31 de Janeiro de 1891 (parte I)

O espesso nevoeiro dissipava-se ao lento despontar da manhã, enquanto as tropas surgiam; à luz matinal, como que docemente aloiradas.
Estavam à vontade, na Praça de D. Pedro. Os paisanos enchiam o resto da praça e como o frio apertasse ainda, ofereciam infusões, chás e cafés aos soldados, numa solicitude a querer parecer cumplicidade; davam-lhes cigarros, enchiam-nos de abraços e outros mimos. Até havia mulheres com cestas, pães e farnéis a distribuir o desjejum aos rebeldes.
Ouviu-se um toque de requinta, logo outro de repetida, e numa pressa, em linha certeira e correcta formaram os regimentos. Abriam-se, então, as janelas da Casa da Câmara e apareceram uns vultos, caudilhos e cúmplices, gente chegada aos revoltosos, mais uns quantos repórteres, boémios de todas as madrugadas, tudo em curiosidade intensa. Tinha batido nas torres a meia hora depois das sete. Um pelotão, às ordens do sargento Augusto Salgado, destaca-se da coluna e marcha para a tomada do telégrafo, enquanto uma esquadra do 10 de Infantaria, alteava um estandarte vermelho com letras verdes, que fora buscar a casa de um dos membros do Centro Democrático Federal, ali à rua de Santo André.
Santos Cardoso mostra-se à varanda. Felizardo Lima seguia-o também e o advogado António Claro, o doutor Pais Pinto, o abade de S. Nicolau, o actor Verdial, o chapeleiro Santos Silva e mais umas quantas figuras da revolta que acaudilhavam Alves da Veiga que acabava de assomar à varanda, de chapéu alto, e fazia um gesto para calar os vivas que irrompiam e, então, começava o discurso em que declarava destronada a dinastia de Bragança. Dizia que se tratava da regeneração da Pátria e declarava a República o ideal de ventura. Ênfase e emoção na palavra, enrouqueceu-lhe a garganta, sumiu-se-lhe a voz, e já Felizardo Lima, impaciente, o interrompe, zangado e aflito:
‘- Acabe lá com o discurso, homem!…’
E o chefe da revolução, que gatafunhara num envelope os nomes dos inventados membros do ‘Governo Provisório’, apenas titubeou mais algumas frases, entre os vivas, os aplausos e o delírio dos populares e logo cedeu a palavra a Verdial que, num vozeirão reboante de quem está no final da peça, atira à multidão aqueles apelidos indicados para o serviço heróico da República proclamada:
Rodrigues de Freitas, lente; Joaquim Bernardo Soares, desembargador; José Maria Correia da Silva, general de Divisão; Joaquim Azevedo e Albuquerque, lente.’
A cada nomeação ouvem-se brados apoteóticos, vivas à República. Na cimalha do Munícipio, numa haste bem alta, tremulante ao sol da manhã, içava-se a bandeira encarnada e verde. As tropas, perfiladas na Praça, apresentavam armas e o actor, voltando o sobrescrito, exagerando o seu gesto teatral, continuou a ler:
José Ventura dos Santos Reis, médico; Licínio Pinto Leite, banqueiro; António Joaquim de Morais Caldas, lente’, e o último, o que ele apontava com largos e dramáticos gestos, apregoou levantando ainda mais a voz dizendo ‘e Alves da Veiga! Viva a República! Viva o Governo Provisório!
Acenavam-se lenços, gritava-se, cantava-se; sentia-se a vitória em todos os rostos, em todos os olhos. O Sebastião, o dono do quiosque da Praça, do lado dos Clérigos, esvaziava o estabelecimento para as dádivas à soldadesca. O entusiasmo estourou quando reapareceu o sargento Salgado, com a escolta em braço de armas, cumprida a missão que lhe fora incumbida.
António Claro e Tomás Brito – que se aventuraram até à Serra do Pilar onde receberam a grata nova da impossibilidade da saída da artilharia – partiram apressadamente e num instante galgaram pela rua Passos Manuel, chegaram ao cimo da íngreme ladeira de Santo António e penetraram no quadrado da Municipal. Cavalaria e Infantaria, reluzentes de armas e metais, estavam ali, prontos, firmes, e voltavam-se para os Clérigos, Batalha, Santa Catarina e Santo Ildefonso. Junto do Hotel Portuense, à esquina, estava o major Graça, a cavalo, sereno e esfíngico. Foram avançando, acercaram-se, falaram-lhe e pediram-lhe para os acompanhar, e ele só lhes respondeu que só recebia ordens do quartel-general. Apenas lhe arrancaram esta frase e deixaram-no, indo de corrida para a rua Duque de Bragança, em demanda do que haviam comprometido com Correia da Silva. Encontraram-no à porta da escada, fardado de general de Engenharia. Tinha aguardado os delegados dos corpos da revolução e ao ver ali dois civis, o militar explodiu, soltou a sua cólera, indignando-se por o terem deixado ali, sem notícias e sem a consideração de lhe enviarem oficiais, como se tinha combinado.
Que partisse, que fosse com eles, talvez a sua presença salvasse o Movimento’, solicitavam-lhe.
Que não, que já era impossível, que tinham chegado muito tarde’, respondeu-lhes desesperançado.
A corroborar as suas afirmações ouviu-se um tiroteio rápido, estalidos distantes, depois mais vivos, mais repetidos, mais fortes.
A Municipal está a combater’, dizia ele, e num gesto desolado, encolheu os ombros agoirando a derrota.
As tropas, ladeadas pelo povo, tinham marchado ao som da Portuguesa. Cantavam-na como se fosse um hino religioso. A Guarda Fiscal ia à frente, seguiam-se os Caçadores, alguns poucos soldados do 18 e logo a seguir uns tantos do 10. De súbito um toque de corneta, vindo de cima. Mandava fazer alto e meia volta imediatamente. Caiu-se numa surpresa total: ordenava-se-lhes a retirada e lá no alto da Casa da Câmara, o estandarte desfraldado – que se enxergava de longe, visto da Relação pelos presos e sendo para João Chagas uma nervosa esperança – parecia marcar o triunfo. Ao mesmo tempo notou-se que a Guarda apontava. Levantaram-se ainda mais alto os vivas à República e ao exército e um novo toque subiu, embora sem dominar a barafunda entusiástica. O capitão Leitão, ao escutar dois tiros de revólver disparados entre a turba, saltou para a frente das tropas e pretendeu obrigá-las a avançar, sem moverem as armas. Porém, já dois guardas-fiscais lhe apontavam as suas e ele gritava que os do lado oposto não lhes fariam mal. Levantara os braços, em sinal de paz, a avisar aqueles que lá em cima aprontavam as armas, levando-as à cara. Prosseguia a música, as frases da Portuguesa ressoavam por todo o lado:
Contra os canhões,
Marchar! Marchar!…
                                                                    (conclui com a parte II)

 

8 comentários sobre “31 de Janeiro de 1891 (parte I)

  1. tinta permanente 10 Fevereiro, 2010 / 14:07

    Rosa dos Ventos
    Ai que a 'pronúncia do Norte' anda tão rouca! A não ser que lhe mexam na bola, nem se ouve, coitadinha…
    Abraços!

    APC
    Não é aqui o espaço próprio e, até, adequado a que fosse possível melhor e mais pormenorizar este (e outros…) indícios de despontar da República. Onde, talvez, não ficasse mal, e até viesse bem a propósito, comparar com o que se passaria nas vésperas de Abril e, depois, espraiar o olhar pelo que se seguiu sobre ambas as 'searas' de Esperança!…
    O quiosque? Pois, o quiosque! Tem honras de exclusividade, pois então!…
    Abraços!

    tintapermanente

  2. APC 9 Fevereiro, 2010 / 00:03

    E é que concordo ali com a Baila sem peso, e em duplicado: do desfôlego (lol) e na precisão da releirura. Mas tá bom de ver que a história para mim tem que ser lida, bilida e trilida. E ainda bem, porque ler-te biler-te e triler-te é um prazer multiplicado. Belíssima escrita!!!

    Agora vou tirar "bilherte" – xi, que piadinha mais à Tóino Carrapato! :-S

    PS – Perdoai a pergunta, mas esse tal de quiosque era o da Praça da Liberdade? Se sim, ainda existe, certo?

  3. Rosa dos Ventos 8 Fevereiro, 2010 / 11:39

    Já então havia "a pronúncia do Norte"… :-))

    Abraço

  4. tinta permanente 7 Fevereiro, 2010 / 19:25

    Baila sem peso
    Não é preciso ficar sem fôlego, credo!…
    A 'Portuguesa' já se toca em qualquer 'salão de festas'!…
    Haja sol, amiga, haja sol…
    abraços!

    Justine
    Mas foi só (infelizmente…) um 'episódio'!
    abraços!

    Bartolomeu
    Não sei. A verdade é que também não sei com que bandeira a 'coisa' vai!…
    (mas com o Xico Pardo a mais o Tóino Carrapato, não sei, não; se calhar…)
    Abraço!

    gaivota
    isso mesmo: república! Porque República, não me parece não…
    abraços!

    …e aos silenciosos passantes
    republicanos agradecimentos!

    tintapermanente

  5. gaivota 3 Fevereiro, 2010 / 11:13

    excelente!!!
    e assim foi nascendo a república!
    espero o resto…
    beijinhos

  6. Bartolomeu 3 Fevereiro, 2010 / 09:04

    Excelente e xaltada descrição, meu amigo Tinta!
    E se o actor Verdial com o seu vozeirão reboante, atirasse à multidão, em lugar d´aqueles apelidos indicados para o serviço heróico da República proclamada:
    Rodrigues de Freitas, lente; Joaquim Bernardo Soares, desembargador; José Maria Correia da Silva, general de Divisão; Joaquim Azevedo e Albuquerque, lente.’… os nomes de: Tóino Carrapato, trolha, Manel Garré, peixeiro, Xico Pardo, sapateiro, Afonso Fortes, pedreiro… será que hoje, Portugal ainda hasteava a bandeira da monarquia?
    😉

  7. Justine 2 Fevereiro, 2010 / 15:39

    Que estupendo relato deste episódio nortenho da nossa História!

  8. Baila sem peso 31 Janeiro, 2010 / 13:43

    Ó meu amigo esta é de tirar o chapéu!!!
    E depois até ´tou sem fôlego!:)
    que isto de se ler e perceber
    tem um pouco, de se ficar trôpego (ga – mas não rimava)!:)
    Ouvi solenemente A Portuguesa
    vou esperar segunda parte com certeza!
    (e tenho de ler melhor…
    com as duas partes deve ter mais sabor…
    e não sei se não preciso explicador!):)
    CDF(vermelhinho para quem bem vê!)

    Meu beijo a cantar com um domingo de pouco sol no ar e umas dorzitas a atentar 🙂

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