pião das nicas

Estou nicado com o João, niquei o gajo, vai-te nicar
Expressão caracteristicamente nortenha, com base no verbo, transitivo directo, nicar (calão que significa prejudicar, maçar, lesar, aborrecer ou sacrificar), especialmente muito comum entre os adolescentes, no jogo do pião, até meados do século passado.
O jogo desenrolava-se à volta de uma roda riscada no chão e dentro da qual se colocava um pião, normalmente o pertencente ao perdedor do jogo anterior.
Cada jogador deveria lançar o seu pião, apanhá-lo em pleno rodopio com a palma da mão e atirá-lo contra o que estava no interior da roda no intuito de o jogar para fora dela ou, melhor ainda, no arremesso do pião conseguir acertar-lhe com a ponteira de aço, marcando-o e, com o impacto, atirá-lo para longe do círculo. Perdia quem não o conseguisse fazer sair da área de jogo.
O pião que, dentro da roda, estava à mercê de todas as investidas dos restantes jogadores, era designado por pião das nicas, naturalmente por ser o pião sujeito às nicadas de todos.
Assim, deste jogo sairia a expressão que era usada para apontar uma pessoa muito mortificada ou judiada pelos outros…
(desenho de Bruna Esteves, aluna da Escola Básica e Secundária do Vale do Âncora)

 

 

 

(pouco dano espanta e muito amansa)

 

Pedro-Cem

Pelas memórias dos portuenses ainda corre a lenda, ou a história, do rico negociante da cidade que, do alto da torre do seu opulento palácio, nos caminhos de Lordelo, se arrojara a desafiar Deus e ali, no mesmo instante, recebera o merecido castigo.
O episódio, a que o dobrar dos tempos lhe foi acrescentado foros de verdade, ter-se-ia passado numa calma tarde 
 de Primavera e é assim, mais ou menos, contado ao gosto popular:
Manhã cedo Pedro-Cem, a quem a Fortuna sempre bafejara, recebeu novas da numerosa frota que enviara às terras da Índia e do Brasil, indicando que em breve demandaria a barra do Douro, portadora de preciosidades e tesouros que o tornariam ainda mais rico e poderoso. Espaventoso e ufano, o rico negociante abrira as portas do seu palácio e convidara os amigos para o espectáculo magnífico que, do alto da torre, iriam oferecer os navios mal se chegassem à orla do horizonte, apontados que fossem à foz do rio. A frota, constituída por dezenas de grandes barcos, com as velas bojadas, navegava a todo o pano, demandando o porto, aproximando-se cada vez mais, podendo até já divisar-se que vinham mui carregados, com as bordas a tocar as águas serenas do mar. Orgulhoso e maravilhado, julgando já a frota a salvo, junto à embocadura da barra, Pedro-Cem, no auge da sua euforia e desmedida sobrançaria, por se supor já na posse daquela imensa fortuna, teria exclamado:
Agora nem Deus seria capaz de me fazer pobre!…
O repto atirado à face do Criador, fez estremecer todos os que tinham ouvido tal blasfémia, que se entreolharam com espanto. O sobressalto durou pouco e logo foi substituído por uma sensação bem mais violenta e terrível. O horizonte, até ali sereno, entre o branco e o azulado, cálido e acolhedor, anuviou-se num só instante: uma furiosa tempestade soltou, tremendos, os seus furores! As vagas encapelaram-se, medonhas, e ao rugido incessante e infernal toldado de negro, todas as naus foram violentamente atiradas à costa, despedaçando-me, uma a uma, contra os rochedos da praia vizinha. A tempestade descontrolada e brutal, ao mesmo tempo, fez descarregar dois, três ou mais raios sobre o palácio que, depressa, se transformou em fogo por todos os cantos, devorando tudo e tudo transformando em cinzas e escombros, deixando apenas as paredes a testemunhar o castigo divino.
O poderoso argentário, o comerciante omnipotente, concho e fanfarrão, caiu de súbito, fulminado, do seu pedestal de espavento, como ídolo de ouro a quem tivessem rachado os pés de barro, resvalando, inexoravelmente, para os abismos da miséria. Abandonado por Deus e pelos homens, começou, então, a arrastar a sua amaldiçoada existência pelas ruas da cidade, aparecendo de noite nos lugares mais escusos e menos iluminados, encoberto na sua vergonha, pedindo esmola. E numa cantilena dolorosa, relembrava o seu passado de grandeza ao lamuriar com voz rouca:
– Dai esmola a Pedro-Cem, que já teve e agora não tem!…
Esta história (ou lenda) teria, porventura, ocorrido, talvez, pelo século XV, e o seu protagonista bem poderia ter sido um rico negociante a quem, qualquer catástrofe, o tivesse reduzido à miséria.
Houve, é verdade, no Porto, duas famílias com nomes semelhantes: Pero-do-Sem e Pedróssens. Esta última, derivada de certo negociante hamburguês que, na segunda metade do século XV, veio para o Porto e aí enriqueceu, deixando descendência que, mais tarde, aparece ligada a alguns Costas e Almeidas, Vanzellers e outros. Nos começos do século XVI, a quinta da Torre de Pedro-do-Sem passou para uns tais Brandões Sanches, mais conhecidos pelos Brandões da Torre da Marca. É indubitável que já no século XV existia uma torre, denominada Pedro-Cem, a torre que ainda hoje se encontra defronte dos jardins do Palácio de Cristal.
É um edifício caracteristicamente medievo, com as suas portas e seteiras em ogiva, construção que deveria, com certeza, destacar-se isoladamente na sua solidão secular.
Esta história já teve, até, honras de romances e narrativas. Em 1811, Luís Maria Feijó publicou Pedro-Cem, António de Burgain, um professor francês radicado no Rio de Janeiro, escreveu, em 1847, uma peça dramática sobre ‘o que já teve mas agora não tem’. Rafael Augusto Sousa, Braancamp Freire e Sousa Viterbo, foram outros autores que escreveram sobre Pedro-do-Sem ou Pedróssens
Mas, a verdade, é que na memória do povo, foram ficando as peripécias das histórias de cordel, as canções dos ceguinhos, em prosa e verso, a descrever em linguagem simples e cheias de emoção aquela história que, ainda hoje, muitos dão como verdadeira…