a propósito de provérbios…

(Zé Povinho, pintura de Rafael Bordalo Pinheiro)

Para cada ocasião
tenha um provérbio sempre à mão

Costuma dizer-se (é lugar-comum dizer-se) que os provérbios, ou os adágios, são a sabedoria do povo (a verdade é que, aqui mesmo, algumas pessoas amigas, corroboram isso nos seus comentários) e que, acrescenta a vox populi, ditados velhos são mesmo evangelhos.
No entanto, creio dever usar-se uma certa cautela nesta generalização já que muitos dos adágios que compõem o vasto rifoneiro português pouco devem à sabedoria e muito lhes sobra, por exemplo, das conveniências sociais, religiosas e políticas dominantes, através dos tempos. A linguagem dos provérbios, dos ditados, dos lugares-comuns e, naturalmente, dos conceitos e preceitos que lhes estavam subjacentes, por vezes, não passavam de formas encapotadas de disseminar interesses obscurantistas, do mais variado cariz, visando a submissão e a aceitação de regras bem definidas. Por outro lado há, igualmente, outras fontes e razões para o surgimento dos adágios que, pelo tempo, se lhes perderam as origens e, por isso, o seu verdadeiro sentido hoje nos aparece distorcido.
Ainda, por fim, e não menos importante, há que considerar a parcela de ironia, brejeirice e sandice que está na raiz de muitos aforismos e ditos populares.
Isto para concluir que, provérbios, rifões ou ditados, não são, de facto, a sabedoria do povo. Afinal são mais do que isso: são o próprio povo.

 

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10 comentários sobre “a propósito de provérbios…

  1. Justine 30 Janeiro, 2009 / 17:28

    Este teu canto continua a ser um lugar de encanto e aprendizagem. E esta séria e excelentemente bem escrita reflexão é mais uma lição “ao domicílio”, que te agradeço.
    Abraço
    P.S.: e concordo com a tua opinião:))

  2. Arabica 29 Janeiro, 2009 / 20:43

    Mais um post interessantissimo.

    Eu gosto de usar os velhos ditados, brincar com a sabedoria superficialmente adquirida que muitos deles mostram e com a outra sabedoria, a mais pura sabedoria, que muitos deles encerram.

    Há casos para tudo e palavras para todas as situações.

    Abraço

  3. Graça Pires 29 Janeiro, 2009 / 11:27

    São realmente o próprio povo. Para o melhor e para o pior. Um abraço.

  4. Teresa Durães 28 Janeiro, 2009 / 11:52

    Um dia tive a oportunidade de ver uma recolha efectuada ao longo dos anos, desde o século XIX, de proverbios, anedontas, rezas, músicas infantis e afins. Interessante como tanto ainda se diz hoje

  5. APC 27 Janeiro, 2009 / 22:05

    … Em tudo quanto!
    D’accord, pois tá claro. E este texto está uma maravilha de se ler!

    Nota: Se não me engano, uma ilação que tirei o ano passado, por alturas do CLP, é que chega a haver contradição entre algumas associações meses/clima, à conta dessas serem boas por um lado, mas más por outro.

    E hoje está um pouco mais de frio desse lado do que deste. Mas “o frio enrijece os ossos, né”? 😛
    Ou talvez não! :-)))

    Pelo sim, pelo não, este abraço!!!

  6. Rosa dos Ventos 27 Janeiro, 2009 / 14:59

    Subscrevo o que diz a Cristal!
    De facto para cada “tirada popular” há normalmente o seu contrário, o que demonstra como o povo é manhoso…

    Abraço

  7. secreto segredo 27 Janeiro, 2009 / 11:43

    Gostei daqui e por isso venho convidar você a fazer parte do movimento que criei no meu blog.
    Então, o que me diz?

    Abraços

    secreto segredo

  8. mdsol 26 Janeiro, 2009 / 23:20

    Excelente post! (como sempre aliás, mas este está um brinquinho!)
    Quanto aos ditados: são muito contraditórios… Eu gosto de os usar. Penso agora, ao escrever isto, que os uso normalmente com alguma ironia.
    É um prazer vir aqui!
    :))

  9. cristal 26 Janeiro, 2009 / 21:35

    Também é interessante verificar que há provérbios para todas as ocasiões e para todos os gostos, podendo mesmo alguns serem completamente contraditórios de outros. Cito (por não me lembrar agora outro) um exemplo disso: Diz-se na minha terra que «a mulher e a sardinha quer-se da pequenininha» ao que as mais encorpadas respondem «a sardinha e a mulher, quer-se da maior que houver». Como sempre, vir a este blogue é muito enriquecedor, peas coisas que nos ensina e pelas que nos faz lembrar. Obrigada

  10. Paula Raposo 26 Janeiro, 2009 / 19:43

    Pois são. Com alguns concordo e com outros nem por isso. Gosto de muitos mas agora lembrei-me deste ‘nem tudo o que luz é oiro’. Muitos beijos.

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