discutir o sexo dos anjos

O ponto original da expressão será, com certeza, a conquista de Constantinopla pelo exército Otomano, em 1453. Constantino XI, da dinastia paleóloga, foi o derrotado e o último bastião do Império Romano, quase mil anos depois da queda do Império no Ocidente, desabou com estrondo.
Dizem as crónicas que, durante o cerco à cidade pelas tropas maometanas, as autoridades locais mantiveram-se reunidas em concilio, alheadas do fragor das hostilidades e da tragédia iminente, alimentando acaloradas discussões teológicas, entre as quais a pendência de doutrina que explicasse se os anjos tinham sexo, ou não.
O imperador foi morto e, por sua vez, o Império ruiu definitivamente.

Constantinopla, a actual cidade de Istambul, também era conhecida por Bizâncio (derivação do rei grego Bizas, que fundou a cidade, Mégara, no séc. I a.C), foi a denominação romana adoptada para referir o sistema político e cultural seguido pelo Império, naquela região. O termo bizantismo (ou bizantinismo) acabaria por se tornar numa expressão negativa, associado não só à narrativa da queda do Império como, mais tarde, sugerir teias de intrigas, crimes e traições que, de alguma forma, ilustravam os últimos anos de Roma no Oriente.
Daí que a expressão discutir o sexo dos anjos (criar discussões estéreis deixando de parte o que é importante, perdendo-se em argumentos e complexidade não só inúteis, como também mistificadores, artificiosos, frívolos e pedantes), seja também sinónima de uma outra, evidente, que é discutir ou argumentar de modo bizantino.
A propósito, um outro lado do Bizantismo: a arte. Caracterizada por um acentuado pendor em ornamentações e simbolismos, tem os seus exemplos mais famosos nas Catedrais de São Marcos, em Veneza e na de Santa Sofia, em Istambul.

 

 

 

(os anjos que digam ámen)

trazer água no bico

Embora não haja, em definitivo, um verbo para conjugar a expressão (de facto usa-se, indistintamente ter, trazer, levar), o facto é que ela pretende exprimir uma intenção oculta, um segundo fito que, genericamente, podemos associar a um golpe aleivoso.
É, porventura, na marinhagem que vamos encontrar a génese da frase.
Na verdade, em termos náuticos, a proa, ou a vante, de um barco, logicamente associadas ao bico das antigas embarcações (especialmente os veleiros, lugres bacalhoeiros ou, mais actualmente, a maioria dos barcos das escolas navais; no caso português a Sagres ou o Creoula), era comummente referida como bico da proa.
(refira-se, a propósito, que o termo vante alude à figura humana ou mitológica, quase sempre colocada no topo da proa, com a intenção de proteger a embarcação)
Acontece, pois, que quando, no linguajar marítimo, se diz navegar com a água no (ou pelo) bico, isso quer significar que se vai a navegar contra a corrente, ou seja, em tal situação de perigo que não permite prever o que possa suceder, sendo possível sofrer um eventual, rápido e traiçoeiro golpe do mar.

 

 

 

(picar a isca e trincar a sediela)