à entrada do ano


Pode-se entrar o ano de muita maneira. Pode-se entrar foliando, rindo ou chorando. Pesaroso por mais um ano, optimista pelas oportunidades que estão ao virar da esquina. Pode-se entrar a comer uvas passas, que a vida também passa. Pode-se entrar sem dar por isso, que o sono dá bom aconchego. Pode-se entrar com o pé direito. Com o esquerdo se for canhoto. Os com os dois pés, ao mesmo tempo, por causa das superstições. Até se pode entrar às arrecuas que, dizem, se fica mais novo. Pode-se entrar às pressas, a correr ou devagar. E pode-se, claro, entrar… às pinguinhas.
 

Na fonte – a linfa pinga, pinga, pinga.
Nos olhos – uma lágrima pinga, pinga, pinga.
Na testa – o suor pinga, pinga.

E, um gato, ao lado,
pinga, pinga, pinga.
É um gato pingado!
E o nariz – atchim!… – pinga, pinga, pinga.

O jogador no campo – pinga, pinga, pinga.
E naquele canto, à esquina,

aquela sombra – pinga, pinga, pinga…
e escorre pela parede abaixo.
(e pela parede abaixo,
vai um caracol parede acima)
E a chuva – pinga, pinga pinga.

Pingam os beirais,
e mais os outros que tais.
Uma pinga d’água
cai um pingo num baú.
Tu és eu. E o meu eu,
não sou eu: és tu!

São versos! E uma garrafa! Uma boa pinga!
E pinga, pinga, pinga,
até ao infinito.

Isto é ou não é bonito?…
Onde já viste pingar desta maneira?!

Pinga. Vinho. Bebedeira.
Que não se estende nem se minga.
Ora olha pr’aquela torneira,

que pinga, pinga, pinga,
pinga, pinga, pinga.
Vês?…
Pinga, pinga, tanta asneira!