a lenda do Poço de Portucales

A água de Março é pior que nódoa no pano, avisavam já os velhos de antigamente. A verdade é que este Março foi bem aguaço, diz outro rifão a parecer feito de encomenda para as últimas semanas.
Mas já estava previsto que na primeira nesga de sol, iria esquadrinhar as sofraldas da Peneda até encontrar o pego de Portucales. E não foi fácil já que levava candil para caminho errado.Explicando com todos os efes-e-erres
Em 1785, um monge cisterciense de Pitões escrevia sobre um pego, a que chamavam o Poço de Portucales, à margem de um rio, vindo de Outeiro Maior, nas bandas cimeiras do concelho de Arcos-de-Val-do-Vez. E, à conta disso, narrava uma velha lenda que vinha dos tempos pré-romanos.
Assim:
Os cântabros ocuparam alguns pedaços da nossa terra e o que deles guarda a tradição não é de molde a louvar-lhes os costumes, pois que quase todas trazem modos de crueldade no seu entrecho. A Serra da Cabreira foi terra que eles habitaram nos primeiros séculos e a lenda, que me narraram e a tradição local conservou, marca bem a desumanidade que havia nos costumes desse povo rude. Em Cabreiro, passa um rio que vem do Outeiro Maior, água arrebatada e colérica que vai morrer no rio Minho e, no seu curso, quase acima da ponte, tem um pego a que chamam o Poço de Portucales. Debruçada sobre esse pego existe uma laje escura e escorregadia que evoca uma barbaridade sem nome.
Entre esta gente não existia respeito, nem piedade pelos anciãos. O velho que já não pudesse combater ou trabalhar era um ser inútil, uma carga desnecessária, a quem a comunidade negava o direito à vida, portanto sentiam-se autorizados a desfazerem-se desse membro dispendioso e imprestável. Quem quer que atingisse a decrepitude não merecia esperar tranquilamente a morte sob o tecto da casa onde tinha vivido e procriado. A crueldade deste povo obrigava-o a deixar a vida e, o que é mais repugnante ainda, era ao filho mais velho que competia dar-lhe o fim.
O Poço Portucales era o ponto destinado ao sacrifício; a sua profundidade e a laje escorregadia davam-lhe vantagens sobre os outros despenhadeiros.
Ora reza a tradição, e isso é uma honra para as gentes de Cabreiro, que foi ali que tal bárbaro costume sofreu a quebra.
Um dia, um filho carregava às costas o pai até perto da laje fatídica e, o velho, junto à ponte de Cabreiro, ao ver-se a chegar ao precipício perguntou-lhe por que o levava até ali. O filho disse-lhe que descansasse que breve chegavam ao destino. Então o ancião, serenamente retorqui-lhe:
– Bem sei onde me levas, meu filho. Levas-me onde levei o teu avô e onde te há-de levar o teu filho.
O filho meditou alguns instantes nas palavras do pai. Ajeitou o pai nas suas costas, voltou-se e tomou o caminho de casa.
E desde então acabaram esses bárbaros parricídios.

Assim conta a lenda do Poço de Portucales, pelos lados de Cabreiro, à esguelha da serra da Cabreira.
O cenobita de Pitões trocou as voltas ao rio vindo de Outeiro Maior: não vai morrer no rio Minho, como ele diz. O rio é o Vez (sabia que é o rio mais límpido de toda a Europa?...), que nasce um pouco mais acima de Outeiro Maior, lá quase na cumeada da Peneda.
A laje escura e escorregadia está um tiquinho mais pr’acolá daquela nesgueira que se vê ali, na curvelinha do aluvião, vê?, explicava-me a senhora  Rosa, na ponte de Cabreiro. Dali ó’pra cima o mato é tal que o rio vem lá d’arriba todo peneirado! A laje ‘tá p’ra lá, num se pode lá ir...
Não fui. Fiquei por ali, a ver o Vez a caminho do Lima.

grotesco

Embora enumerando vários significados, poucos são os dicionários que indicam a origem da palavra grotesco (grottesco, latim, de gruta).
Não encontrei um que explicasse a derivação. Mas ela será, porventura, esta: as famílias ricas da antiga Roma, tinham nos seus jardins, com bastante vulgaridade, grutas artificiais, onde gostavam de passar parte do seu tempo de lazer. Para tornar mais caprichosa a permanência nesses recôncavos, decoravam-nos com figuras pintadas representando seres extravagantes, burlescos e fantasiosos, ou, como hoje diríamos, grotescos.

Entre os muitos exemplos das figuras grotescas que chegaram à arte clássica, vemos o centauro, corpo de cavalo, ombros e cabeça de homem, o grifo, monstruosa combinação de leão e águia, a tão cantada scila, monstro marinho com cabeça de bela mulher e cauda de peixe, do qual os antigos poetas exultavam o perigo que representavam para os marinheiros que navegavam entre a Sicília (daí o nome) e a Itália (já na Idade Média, esta scila passaria a ser sereia e, embora não menos grotesca, muito mais poética…).
É precisamente na Idade Média que a arquitectura se apodera do grotesco para as carrancas e gárgulas dos palácios e, especialmente, dos templos. Uns dos mais clássicos exemplos são os demónios da Catedral de Nossa Senhora de Paris, imortalizados por Victor Hugo. A ideia de um demónio como um homem, mas com chifres e pés de cabra, com cauda e com asas de morcego, terá a sua origem, muito provavelmente, nos primórdios da arte grotesca.
Em Portugal, na pintura e no século XX, apareceu quem se especializasse na matéria; sabe quem é?
(ver bambochata)

 

 

 

(por que sabe tanto o diabo? Por ser velho)