sal na moleira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Contava-me a amiga Dulce que num fim-de-semana que passou na casa da mãe, em Vieira do Minho, a meio da tarde de sábado, estavam a merendar quando a sua mãe perguntou ao neto se queria maçãs. Ela sabia que o filho não é muito dado a comer fruta e, por isso, não estranhou quando ele se saiu com aquela desculpa esfarrapada, dizendo à avó que gostava mais das do supermercado.
Diz a Dulce que a mãe encolheu os ombros, sorriu-se e atirou ao neto que não te puseram sal na moleira.
E… o que é isso?, perguntou a minha amiga.
Não é fácil, não é fácil… Mas vamos por partes.
Ao que parece o consenso diz-nos que o preceito é de origem espanhola (poner a alguno sal en la mollera) e terá como origem o ritual do baptismo que põe sal na boca dos baptizados para que, de futuro, as suas palavras sejam adubadas pelo sal da sabedoria (accipe Salem sapientæ).
Por extrapolação criar-se-ia o dizer pôr sal na moleira, quando, já crescido, parecer ter falta de ponderação, entendimento, cautelas ou senso e, assim, por o sal no sítio adequado, na moleira, onde deve, (devia!…)  estar o juízo.

Bom, mas eu disse que não é fácil; e não é.
Contam outros que, dantes, quando se salgavam os porcos e se penduravam as partes no fumeiro, recomendava-se às crianças que não passassem por baixo, para não lhes cair o sal na moleira, pois o sal, com vinagre e à mistura com gordura, iria fazer cair o cabelo. Daí ter-se-ia criado o dito, mas pela afirmativa, puseram-te sal na moleira, quando alguém queria fazer chacota de um… careca.
Não será este o conceito da asserção usada pela avó, mas há hipótese do dito ter outro sentido, isso há. E assim, em que ficamos?

Escolham!
(ver agarrar pelos cabelos)

 

 

 

(cabeça sem espírito é um bocado de osso)

por que bulas?…

Lembro-me, em miúdo, dizerem-me por que bulas coças tu as impinges?… Ná vês que ficas c’â pél talhada!, isto quando tive sarampo. Daí que não entendo esta expressão…, escreveu-me o David Cerqueira, a propósito desta velha frase feita.
É compreensível a confusão. Acontece que este bulas não advém do verbo bulir (mexer, incomodar, tocar ou agitar), tão em uso nos dialectos, mormente no Minho ou Trás-os-Montes.
Trata-se de um substantivo, no caso a habilitação pontifical que, com particular incidência na Idade Média, era uma escritura, uma benesse ou prerrogativa, muito importante dado o seu valor de lei. Bula porque o documento era lacrado com uma pequena bola (bulla, em latim) de cera ou chumbo.
Daí que, por analogia, quando alguém se depara com um acto inusitado, interrogue, com justificado pasmo, por que bulas (documento ou lei) isso é permitido.

E nós sabemos que já tanto se faz sem bulas..

 

 

 

(coitados dos cordeiros quando os lobos dizem ter razão)