um texto bom de se ler e reflectir
    é ir e vir, não é?
    ficamos à espera
    beijinhos

  8. Meg 27 Novembro, 2009 / 16:36

    Os meus mais sinceros parabéns por este aniversário.
    Este é um espaço de saberes, daqueles que é preciso não esquecer, e que tens posto à nossa disposição com toda a paciência e
    competência.
    E, como diz a Bettips… não vás tu à lã e venhas tosquiado!

    Um bom fim de semana.

    Um abraço

  9. Dulce 27 Novembro, 2009 / 11:52

    Meus parabéns por mais este aniversário. E, por favor, nem diga que vai embora, deixaria um enorme vazio por aqui, Desde que comecei meu blog, tenho vindo sempre visitar este espaço para conhecer coisas do arco da velha e gostaria que assim continuasse sendo.
    Um abraço e muito, mas muito tempo ainda haja pela frente para que possamos aqui encontrar tão boa prosa.

  10. Arménia Baptista 27 Novembro, 2009 / 09:40

    …Muitos parabéns!…E nem pense em ir embora!…Um blog assim não pode acabar, nunca!
    😉

  11. Isamar 27 Novembro, 2009 / 06:49

    Parabéns, amigo! E que muito mais tempo permaneças por aqui onde as tuas palavras tanta falta fazem. Vai e volta depressa.

    Bem-hajas!

    Um abraço fraterno

  12. Baila sem peso 27 Novembro, 2009 / 02:47

    E nem sei eu, como aqui consegui chegar
    Pela manhã, manhãzinha, deste sábio falar…
    Nada, nadinha, vou eu acrescentar…
    Apenas PARABÉNS tinta permanente!
    Sempre vou mais dizer: se meu verso não enganar
    Essa dos Acordos, anda-me a fazer certo enguiço
    Ás vezes até adoeço, só a pensar nisso 🙂
    E certo é o mal do pobre, e da ovelha o frio
    O pão e a lã são sustento, em tempo bravio!
    Ah e como não podia deixar de ser:
    "Havemos de ir a Viana…
    Deixai-me com esta crença…"

    Para trocar, enganos e pecados
    Por histórinhas de criança!

    Beijo teu encanto e saber e festejo teu dizer!

  13. bettips 27 Novembro, 2009 / 01:09

    … e não vás tu à lã e venhas tosquiado! Quero eu dizer: parabéns mas que num benha nenhum dótor botar leis nas faladuras das gentes.
    É sempre um gosto este teu saber que nos dás!
    Um abraço amigo.

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