a Quinta do Desterro


D. Maria
, a rainha, acabara-lhe ingloriamente com o seu poderio. Desterrado para Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello lidava mal com a mesquinhez da sua casa. Apesar do primeiro Inverno passado, de já ter abrandado o rigor do tempo, as salas ainda mostravam desconforto. Ele escrevia, escrevia sempre. Vibrava, como sempre, em desafrontas. Di-se-ia alheio às antigas determinações, a tudo quanto se ordenara e fizera durante o reinado do Reformador (que ironia…) porque, do alto do seu poder, nunca considerava os sofrimentos, pois julgava-os sempre justos. Ele tinha que realizar uma obra. O resto não contava: sempre conseguia aniquilar os obstáculos, os embaraços e os escolhos.

Por isso sentia-se esmagado, precisava de mais vasto horizonte e de ar; o seu peito largo não se satisfazia naquela restrição e, por isso, vezes sem conta atravessava a sua quinta de Santorum ver as hortas que mandava plantar.
As verduras nasciam para encanto dos olhos e consolo dos estômagos. É verdade: apareciam na mesa do velho estadista, mas também nos caldos dos pobres em redor. Cantava a água nas caldeiras, uma fonte brotava a pouca distância da casa rural onde se guardavam as alfaias e habitava o caseiro, que, uma ou outra ocasião, o marquês procurava e arrastava para o curso dos seus passeios.
Do palácio, a estradinha ínvia conduzia até Gramela, onde ele instalara uma fábrica de chapéus, o que poucos no Paço disso sabiam. Os campos, dali até Santorum, planícies extensas e verdejantes, aqui e além desenhavam tufos de choupos como que a abafar o rumor calmo das águas do Arunca.
O ministro de D. José, durante os seus vinte e sete anos de poder, nunca tivera tempo para visitar a sua vila; deixara o seu palácio sem cuidado, entregando Santorum aos madraços dos rendeiros. Agora, no desvio agudo da vida queria tirar da propriedade rústica o proveito e ganhar nas suas sobras a saúde que a vida de Lisboa lhe arruinara lenta e implacavelmente. Ouvia as mulheres e os homens, pelos caminhos da quinta, amenizando o trato duro e frio que lhe desenhou o rosto durante toda a sua vida.
Lá no fundo da casa, na capelinha, uma imagem vetusta presidia aos fiéis que respeitosamente deixavam, à frente, solitária, a silhueta do velho Marquês. Não escassas eram as vezes que lá o deixavam a sós, no final das novenas. Ou, outrossim, lhe divisavam a silhueta ao fundo da azinhaga, para os lados da estrada. Pouco a pouco, as gentes dali habituaram-se à presença daquele homem, vencido, mas ainda de passada firme. Talvez por isso, com o tempo, aquela imensa propriedade começou a ser conhecida por a Quinta do Desterro.
Cinco anos depois de chegar a Santorum, com 82 anos, a 11 de Maio de 1782, morreu o Marquês de Pombal.

Da quinta, sobram lendas. Poucas, já que raros são os que, por aqueles lados, sabem que ali viveu aquele que diziam ‘ter pelos no coração’. No lugar do palácio está agora esta bem cuidada casa senhorial.
Quando por ali andei, por estes dias, não me pareceu difícil imaginar, pelas vereias, o caminhar brando e frouxo da sombra do velho caudilho