para inglês ver

É um dito português usado como exemplificativo de se mostrar alguma coisa apenas pela aparência, ou seja, qualquer coisa que não se deve levar a sério, pois que é encenada para a ocasião ou para o efeito.
Muitas opiniões asseguram existirem várias possibilidades para a origem do dito, sendo que duas parecem mais consistentes: uma com origem no Brasil, outra em S. Tomé e Príncipe, países na altura sob domínio português e ambas relacionadas com a época final do tráfico de escravos.

Quando a Inglaterra promulgou o fim do tráfico esclavagista, fez acompanhar a promulgação da lei de algumas directrizes económicas tendentes a embargar o comércio com países que ainda adoptassem a prática.
No caso português, a empresa Cadbury, a maior compradora da noz de cacau são-tomense, chegou mesmo a suspender as suas aquisições desta matéria-prima, em virtude de nas plantações ser utilizada mão-de-obra escrava. As inspecções formais da Cadbury, preanunciadas, levavam os fazendeiros a encenar o emprego de população não escrava, para inglês ver com o objectivo de tranquilizar o comprador e permitir que ele mesmo se assegurasse do cumprimento dos requisitos exigidos.
Algumas leis brasileiras emitidas pelo Governo da Regência em 1831, que nunca chegaram a ser levadas à prática, que proibiam a encenação do para inglês ver o tráfico de escravos, acabaram por ser letra morta para a realidade do peso económico (que calava qualquer intenção contrária…).
Finalmente, uma segunda lei, datada de 1852 e promulgada pelo Imperador D. Pedro II veio erradicar definitivamente o uso económico da escravatura.

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(dos enganos vivem os escrivães)

o pior cego é o que não quer ver

Diz-se da pessoa que se recusa a ver o óbvio, o que está à sua frente. Obstinadamente nega-se a ver e enfrentar a verdade.
Conta-se que, em Nimes, França, pelo ano de 1647, na universidade local, o doutor Vincent de Paul D’Argenrt fez o primeiro transplante de córnea a um lavrador de uma aldeia próxima. Foi tido com um sucesso para medicina da época, excepto para o paciente, que mal consciencializou o que passou a ver ficou horrorizado com o mundo que via.
Afirmava, fora de si, que o mundo que imaginara durante toda a sua cegueira era muito diferente e melhor. Por isso suplicava ao doutor D’Argenrt que lhe arrancasse os olhos. O caso iria correr nos tribunais, de Nimes a Paris e haveria de chegar até ao Vaticano.

O operado acabaria por ganhar (pelo menos ser satisfeita a sua vontade) e, assim, entrou para a História e para a oralidade popular como o cego que não queria ver.
Outros houve, outros há…

 

 


(bem cego é quem muito vê por aro de peneira)