confetes


O Manuel e a Maria casaram-se hoje. Ele de fato preto, colete cinzento, camisa branca e tramelo preto a apontar para os sapatos, apertados, de verniz; ela com vestido e rabona de tule branca, uma grinalda no penteado que a cabeleireira estacou com dez borrifadelas de laca, mais um raminho de miosótis com rosinhas de Nossa Senhora, que é para ficar no altar da Santa Justa. À saída chove arroz, do trinca que sempre é mais barato, e na mesa do repasto já lá está o bolo, que o pai da noiva fez questão que tivesse quatro andares…
Pois claro, isto é coisa lá para os idos sessenta do século passado, ou coisa que o valha. Agora a gente pega os trapos e vive junto, experimente até que dê – sabe-se lá o quê – ou que rebente. Se der raia, vai cada um para seu lado, que é como quem diz, cada qual regressa para a sua mamã e para o seu papá. Pelos entretantos, partilha-se a cama, do resto cada um paga a sua, lava e passa o que é seu, enfim, trabalhos e dívidas à parte, basta o bem-bom…
Mas, toda esta conversa mole para perguntar: de onde raio vem o hábito de despejar arroz (que é caro, que diabo!...) em cima dos noivos?
Ao certo, ao certo não sei, mas vejamos:
Na época romana, nos finais de Abril ocorria a Floralia, uma festividade em honra da deusa Flora, ligada ao ciclo agrário e à fertilidade. Durante os jogos em sua honra realizados no Circo Máximo de Roma, os Ludi Florales, atiravam-se sementes sobre a multidão, gesto que exaltava o desejo de fertilidade e abundância. Esta solenidade, também associada às flores, à regeneração da Natureza e, por isso, profundamente ligada à Primavera e ao início do ciclo de fertilidade da Vida. Provavelmente deu mote a algumas tradições do casamento como, por exemplo, a feitura de  uma espécie de bolo (ou pão) feito com base em trigo e cevada, chamado mustaceum que, durante os rituais do casamento era costume o noivo escaqueirar o paparico em cima da cabeça da noiva. Em seguida, os noivos e os reinadios convidados entretinham-se a comer as migalhas, até as apanhar todas. Pelo meio, acontecia que os convivas enchiam as mãos com migalhas (as mais reles…) que depressa faziam voar sobre os noivos.
Também se refere que, nessa época, uma das iguarias presentes nesses festejos era o pequeno confetto, uma mistura de castanhas, frutos secos e mel, que embora acabasse por ser comida, também servia de arremesso sobre os noivos, numa intenção de prosperidade e futuro doce.
Naturalmente, esses pequenos doces (de pedacinhos de pão de noiva ou docinhos de frutos e mel, tudo passaria a designar-se por confettos), acabaram substituídos, primeiro por pétalas de rosa, depois arroz, até chegar aos quadradinhos de papel colorido.
Não será, de todo, desprovido de senso ad
mitir que esta variedade de rituais tenham a sua origem nas festividades a Floralia. Outros tempos.
Tudo isso acabou? Acha que sim?… Não!
Olhe aqui: confettos! Bem feitos, comprados ontem, doces e bem saborosos!…

 

 

casca grossa

Casca grossa pode ser qualquer um: homem ou mulher, novo ou velho, muito ou pouco letrado. É um espécime que fala alto, berra, atropela tudo e todos à sua volta, bolsa dez palavrões em frases de cinco palavras, cospe para o chão e coça-se sem freio nem recato. Mais ou menos isso.
O que significa não ser propriamente lisonjeiro dizer-se que fulano é um casca grossa.
A origem desta frase tem alguma coisa de singular e de humor. Sabe-se, exactamente, qual a sua origem. E também se sabe quem foi o autor.
A peculiaridade está no facto de ter sido a seu próprio respeito que ele a usou e daí ter ficado para memória futura.
Comecemos por algumas referências sobre a personagem que, com certeza, aos poucos, irão desvendando a identidade.
Viveu apenas 36 anos, mas de uma forma intensa, agitada e inspirada. Dizem que é dele a célebre frase independência ou morte, mas não é seguro que seja verdade. É verdade, sim, que foi herói nos dois lados do Atlântico, mas não é menos que tenha herdado de sua mãe o temperamento estouvado, grosso, imprudente e leviano. Igualmente agressivo, colérico, era notória a sua fúria no insucesso em qualquer litígio, por mais banal que fosse a causa ou disputa. Alegam os que de perto o conheceram (Alexandre Herculano e Garrett, entre outros) que a sua desconchavada personalidade se devia ao facto de ser epiléptico e ter sofrido alguns ataques em público.
Nem mesmo a sua sabida incapacidade para resistir a um rabo de saias, que deu azo a um sem fim de episódios, pode ensombrar a glória de…
(já descobriram de quem se trata?)
… Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim, assim mesmo. Pedro de Alcântara – em homenagem a S. Pedro de Alcântara, padroeiro da Casa Imperial do Brasil – Pedro I do Brasil e IV de Portugal, era um rei que sabia reconhecer os defeitos da sua personalidade e carácter: ‘Eu sou imperador, mas não me ensoberbeço com isso, pois sei que sou um homem como os demais, sujeito a vícios e a virtudes como todos o são’.
Não era muito ilustrado, mas tinha perfeita consciência disso: ‘A fruta é fina, mesmo que a casca seja grossa’, dizia frequentemente, humorado (1), a propósito de si próprio.
Apesar de tudo isso, no entanto, sempre teve uma enorme preocupação com a educação da sua numerosa prole: ‘Eu e o mano Miguel haveremos de ser os últimos malcriados da família’, escreveu.
E foram. Pelo menos, que se saiba.

(1) – Leia ‘o jantar de D. Pedro IV’. Pesquise por ‘jantar

 

 

 

(se queres ser polido traz agulha; e mais fio)