a mantilha em Monsanto da Beira

É comum aos trajes de várias regiões, diversos tipos de capas femininas com capuz, seja este fixo ou móvel: capuchas, mantilhas, biocos ou, ainda, côcas.
Estas capas, com capuz integrado, provêm dos resguardos usados, entre outros, por germanos, gauleses e celtas. Os romanos acharam o modelo e, como aconteceu com tantas outras coisas, adoptaram-no: Usaram-no populações rurais, viajantes, carreteiros ou mesmo caçadores. Assim, os romanos, tomaram o capuz (cucullus) e adaptaram-nos às suas vestes (vestes cucullatae); a capa, inteira, de lã grossa, que era o birrus (ou burrus), de que vieram o burello italiano, o burel português e o bure francês, foi usada pelas classes inferiores das cidades, embora que também usada, para disfarces nocturnos (sabe-se lá com que fins…), pelos patrícios e outra gente semelhante. A humildade do traje foi aproveitada por algumas ordens religiosas, de tal forma que, ao longo de muito tempo, se manteve no respeito pelo modelo original.
Ainda hoje se pode ver (embora que com mais ou menos raridade…), especialmente nas regiões montanhosas ou nos planaltos agrestes, as capas de burel com capuz, de uma só peça, nas capachas, para homens, mulheres e crianças. A forma de mantilha de Monsanto, (que aliás não lhe foi peculiar já que se usou em toda a região de Castelo Branco e Idanha-a-Nova), tem manifestamente uma feitura derivada do modelo gaulês, como o foi a capa monacal.
A mantilha, embora com restos de existência em outras localidades bem diversas, só nesta região é usada à luz do dia. É de merinete ou de orleãs de lã preta. A capa cobre o corpo por inteiro, bem corrida, de alto a baixo, sem botões ou presilhas à frente; forma grande e amplo capuz da mesma peça; para manter o feitio com rigidez, reforça o bordo anterior com uma folha de cartão cortada rectiliniamente à frente e arredondada atrás; arqueada, conserva em cima a necessária curvatura, assim bem marcada. O rosto da mulher fica, desse modo, todo coberto e sombreado pelo resguardo lateral e superior do capuz, que ela procura conservar assim composto.
Foi usada em todas as solenidades religiosas e sociais, como casamentos, funerais, missas ou procissões. Levavam-na as mulheres casadas; se alguma mulher ia casar com parente ou havia algum impedimento, a noiva cumpria a penitência no último domingo de solteira; apesar de não ser casada, ia à missa com a mantilha.
É curioso lembrar aqui esta cerimónia de tradição local: a noiva ia à missa, um domingo, e levava, pela primeira vez, a mantilha. Acompanhava-a outra mulher, que ajoelhava com ela no degrau do altar; quando o sacerdote subia ao altar, a mulher tirava a capa à noiva, que ficava apenas em corpo, de cabeça livre e só com uma fita a segurar o cabelo. Terminada a missa, a companheira punha a capa à noiva, e saíam ambas da igreja. Depois desta cerimónia, a noiva apenas envergava a mantilha no dia da sua boda.

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10 comentários sobre “a mantilha em Monsanto da Beira

  1. APC 22 Janeiro, 2009 / 20:15

    Vive, o ser humano, de simbolismos, como não poderia deixar de ser. Faz parte da sobrevivência da nossa espécie, a atribuição de sentidos ao mundo. Estava a ler-te, e vinham-me duas imagens à ideia: a das visitas secretas feitas no resguardo de uma capa escura e respectivo capuz (tantas vezes presentes nos filmes de épocas passadas), e a dos marginais de hoje, à conta dos quais ouvimos, diariamente, nas notícias, o termo “encapuzado”.
    Tão diferentes, em tudo quanto…
    Grata pela lição, pelas lições.

  2. mdsol 20 Janeiro, 2009 / 22:01

    Aqui aprende-se sempre e muito! Na zona da aldeia dos meus pais ( e minha portanto) chamavam-se Capuchas! Será a mesma peça?

    :))

  3. flashes... 20 Janeiro, 2009 / 19:52

    Uma bela narrativa sobre certas tradições caídas em desuso…
    Bjs Zita

  4. Paula Raposo 20 Janeiro, 2009 / 18:08

    Às vezes devo ter ataques de estupidez..não tinha percebido que estavas aqui. Realmente…um prazer ler-te. Beijos.

  5. Arabica 19 Janeiro, 2009 / 13:18

    Interessatissima a história da capa e também a da cerimonia que encerra a narrativa…

    Uma Capa cheia de um qualquer poder simbólico.

    Gosto de capas e mantilhas, todos os invernos penso “é desta que compro uma” 🙂

    Beijo, boa semana

  6. Rosa dos Ventos 19 Janeiro, 2009 / 12:13

    Vir aqui é sinónimo de enriquecimento cultural!
    Gosto de capas, mantilhas e afins…
    As capas também têm algo de secreto, porque “Quem tem capa sempre escapa”!

    Abraço

  7. Justine 19 Janeiro, 2009 / 11:59

    O que contas sobre estas capas belíssimas é um modo de fixar e alargar estes saberes sobre os antigos hábitos, que tanto contam de nós e da nossa vida.
    É sempre um prazer enriquecedor ler-te:))

  8. vida de vidro 18 Janeiro, 2009 / 16:28

    Sempre aprendemos por aqui. São tão bonitas essas capas e mantilhas! Tradições que se vão perdendo no tempo.
    Beijos e bom resto de domingo.

  9. Filomena Barata 17 Janeiro, 2009 / 19:37

    Parabéns pelo teu burel!
    Voltarei sim, para contigo aprender.

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