trabalhar para o bispo

Aforismo que se entende como trabalhar sem lucro, benefício ou interesse.
Explica-o as origens em antigos costumes medievos, de extorsão e corveia que a nobreza e o clero impunham aos vilões, que pagavam vários tributos: mortualhas, colectas e as terças, que as haviam pontificais, para a mitra, e reais, para o trono.
Existe, na Toscana, o provérbio percare pel consul que tem o mesmo sentido.
É que um magistrado florentino, o procônsul, tinha o privilégio da pesca entre as duas pontes sobre o Arno, a velha e a nova. Também na França se diz travailler pour le roi de Prusse. Embora atribuída a Voltaire, trata-se de uma locução popular, cuja origem está no senso de economia, melhor dito, de avareza, dos primeiros reis da Prússia. Mesmo Frederico II arranjara um meio de pagar um dia a menos de soldo aos seus soldados, nos meses de trinta dias…
Lá ia um dia para o bispo, para o cuco, para o boneco, para aquecer, para o ganga, pela borda fora

 

 

 

(pôr anel de ouro em focinho de porco)

uma mão lava a outra

O mais evidente no pressuposto inicial deste postulado é que uma mão… não se lava sozinha.
De onde surge uma apropriada alegoria e incitamento à solidariedade. A ajuda mútua, principio que, entre nós, tão generosos e proveitos resultados deu nas aldeias comunitárias, das quais alguns ainda têm memória de Vilarinho da Furna ou Rio de Onor (Rihonor de Castilla, que é dizer o mesmo).
O modo de alegar o postulado pode ser feito (e foi) mostrado pela face inversa.
Acredita-se que a referência original esteja na obra Satyricon, talvez escrita em meados do séc. I, d.C., por Tito Petrônio Árbitro, mestre da prosa mordaz e crítica aos costumes e política sobre a Roma dos tempos de Nero, ambiência que ele retrata de modo tão zombeteiro como solene para, muitas vezes, resvalar para artifícios retóricos maliciosos e vulgares demais.
É essa trama, tão decadente como violenta, que Frederico Felini (1920-1994) retrata através de um trio de rapazes envoltos numa alucinada paixão (Satyricon, 1969). Seja por Petrôneo ou por Felini, a civilização ocidental sai brutalmente enxovalhada: apesar de vinte séculos os separarem, ambos apontam que a maior falta é justamente a solidariedade.
Amanhã será melhor, há-de sempre dizer o optimista. Talvez por isso, do aforismo, tivesse nascido outro:
Uma mão lava a outra e as duas lavam a cara.

 

 

 

(juntam-se seis para ajudar seis e o peso vai parecer de três)