31 de Janeiro de 1891 (parte II)

(a proclamação na Câmara, frente à Praça Nova)

A revolta estava no auge. Uma descarga cerrada fez recuar a coluna quando ainda os soldados da revolta começavam a carregar as armas; varejados, os populares, fugiam, atropelavam-se, perdiam-se na balbúrdia dos gritos e do tiroteio. A Guarda Municipal, bem entrincheirada, atirava contra os rebeldes, que ripostavam já ao acaso, sem chefes, a espaços, na rua de Santo António. O capitão Leitão, ferido na testa, refugiara-se no portal de uma casa e ordenou ao corneteiro que o seguia que tocasse o cessar-fogo. Mas, na confusão geral, tal já não era possível. Os lajedos tingiam-se de vermelho, as armas que os rebeldes abandonavam, eram agora empunhadas por civis. O alferes Malheiro batia-se, de peito descoberto mas, depois, arrastado pela turba, sumiu-se para as bandas do Convento. Manuel Maria Coelho dizia a um soldado ‘Está tudo perdido; está tudo perdido desde o começo…’.
Os rebeldes recuavam para a Casa da Câmara e tomavam as janelas como improvisados abrigos nas ombreiras. Mas o combate, rápido, parecia chegar ao termo. Cada um lutava já por si, sem comando, deitando-se junto aos passeios, ao lado dos cadáveres e dos feridos, ou procurando resguardos nos vãos das portadas. Havia alguns que se afoitavam ao meio da rua ou da praça, atiravam aos soldados da Municipal e depois logo fugiam para os amparos de ocasião. Os da Guarda Municipal, em maior número, atacavam em fúria, e avançavam fazendo trincheira de tudo quando encontravam no caminho, fosse uma árvore ou mesmo os quiosques da praça. Foram quase duas horas de ímpeto, não de guerra, mas de caçadas, de lado a lado, na rua, na praça onde se estatelavam corpos e apareciam abandonados toda a sorte de objectos: chalés, guarda-chuvas, espingardas, revólveres, correame e até sapatos de mulher!…
Na Casa da Câmara, ainda restava quase uma centena de bravos resistentes, entre os quais o sargento Abílio que não calava os seus vibrantes vivas à República. Já tinham soado as dez da manhã e apesar do chefe revoltoso querer mandar arriar a bandeira verde e vermelha que flutuava ainda no topo da casa, contra ela, e em maior sanha, se batiam os da Guarda, à medida que a resistência ia diminuindo.
Os dirigentes da revolta desapareceram por entre carinhosos abrigos e auxílios que iam surgindo um pouco por todo o lado. Os cafés mantinham as portas cerradas, as patrulhas da Guarda, metidas nas suas capas de oleado, alteavam os seus alertas que apenas já rasgavam o silêncio mortal que envolveu a baixa da cidade. Ao fim do dia a praça estava deserta. Apenas entre grupos de soldados, a estátua negra de D. Pedro IV, a cavalo, empunhando a Carta, parecia quedado de espanto à imagem da Câmara esburacada por tamanha fuzilaria.
O capitão Leitão seria preso no dia seguinte, denunciado por um padre. O alferes Malheiro acabou, com ajuda amiga, por embarcar para o Brasil. Alves da Veiga chegaria a Paris. Entretanto, na Cadeia da Relação, o jornalista João Chagas, que havia sido condenado pelos seus escritos, assiste desolado, ao silêncio tormentoso que se abate sobre a cidade.
Uma ventania rija sacode as últimas esperanças e tudo se acoita e sossega sob a capa branca do nevoeiro que envolve a cidade amortalhada.
Durante umas horas, no Porto, instaurou-se a República.
O país, esse, teria de esperar mais dezanove anos…
(ver trinta e um)

 

 

 

5 comentários sobre “31 de Janeiro de 1891 (parte II)

  1. tinta permanente 14 Fevereiro, 2010 / 17:48

    APC
    Alguns fugiram, é verdade, outros foram presos, desterrados, embora uns quantos acabassem por regressar poucos meses depois. Um dos que, (fugido para França) viria a ter papel de relevo no vitorioso dia de 5 de Outubro, seria Alves da Veiga, deputado e ministro da nova República.
    Entre o 31 de Janeiro e o 5 de Outubro aconteceram vários episódios, diria, tentativas ou preparativos, para o assalto final; entre elas, de facto, um ficou conhecido como o 'Golpe da Biblioteca' (na ocasião própria o referirei…). Quanto à rua 31 de Janeiro, que foi de Santo António e voltou a 31 de Janeiro, talvez um dia se ache precisa para outra data (revolução) mais actual…
    E, quanto ao resto, acho que fizeste uns T.P.C. bem aprimorados!…
    18 valores, diria o professor Marcelo!
    abraços!

    tintapermanente

  2. APC 10 Fevereiro, 2010 / 23:39

    Bom, e agora vamos lá ao que eu li (sim, porque a História não me sai de dentro, que cá dentro é muito ôco no que a ela diz respeito):

    – Posto isto, alguns dos intervenientes no levantamento militar não tiveram outra hipótese senão dar de fuga do país (voltariam eles?; quando e com que funções?);

    – Outra "revolta de cariz republicano" (cito) teria ainda lugar antes do 5 de Outubro: um tal Golpe do Elevador da Biblioteca (de que nunca ouvira falar, lamentavelmente);

    – Após a implantação da República, passa a haver uma a Rua 31 de Janeiro, em honra do movimento revolucionário que fizeste o favor de nos explicar… brilhantemente!

    Este, o T.P.C. que me levaste a fazer. Depois de uma boa aula, era a consequência lógica. Obrigada! 🙂

  3. tinta permanente 10 Fevereiro, 2010 / 14:14

    Baila sem peso
    Pois é minha amiga: até para as revoluções… o tempo 'tá de chuva!
    Abraços!

    Bartolomeu
    O Povo, esse, já dizia Juvenal no século I quer 'pão e circo': ou, como dizem que dizia Salazar 'futebol, fado e Fátima'.
    (se calhar agora faz jeito uns cartõezinhos de crédito…)
    E, como tem sido sempre, lá vai cantando e rindo!…
    Abraço!

    …gente que passa
    passem bem!

    tintapermanente

  4. Bartolomeu 8 Fevereiro, 2010 / 09:22

    Ainda um pouco no seguimento do anterior comentário, e um tanto na linha do "se o meu cão não ladrasse, seria um gato?", considero que: Se as revoluções se dão, é porque em um determinado momento, diferentes vontades convergem e prosseguem num sentido.
    As revoluções nascem, sob a égide de idealismos mas, algumas abortam, outras conhecem o sabor do êxito.
    Dividem-se hoje os ideais, como em outras épocas. Alguns anseiam pelo restauro da monarquia, outros entendem que o regime deveria ser presidencialista e autárquico, outros, os que detêm o poder, entendem que não se nhor, que como está, é a única forma de estar bem.
    E o povo?
    Aquele que aplaude, que elege, que dá corpo, que gera e que produz?

  5. Baila sem peso 7 Fevereiro, 2010 / 21:47

    E o Norte aqui bem se relata!…
    revolução que pára, outro dia prepara
    ah, e o Vitorino com a Maria da Fonte!
    …já antes o povo tinha no horizonte
    que em 1846 era avante Minho p´ra vencer!…
    que será agora, que virá a seguir?
    é só perguntar a Tinta Permanente
    que ficamos logo a saber!!!
    e o povo vive nesta ansiedade
    e o avante portugueses
    fica assim muitas vezes…
    na espera pois…da "verdade"!

    Um beijo, bom ínicio de semana
    Tempo`tá de chuva esse não engana…

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