magustada

Ora se não me lembro!, claro que sim!…
É verdade que havia umas, a rajar, que eram cozidas. No panelo da marmelada, tapadinhas de água e bem cobertas de fiolho, que logo logo enchia toda a lareira de um saboroso cheirinho adocicado. Mas, o resto, sim, eram, de uma forma ou doutra, assadas no braseiro, no borralho do fogão ou, no canedo das pedras do chão, à mistura da folia, fosse no largo ou no adro da capela, ao desabrido do frio que as tardes de Outono trazem. Está lá tudo, direitinho, nesse fundo onde só chegam as mãos da memória e quase nos levam, inteiros, aos babeiros e aos joelhos esfolados nas apanhas das jeiras ou nos tropeços da vereda.
Pois é verdade que também já comi muita, quentinha e a estalar, ali na esquina do Marquês, primeiro em cartucho pardo, depois, de há uns anos para cá, embrulhadas em páginas arrancadas às listas telefónicas…
Ora vai-te catar!, muitas vezes me disse o tio Juvelino. Isso tem alguma comparança com as que comes por aqui, diz-me cá?!, chasqueava o tio, tantas vezes era ele o primeiro a espevitar o brasume com um renque de carqueja. Uma por outra, lá ia eu, desajeitado, esconjurando as peladelas (chiça!…, vocifera sempre que afoitava a mão mais do que devia), aconchegando os tições e as castanhas que se iam tornando brancas de pó e pele por entre os meus dedos churros de carvão. É!..., ia-lhe dizendo para não dizer nada, não confessando prazeres de pouco explicar por cada escorregadela de vinho novo pelos gorgomilos abaixo a aquietar a queimadela da castanha tirada a esticão do brasido.
Canalha à roda, dava largas às pantominices, o Toino sempre aproveitava a noite e a esquina da adega para acorbertar as mãos onde a Laurinda deixasse e o breu tapasse, mais havia quem afiasse a navalha no presunto e na broa à feição do copo que ia entornando carícias de veludo a dar tom à voz que, aqui e além, ora contava uma história, esganiçava uma modinha ou atirava uma brejeirice ao riso geral…

Ó menina, dê-mo,dê-mo
que sê pai já mo gabou:
Era verde rechonchudinho,
e de maduro s’arreganhou!…

Tem tino!, moço!, ria-se um. A chocarrice, afinal, era só pretexto para a galhofa. Todos já sabem que a agaitada cantiga, a ser de intenção, faz menção ao ouriço da castanha, ‘tá-se a ver!…
De cada magusto, sempre saí pelo novelo de qualquer fumo, olhos frescos d’água, pança bem aconchegada e já farto de saudade. Fosse dessa noite que o Sete-Estrelo alumiou, ou de um outro tempo em que as castanhas eram do avô da Fernanda, que tinha sido embarcadiço, assadas à soleira porta, na rua da Senhora da Saúde…
Eu sei que se pode achar prazer, ao fim da tarde, num cartuchinho de castanhas quentinhas, ali, no Terreiro do Paço. Ou em Santa Catarina. Eu sei.
Mas escardichadas no braseiro, um gole de vinho novo e um naco de presunto entalado numa côdea de sêmea, bom, estão a ver a diferença, estão?!…
(in PÉSSANGA)

 

 

 

(olha que a castanha tem má manha; vai com quem a apanha)

Rei de Copas

O romance dinástico dos falsos D. Sebastião tem dado azo a que muito se fale e escreva sobre essas personagens que, entre o fado e o saudosismo do Velho do Restelo, se alimenta(ra)m do inconfessado anseio popular pela vinda de um Desejado, sempre que a alma dói e o peito esmorece à fatalidade com que a neblina envolve a realidade que vai passando, mas que…

No espólio de uma parte do Arquivo da Congregação do Oratório, entre alguns papéis judiciais que pertenceram a Diogo António Palmeiro Pinto, doutor de leis e Provedor do Concelho de Estremoz, nos idos de 1835, havia um documento, escrito com pouca apurada caligrafia, onde se relata e ilustra mais um caso, a saber porventura o último, da história Sebástica, já de si tão rica desde os tempos dos reis de Penamacor e da Ericeira, entre outros. No opúsculo pode ver-se a gravura, de inspiração popular, aberta a água-forte por gravador desconhecido e que retrata primorosamente o fulcro do episódio que tanto agitou os espíritos de 1813 com o aparecimento de um tal António José Dias de Aguiar a personificar (mais uma!…) a memória do Sebastianismo na iconografia da gente lusa.
Mas vamos à transcrição do documento:

Em 18 de Agosto de 1813 pela hua hora da tarde foi apresentado no quartel do Largo do Carmo por hum furriel de Infantaria hum homem vestido de maneira seguinte. Trazia na cabeça hum barrete de velludo preto à moda dos Gregos com huma borla de retroz preto e orlado de fita verde larga emfuscada e em bicos de modo de corôa. Huma vestidura também à grega de pano escarlate finíssimo que o cobria do pescoço até aos artelhos, com lamares pretos de retroz e huma tira bordada por diante também preta, meias mangas tambem bordadas aparecendo-lhe os antebraços com manguitos de veludo preto. Só na mão direita trazia luva de cazemira côr de carne e pendente do pulso por huma fita azul clara huma bolcinha verde aonde tinha huma pedra preta que elle dizia preciosíssima. Trazia lenço de seda preta no pescoço colete de cazemira amarella calças de pano alvaiado até aos pés com galão de ouro e vivos escarlates nas costuras lateraes e chinellas com laços de fita preta, tudo novo e rico. (…)
(…) Nomes e signaes.
António J.e Dias de Aguiar, idade 28 an.s altura 61 pol. cabelos e olhos m.to pretos trig.ro entressêco suissa somente até a ponta da orelha bigóde pouco crescido porem m.to cerrado n.al da Freg.a de S. Pedro ter.o de Trancoso.

Perguntando q.m era e em que se ocupava disse q. antes hera aquelle sugeito cujo nome tinha dito já e q. até á idade de 21 annos fôra Caixeiro de seu Thio o Negociante J.e Nunes de Aguiar, porem q. ha seis annos e meio começou a ter revelaçoens e q. agora he Seb.am Rey, mandado por Deos e por elle escolhido para governar em o mesmo nome daquelle q. morreo Martir na Africa o q. elle tem andado encuberto todo este tempo esperando a ocazião de se patentear aos olhos dos homens antes q. se acabe o mundo q. está quazi quazi.
Perguntando o que tinha feito e q. motivo dera para alli ser conduzido disse que primeiramente fora aprezentar-se ao Prior de S. Vicente de Fóra e depois a S. Domingos, á Misericordia e á Sé aonde leu depois da missa Conventual a nomeação que Deos lhe inspirára para ser Regente o que mostrava attestado e confirmado por elle mesmo com huma verba escrita da sua mão com o seu sangue proprio em lugar de tinta para mais firmeza da sua palavra.
Foi remettido perante o Intend.e G. da Policia q. o mandou para o Limoeiro á sua ordem.
Lisboa, Q.el G.N. da Policia

…nunca será suficiente para furtar ao coração e ao imaginário do povo, a lembrança dessa morte, tão inglória, do ruivo Desejado, caído em qualquer lugar dos areais africanos, quem sabe?, piedosamente encoberto pela bruma da manhã.