a fábula dos pardais…

Tendo o ninho ao pé da eira
do senhor José Morgado,
um pardal e a companheira
com quem estava acasalado,
deixavam o seu lugar
e, se havia grão exposto,
tratavam de o debicar,
contentinhos que era um gosto.

Havia perto um couval
luzento, verde, mimoso,
onde o citado pardal,
como era muito guloso,
catava larvas, insectos,
com a dita pardalinha,
trocando com ela afectos
com o que muito se entretinha.

José Morgado, espreitando
da janela do rés-do-chão,
via os dois de vez em quando
na eira, papando o grão.
Arremessava pedradas,
perseguia-os com furor,
mas todas eram baldadas,
que eles faziam pior.

Até que um dia, já farto,
foi buscar a caçadeira
atrás da porta do quarto,
e pôs-se à espreita, na eira.
Chegou o par descuidado
e o Morgado, catrapus!
Caíram ambos de lado!
Nem disseram ai-jesus!

De aí dois a três dias
começaram a murchar
as tais couves luzidias,
galegas e de cortar.
-‘Deu-me na horta a lagarta!’
disse, zangado, o José.
‘Ora esta! Uma raio a parta,
não me deixa nem um pé’

E por mais coisas que fez,
por mais remédios, em suma,
de aí a coisa de um mês
não tinha couve nenhuma.
Lembrou-se então dos pardais
com certa melancolia!…
Mas já era tarde de mais,
já de nada lhe valia!

Eis a história dos pardais,
da lagarta ou do grão,
na qual, se bem atentais,
achareis uma lição.
É muito conveniente,
quando se vê um defeito,
reparar se juntamente
não haverá algum proveito…
.

13 comentários sobre “a fábula dos pardais…

  1. jawaa 8 Abril, 2008 / 14:58

    Uma delícia, a lembrar «O Melro», minha poesia de eleição…
    Parabéns!

  2. un dress 7 Abril, 2008 / 19:47

    deliciosO!!

    OvaladO 🙂

  3. Fragmentos Culturais 27 Março, 2008 / 21:35

    Gostei imenso deste teu poema… tens um jeito muito sensível de ‘jogar’ com as palavras!

    Sensibilizada pelo olhar em ‘fragmentos’!

    Abraços

  4. bettips 27 Março, 2008 / 04:38

    Lembrei-me do velho Melro e do Guerra Junqueiro…
    Perfeito!
    Abçs

  5. APC 25 Março, 2008 / 23:54

    Desconhecia ainda essa veia poética do arco-da-velha!!!

    Mas que agradável surpresa!

    Muitíssimo bem tirados, esses versos. As estrofes todas fortes e a história bem compassada, tão melodiosa de se ler. Acima de tudo, a tua escrita tem gosto. E um gosto que eu gosto.

    E por mais coisas que fez,
    por mais remédios, em suma,
    de aí a coisa de um mês
    não tinha couve nenhuma.

    E o fim… Pela conclusão e pela estética!

    Na troca disso tudo, um abraço! 🙂

  6. Ana Ramon 25 Março, 2008 / 21:16

    Mas que bela história. Pena a morte dos pardais, coitados. Fica-nos o sabor da vingança da Natureza. Tanta coisa se faz por aí só por maldade, por ignorância.
    Um beijinho

  7. ivone 25 Março, 2008 / 19:04

    Sei um ninho.
    E o ninho tem um ovo.
    E o ovo, redondinho,
    Tem lá dentro um passarinho
    Novo.

    Mas escusam de me atentar:
    Nem o tiro, nem o ensino.
    Quero ser um bom menino
    E guardar
    Este segredo comigo.
    E ter depois um amigo
    Que faça o pino
    A voar…

    miguel torga

  8. Mofina Mendes 25 Março, 2008 / 17:48

    Belas rimas que anunciam o quanto é importante o equilíbrio da natureza.

    Obrigada!

    P.S.: Gostei da resposta. Acredito que é possível viver a saudade com alegria… Foi isso que quis dizer.

  9. Meg 25 Março, 2008 / 12:35

    Que poema! Que inspiração!
    Que lição!…

    É muito conveniente,
    quando se vê um defeito,
    reparar se juntamente
    não haverá algum proveito

    Parabéns´

    Um abraço

  10. Sophiamar 24 Março, 2008 / 22:32

    Gostei muito do poema. Temos escritor/poeta.Os pardalitos s�o lindos. Lembrei-me do Ladino, de Miguel Torga.

    Beijinhossss

  11. Sophiamar 24 Março, 2008 / 22:30

    Um excelente poema da tua autoria.
    Gosto muito de poesia e desta particularmente porque fala daqueles pássaros de que dizem: “Todo o pássaro come trigo, só quem paga é o pardal”

    Beijinhosssss

  12. Maria 24 Março, 2008 / 21:06

    A natureza atenta e solidária……
    Não conhecia estes versos, mas também conheço quase nada do que colocas aqui…

    Beijos

  13. Justine 24 Março, 2008 / 18:25

    Ora aí está, em belíssima rima, uma grande lição do equilíbrio natural do meio-ambiente, vulgo ecologia!!
    Só é pena que o homem, inconsciente, o vá desiquilibrando, e quando dá por isso, é muitas vezes demasiado tarde.
    O pardal é delicioso 🙂

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