a Páscoa há 50 anos…

Ora pois que a missa de Aleluia é festa das grandes! Tudo à conta de um grande foguetório, a igreja enchia-se de almas, limpas de pecados nas confissões e penitências das vésperas. Benzia-se a água nova, que o povo recolhia nas canequinhas de barro; o lume novo, cheiroso de alecrim e incenso queimados, benzia-se e logo a seguir os santos e as Senhoras substituíam os panos roxos de toda a Quaresma. As mulheres e mais alguns poucos homens comungavam, logo seguidas das moças, algumas das quais arrastavam os conversados
Cá fora era a festa: sobre umas tábuas ou mesas improvisadas, as roscas de pão branco disputavam-se na pregação das madrinhas, dos afilhados e das comadres. Logo a seguir era a banca dos rebuçados, do mel e do pão-de-ló, que tinha chegado de Margaride.

As raparigas, ao sabor do sol primaveril, tinham deixado as saias de burel e vestiam coloridas blusas de chita debaixo do corpete sem mangas, de veludo escuro; os rapazes afiavam os olhos encostados às tílias ou tentavam a sorte com um saquinho de amêndoas, amarrados com lacinhos de ráfia…
O compasso corria as casas de toda a aldeia: as salas mais pobres, com registos de muitas aflitas romagens, nas casas remediadas ou mais aburguesadas, nessas, embrechadas na fidalguia, viam-se pretensiosas bordaduras de missangas à mistura de muitas cerâmicas vidradas com nomes de terras a falar de recordações e excursões…
A coisa sempre era de fugida, com tempo que chegue para dois dedos de palestra do senhor abade, uma trincadela no maçapão e um gole de vinho do Porto…
A festa acabava às trindades, quando os pirilampos luziam nas silvas já húmidas pelo cair da tarde, os ralos alarmavam com um zumbido monótono e o sossego da noite ia tudo embrulhando.
Cobertos de pó, com os pés doridos da caminhada e fartos de tudo (principalmente fartos e caídos do vinho…), os mesários fecham o cortejo, do padre aos ovos, no adro vazio da igreja…
.

20 comentários sobre “a Páscoa há 50 anos…

  1. eremita 23 Março, 2008 / 17:25

    não guardo estas memórias. por Lisboa era diferente. Mas soube muito bem ler.
    Espero que tenhas tido uma boa Páscoa.
    Tens um desafio lá no Eremitério. Conto contigo.
    Fraterno abraço

  2. APC 23 Março, 2008 / 02:34

    Lá em cima, quando falei da articulação dos dois textos, estava a referir-me a este e ao do Folhas na Gaveta, é claro.

    Mas hoje vim cá, foi para te desejar uma Boa Páscoa! 🙂

    Para ti também, Bettips, que te estou a ver! 😉

    Abraço meu.

  3. Mofina Mendes 21 Março, 2008 / 17:23

    Deixo uma pergunta: Não será possível lembrar sem saudades?

    BOA PÁSCOA

  4. velha gaiteira 21 Março, 2008 / 12:37

    venho somente deixar os meus votos de boa Páscoa.

  5. Sophiamar 21 Março, 2008 / 10:01

    E recordar é viver! Leio, releio,choro ao recordar a Páscoa lá no lugarejo onde nasci.Quantas saudades me invadem quando encontro estes posts que me ligam àquela terra que deu o pão a toda a família. Domingo, lá estarei na procissão da minha vila, S. Brás de Alportel.

    Obrigada, amigo!

    Desejo-te uma Páscoa feliz.

    Beijinhosssss

  6. De férias e com mais tempo para visitar os vizinhos bloguers, encontrei aqui um momento único de rara beleza. Uma maravilhosa fotografia e belas palavras conjugadas com mestria.Bom recordar

    Um beijo e boa Páscoa

  7. bettips 20 Março, 2008 / 19:41

    Lembrar a diferença e salvaguardar a memória. Exactamente, pela diferença, má e boa. Se havia muito fascismo e religião, agora “compramos” a liberdade em pacotes e saldo de fim de época.
    Como diria APC “Camuflagens”!
    De novo a conquista passo a passo…
    Mas gosto sempre de te ler e ver porque acho saber o que pensas.
    Abç

  8. Meg 19 Março, 2008 / 22:40

    Depois de mais esta “reciclagem” que agradeço plo prazer que me proporciona, desejo uma boa Páscoa e um abraço

  9. C Valente 19 Março, 2008 / 22:36

    Um pouco de historia vivida, Bela narrativa e imagens
    Saudações amigas com votos de Pascoa Feliz

  10. D. Maria e o Coelhinho 19 Março, 2008 / 18:38

    fui transportado a ambientes festivos mas cheios de calma, onde tudo parecia estar bem. mas não estava…

    coelhinho

  11. Maria Laura 19 Março, 2008 / 11:33

    Que memórias! Lembra-me a aldeia em que vivi quando era criança. Tradições que se vão perdendo.

    Boa Páscoa!

  12. São 18 Março, 2008 / 19:02

    Muito bem : é bom reviver!
    Doce Páscoa.

  13. laura 18 Março, 2008 / 11:30

    fantástico. sou capaz de descrever o compasso de viseu e quase lhe sentir o perfume…

  14. Justine 18 Março, 2008 / 01:45

    Descrição soberba, a fazer acender na memória algumas centelhas de coisas vividas.Não sei bem se o sentimento que me fica é de libertação ou de nostalgia

  15. APC 18 Março, 2008 / 00:58

    Belíssimo!… Tudo, tudo, e mais aquele fim.
    E a excelente articulação entre os dois textos, dando-nos a sentir o compasso do dia festivo.
    E as imagens… Um luxo!
    [A missa e os foguetes…
    As rosquinhas de pão branco, rebuçados, mel e pão-de-ló.
    E as garotas, com suas blusas de chita, arrastando os conversados…]
    Um prazer, essa descrição da festa, do início do dia ao fim, “quando os pirilampos luziam nas silvas já húmidas pelo cair da tarde (…) e o sossego da noite ia tudo embrulhando”.!!!

  16. elvira carvalho 17 Março, 2008 / 22:55

    Pedindo desculpa pela ausência, deixo um abraço e votos de uma Santa e feliz Páscoa.

  17. ana 17 Março, 2008 / 22:17

    Até há uns anos vivi a visita pascal e o foguetório e a Missa e a almoçarada como descreve, lá para as bandas de Barcelos.

    Agora já não…

  18. gaivota 17 Março, 2008 / 22:04

    que linda recordação! e as fotos a preto e branco… bem, que lindas sempre!
    eram outros tempos, tempo mais rico de sentimentos, mais simples e cheio de coisas boas, melhores…
    às vezes nem me importo de ser “saudosista”, chamem-lhe o que quiserem
    um beijinho

  19. Rui Caetano 17 Março, 2008 / 21:59

    Uma boa reanimação das nossas memórias.

  20. Frioleiras 17 Março, 2008 / 20:14

    As memórias que nos trazes !!!!

    Foi assim, mais ou menos, até finais dos anos 70.

    Abraço!

(actualmente os comentários estão encerrados)