pôr nos cornos da Lua

Pôr nos cornos da Lua é elogiar alguém de modo exagerado. Esta expressão, crê-se, em analogia com outra, mais antiga, que dizia pôr nos carrapitos da Lua.
Carrapito é o nome que o povo dá a um atado de cabelo no alto da cabeça. Era vulgar, especialmente nas moçoilas, usarem dois carrapitos, um de cada lado da cabeça. Daí a derivação para um outro, figurativo: as pontas da Lua, ou os cornos da Lua.
No Alentejo, também se chama carrapito à parte mais alta de uma casa ou de uma árvore.

 

 

 

(o amor é como a Lua: quando não cresce, mingua)

obras de Santa Engrácia

Diz-se de qualquer construção que não avança ou, se se quiser, avança tão vagarosamente que se torna muito difícil prever-lhe a conclusão: são obras de Santa Engrácia.
Esta sentença teve origem nas celebradas obras da Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa (Panteão Nacional), começadas, pela segunda vez, em 1632 e que, em boa verdade, nunca mais tiveram fim. A crença popular atribui esta paralisação a um castigo divino, visto ter sido supliciado, como autor de um sacrílego roubo, um homem inocente.

A história (ou melhor, a lenda) conta assim: Na manhã de 16 de Janeiro de 1630, apareceu arrombado o sacrário da incipiente igreja de Santa Engrácia, tendo o ladrão levado apenas as sagradas partículas, deixando as várias preciosidades de culto (entre elas um busto de prata com a relíquias da santa, que a infanta D. Maria havia oferecido à paróquia), embora todas elas estivessem à sua disposição. A justiça tomou conta do caso, lançaram-se pregões em todos os pontos da cidade, inquiriram-se centenas de pessoas procurando saber o que tinham feito nessa noite. Depressa se tornou suspeito Simão Lopes Sólis, homem de boa condição, mas bulhento e, para sua maior desgraça, cristão-novo. Conta a história que foi encontrado na noite seguinte, nas imediações da igreja de Santa Engrácia; ia a cavalo, mas de cautelas havia entrapado os cascos da montada, a fim de lhe abafar o trote. Não lhe bastaria ser cristão-novo!, Sólis namorava uma freira do convento de Santa Clara, à qual ia ao encontro a desoras.
Ora um dos juízes, o jurisconsulto e poeta Gabriel Pereira de Castro, autor da Ulisseia, requestava a mesma freira e, como o preferido fosse Sólis, aproveitou o ensejo para tirar dali uma estrondosa desforra e vingança. Continua a história dizendo que, estando Sóis no cárcere, recebeu dois melões, um calado e outro inteiro, e um misterioso bilhete junto, com uma lacónica escrita, o calado é o melhor.
Conclui-se, na história, que aquilo não era tanto um conselho, mas antes uma súplica amorosa de uma freira que não se queria ver comprometida. Sólis calou-se, e a sentença foi proferida um ano depois, a 31 de Janeiro de 1631. O réu foi queimado vivo, depois de lhe terem decepado as mãos. Parece que o tal juiz Gabriel Pereira de Castro, de tanto remorso acabou enlouquecido, dizendo que via sempre diante de si o fantasma de Sólis. Morreria poucos meses depois.

Diz ainda a história que, poucos anos mais tarde, um indivíduo foi supliciado, em Castela, e que além do crime de que era acusado, confessou ter sido ele o autor do roubo cometido na igreja de Santa Engrácia, em Lisboa. Mais razão achou o povo para dizer nunca mais terem fim as obras de Santa Engrácia.

 

 

 

(nem sempre, sempre, nem nunca, nunca)