a Justiça de D. Pedro I


D. Pedro I
foi dos mais controversos reis da nossa História. De temperamento tempestuoso, imprudente e errante. Talvez, o traço mais marcante do seu carácter tivesse sido no trilho das suas indefinidas e violentas paixões que o levaram, se bem a ser mais conhecido por um Romeu com a sua Inês (a que mísera e mesquinha que depois de morta foi rainha’, no dizer de Camões) de Julieta travestida, bem depressa os rosados cetins se toldam se nos detivermos na sua esquisita paixão pelo seu escudeiro a quem ‘amava mais do que aqui se deve dizer‘ (Fernão Lopes).

E mais poderia vir aqui a propósito, não fosse este o referir uma outra faceta, ao que parece, de quando em vez, bem marcante da sua polémica personalidade: a de ministrar a justiça bem a seu jeito, ou seja, de modo pouco ortodoxo. Pelo menos…
Refere Pinho Leal, no seu Portugal Antigo e Moderno, um facto que, a ser verdadeiro, espelha bem a forma excentricamente justiceira que seria apanágio daquele monarca.
D. Henrique Silva, cónego da Sé de Évora, matou um sapateiro à bordoada, segundo uns, porque ele lhe fez uns sapatos que não lhe agradaram, e segundo outros, porque aquele (o sapateiro) se opunha aos avanços lascivos do cónego para com a sua mulher.
O juiz da cidade, amigo do clérigo, entendeu por único castigo, condenar o assassino, a ‘não assistir ao coro por espaço de um anno’.
Tempos depois, um filho do sapateiro, para vingar a morte do seu pai, assassinou o cónego à punhalada, em plena rua, por ocasião de umas festas. Foi, por tal motivo, preso e, depois, condenado a ser esquartejado vivo.
D. Pedro I, que então se achava em Évora por causa das festas, informou-se das razões que tinham levado o rapaz a cometer tão hediondo crime, e inteirado de toda a história, avocou a si o processo, revogou a sentença, e condenou o criminoso ‘a não fazer sapatos durante cem annos’.
Refere Pinho Leal, em nota: o rapaz era pedreiro.