a azenha do rio Ave

Na maioria dos rios do Minho podem ver-se ruínas de muitas azenhas. Talvez, as mais faladas (pelos maus exemplos do que se fez) sejam as que as barragens do Gerês escondem. De entre todas, hoje, trago-vos aqui uma que, porventura, será única em toda a Península Ibérica.
Junto à foz do rio Ave (que já foi, como outros, um rio fresco, límpido e de idílicas margens…), mesmo junto à embocadura de Vila de Conde, defronte do majestoso – e abandonado!... –  Mosteiro de Santa Clara, na margem esquerda, ao baixio do Monte de Sant’Ana, existe uma azenha (fotografia de 1901), provavelmente quinhentista, acastelada, onde se adivinha a sua inicial robustez e importância pela estrutura granítica paralelepipédica, nas gárgulas de canhão da cornija e no brasão já arfado, sobre a porta.
Logo ao primeiro olhar, torna-se evidente uma provável intimidade entre a azenha e o Mosteiro, ali defronte. Consta que em meados do século XV, a azenha e os seus benefícios eram posse do Marquês de Vila Real, D. Pedro de Meneses, fidalgo de Cantanhede, que seria aparentado com a Abadessa do Mosteiro, naquele tempo. Talvez seja deste D. Pedro o túmulo dos Senhores de Cantanhede, que repousam no Mosteiro. Mas não se sabe ao certo.
Já houve, ao que se escrevia nos começos do século passado, um torna-viagem (era assim que se apelidava os emigrantes que regressavam do Brasil, com a sacola bem pesada) que ali queria instalar a família, o cão e o papagaio. A ideia era tão bacoca como a recente tentativa de lá abrir um restaurante, desses ao mando de chef
Os intentos, e se mais houve, não conseguiram levar a água ao seu moinho. E ainda bem. Mesmo que o estado lastimoso da ruína magoe o olhar, sempre deixa que, quem por lá passe, possa adivinhar o trabalho da azenha, o cuidado do moleiro nas guias da água, e o cheiro adocicado da farinha de milho que vai escoando pelo funil da mó…