ficar a ver navios

Usa-se para demonstrar o estado de alguém que ficou decepcionado por não ter conseguido atingir os seus objectivos, e por isso é um claro exemplo de desalento e desgosto, por vezes rancor ou cólera, em situações mais extremadas.
Desta preposição há algumas alusões a origens históricas.
A mais antiga refere D. Manuel I e umas rocambolescas jogadas políticas com os judeus expulsos pelos Reis Católicos e que o nosso D. Manuel fingiu deportá-los e acabou por baptizá-los compulsivamente declarando-os cristãos-novos para, desse modo, não perder força de trabalho, comerciantes e intelectuais, que eram em número suficiente para, assustado, sentir necessidade de urdir aquela trapaça. Dizia-se depois que os judeus ficaram a ver navios
Mais tarde, a segunda hipótese (talvez a que mais apele ao sentimento…) lembra o desastre de Alcácer-Quibir, a alegada morte de D. Sebastião e o mito do sempre adiado regresso a Portugal do Rei desaparecido.

Seria muita a gente a subir até ao Alto de Santa Catarina, lugar privilegiado para a observação da barra do Tejo, na esperança de avistar a nau que haveria de trazer o Rei de volta. Ir a Santa Catarina, não ver chegar o Rei Desejado e ficar a ver navios era, por isso mesmo, uma brutal decepção.
A outra teoria – a que me parece mais consistente – estabelece que a origem para o dito está relacionada com a primeira invasão francesa. O General Junot (o tal que está na origem de viver à grande e à francesa…) que pretendia chegar a Lisboa a tempo de aprisionar a Família Real, conseguiu, enfim, chegar a Lisboa à frente de dois regimentos, mas em muito má condição. E, a 30 de Novembro de 1807, quando o caudilho chega a Lisboa, a Família Real havia partido para o Brasil precisamente na véspera, e assim, deixou Junot, literalmente, a ver navios.
(a imagem é uma caricatura de um jornal inglês, publicado em 1 de Janeiro de 1808, alusiva ao desalento do general francês)

 

 

 

(antes no caminho de carro velho, que no mar em navio roto)