Inquisição
(na linguagem popular)

Em 1531, em resposta a um pedido de D. João III, o papa Clemente VII nomeou um Inquisidor-Mor para Portugal. Cinco anos depois instalou-se, em Lisboa, um Tribunal do Santo Ofício, com três inquisidores nomeados pelo papa e mais um, nomeado pelo rei. Começava a Inquisição, em Portugal.
O último Regimento da Inquisição Portuguesa foi em 1774, acabando assim os autos-de-fé, a tortura e a pena de morte. A Inquisição, uma das mais tenebrosas páginas da História, durou pouco menos de 250 anos. A memória, essa, ainda hoje perdura…

Muitas das locuções, adágios ou ditos que hoje empregamos remontam à evocação dos suplícios e dos formulários do Santo Ofício, no que eles dizem respeito aos sentenciados. No entanto, o povo usa-os naturalmente, sem a consciência da sua origem, ou sequer suspeitar quantos horrores e quantas torturas eles, de facto, recordam…
Quando dizemos pôr a careca (calva, era a expressão mais antiga) à mostra, referimo-nos, sem suspeitar, ao costume de se rapar a cabeça aos condenados do Santo Tribunal; a rapadura do cabelo era um sinal de que os condenados estavam desmascarados. A locução qual carapuça, essa, alude à mitra que os réus levavam na cabeça, nos autos-de-fé. A camisa-de-onze-varas, que hoje se diz a propósito de um grande embaraço, não é mais do que a alva camisa com que os supliciados subiam à forca; largas, que a tamanha extensão tinha o propósito de evitar, nas contorções da agonia, que o corpo da vítima ficasse descomposto. As calças pardacentas que eles usavam, deram ao linguajar a locução andar em calças pardas, ou ver-se em calças pardas. A carocha (espécie de túnica) que também vestiam, indicativa do género de pena a que tinham sido condenados, originou o dito chupado das carochas. E quando nós, dos invejosos, dizemos que não podem ver uma camisa lavada a ninguém, referimo-nos às denúncias, frequentes na Inquisição, feitas contra os hebreus, que era seu hábito vestir uma camisa lavada aos sábados.
Por outro lado, os tormentos da Inquisição também deram farta contribuição para a lexicologia do povoléu. Dos instrumentos de tortura, um dos mais comuns era a polé (o preso era amarrado pelas mãos, presas atrás nas costas, e erguido através de uma roldana; para aumentar o sacrifício era hábito atar pesos aos pés). A tortura requintava-se soltando a corda violentamente até que o preso descesse, vertiginosamente, até bem perto do chão deu-nos a locução sofrer tratos de polé (ser maltratado, ser desconjuntado pelos braços). O rodízio, que fazia girar os presos até confessarem as suas culpas, gerou o andar com a cabeça à roda, ou ainda, andar numa roda-viva. O potro, uma espécie de cama, em madeira, onde o supliciado ficava com os pulsos e os tornozelos presos em argolas, e era esticado por meio de roldanas até o seu corpo se desarticular. Essas argolas, do potro, tinham o nome de trampa e daí poder compreender-se o significado de estar na trampa, ir à trampa ou, por analogia, outras expressões semelhantes. A rapadela na fronte, feita brutalmente, criou a expressão levar o coiro e o cabelo. As talas deram origem a ter o coração em talas e andar entalado. A finca, que era a escora aonde se suspendiam os supliciados, deu o trabalhar à finca, e daí ao afincadamente. O torniquete ainda hoje está presente no vulgar apertar o torniquete. O pavoroso esmagamento dos ossos dos membros criou várias locuções: vir com as mãos a abanar, negar a pés juntos, dar o braço a torcer, estar de perninha, mais duro do que ossos ou antes quebrar que torcer. Outras expressões, igualmente vulgares, como está com o sangue a ferver, hei-de pô-lo a assar, vai com o fogo no rabo, estar ou andar sobre brasas, tem rabos-de-palha, pôr as mãos no fogo, essas aludem aos inenarráveis suplícios pelo fogo.
Por esta pequena amostra pode-se ver bem a enorme influência que a Inquisição teve sobre o espírito popular subjugado a uma infernal teia de pavor e opressão.
Quando dizemos são canas e caninhas, referindo algo de difícil e até doloroso, nem por sombras nos vem à ideia que a expressão teve origem na bárbara adaptação de uma tortura oriental, pelo Santo Ofício, em espetar entre as unhas e a carne dos presos, canas aguçadas, com o fito de os obrigar a confessar culpas que, na maioria das vezes, não existiam.
Só muito, muito mais tarde, a Igreja, assumindo as culpas no cartório (sabendo bem que esse cartório era o cartório do Santo Ofício…) se penitenciou dessa longa (um quarto de século!…) página negra da sociedade humana.

 

 

 

 

(para o povo a memória é um estojo de ciência)