a Teia de Penélope

A designação teia de Penélope, dada a qualquer trabalho que nunca mais está pronto, tem origem no procedimento astuto e exemplar de Penélope, mulher de Ulisses, rei de Ítaca, que levou vinte anos a esperá-lo, mesmo depois de todos o julgarem morto.
(Ulisses é um dos personagens da Odisseia, um dos mais eloquentes poemas épicos, a par da Ilíada, ambos atribuídos a Homero. A Odisseia relata o regresso do herói grego à sua terra natal, depois de ter participado na Guerra de Tróia).
É curioso, no entanto, que a teia de Penélope foi tomada no sentido pejorativo, por alguma propaganda religiosa, em tempos não muito recuados, servindo para classificar a inacção de mulher mandriona e desregrada:
– Penélope, eis o apodo
com que me alcunham, amiga…
Porque razão de uma figa
me alcunharão desse modo?
– Porque esse vida, mulher,
perdoa-me que te diga,
é tecer e destecer…
Aproveitamento maldoso, pois que, exactamente o tecer e destecer de Penélope deveria ser tido, ao contrário, como o mais digno exemplo de constância e perseverança da vida e fidelidade conjugal. Apesar de todos afirmarem que Ulisses morrera em qualquer uma, das muitas, provações que passou no regresso a Ítaca, Penélope nunca se dispôs a acreditar na sua viuvez. Confiante, aguardou sempre com uma inquebrantável crença que ele acabaria por regressar.
E os anos foram passando.
Em face dos numerosos pretendentes à sua mão, e tentando esquivar-se às imposições do reino, declarou que, segundo um voto que fizera, escolheria noivo logo que tivesse concluído uma teia que tinha no seu tear. O certo é que, embora ela trabalhasse afanosamente de sol a sol, a teia nunca mais chegava ao fim, visto que, durante a noite, desmanchava o trabalho feito durante o dia.E, assim, levou vinte anos até que o marido bem amado, considerado morto, chegou a Ítaca são e salvo.

.

 

 

(mais corre quem mais imagina que mais mais caminha)

18 comentários sobre “a Teia de Penélope

  1. Humana 11 Junho, 2009 / 15:03

    a astuta vitória do amor sobre o tempo e o bom senso…

  2. pin gente 6 Junho, 2009 / 10:05

    sempre gostei deste amor de fazer e desfazer para o obter…
    muito (e)terno.
    beijos
    luísa

  3. MagyMay 4 Junho, 2009 / 20:06

    Assim como "en passant" diria que:
    …a tal teia só podia ser tecida (e destecida) por uma Penélope…coisas de "constância e perseverança da vida e fidelidade conjugal"…rsrs

    Abraço de Paz!!

  4. tempusinfinitae 2 Junho, 2009 / 22:19

    As chamadas obras de StªIngrácia na versão helénica e chique.

    Por aqui se constata que a não poder igualar-se (a perseverança de Penelope)há que difamar (actualissimo!)

    (O que levaría a um outro dito…estão verdes não prestam, e que em definitivo não pertence a este belissimo trecho)

  5. mena m. 2 Junho, 2009 / 21:49

    Ainda bem que ela não esperou em vão, pois pelos vistos ele viu-se grego para voltar a casa!

    Como sempre excelente!

    Um abraço

  6. Justine 1 Junho, 2009 / 10:41

    A mim cheira-me a um pouquinho de submissão a mais!Lembro o Chico Buarque:
    “Mirem-se no exemplo
    daquelas mulheres de Atenas…”

    (Tinha de haver aqui uma voz dissonante, senão não tinah graça nenhuma:)) )
    A história está magistralmente contada – como sempre, TP!

  7. Rosa dos Ventos 1 Junho, 2009 / 10:39

    Por acaso só conhecia a conotação positiva! :-))

    Abraço

  8. Teresa Durães 1 Junho, 2009 / 10:00

    excelente descrição (de uma expressão que desconhecia) e grande exemplo de Penélope

  9. elvira carvalho 31 Maio, 2009 / 20:52

    Conhecia a lenda, mas foi bom relembrar.
    Um abraço e votos de uma óptima semana.

  10. APC 31 Maio, 2009 / 18:46

    Um bom lembrar das boníssimas intenções por detrás do tece e destece de uma mulher que – assim reza a história – soube tecê-las! Certo dia também a evoquei lá para as bandas das minhas meio-escritas virtuais. Porque o tema das esperas me é grato, de apenas “desempatável” por quem a elas se dedica ou por elas se decide, de entre o ser avanço ou recuo, acção ou inacção, perda ou ganho, viver ou desviver. É um bom tema. E a persistência também. E a fé nos afectos e a vitória deles. Haveríamos todos de ter feito uma incursão pela Odisseia na escola, pelo menos. E depois fora dela, quando já sabemos ler com a alma.
    A imagem é um luxo!

    Je t’embrasse
    Σας αγκαλιάζω

  11. Isamar 30 Maio, 2009 / 14:52

    Um exemplo de dedicação, amor e fidelidade.Nunca entendi a teia de Penélope de outra maneira e a vida, assim tecida, tem outro sabor.

    Um abraço fraterno

  12. Dulce 30 Maio, 2009 / 12:11

    Uma linda narrativa…

    Eram tempos da “Odisséia”, meu amigo. Distantes e míticos tempos…
    Hoje as Penélopes já nem tecem mais tapeçarias e os Ulisses acabam sempre rendendo-se ao canto das sereias e ficam pelo caminho…

    Um abraço

  13. Paula Raposo 30 Maio, 2009 / 10:58

    Não conhecia o sentido negativo. Fico-me com a ideia de longa espera…beijos.

  14. jawaa 30 Maio, 2009 / 08:49

    Não conhecia este ditado «mais corre quem mais inagina que quem mais caminha»?

    Verdade verdadinha!

  15. mdsol 29 Maio, 2009 / 21:37

    Nunca tinha pensado no aproveitamento negativo desta história. Ou seja, mesmo conhecendo o tema, sempre descubro aqui novas leituras. Um gosto vir aqui.
    :))

  16. Arménia Baptista 29 Maio, 2009 / 18:12

    …Só conhecia a parte bela da história… vou fazer de conta q ñ tem esse lado “negativo”.
    Tem de haver sempre alguém p estragar!….
    😉

  17. Baila sem peso 29 Maio, 2009 / 17:34

    Ah esta lenda já eu conhecia 🙂
    e a foto acima está bem elucidativa
    todos a cortejam
    mas a ela só o tear a cativa…
    Vinte anos é muito tempo
    mas como “mais corre quem mais imagina”no tear, o fazer e desfazer
    está no gosto de “que quem mais caminha”e o tempo da teia é relativo…
    eu não sabia do termo pejorativo 🙁

    Bom fim de semana
    Beijinhos enliados numa teia com abraços enfeitados

  18. Bartolomeu 29 Maio, 2009 / 16:17

    Resta-me um comentário (viperino, evidentemente).
    Esse Ulisses que regressou ao fim de 20 anos, era o mesmo que tinha partido?
    Ou… na noite anterior, Penélope esquecera-se de desmanchar a teia que havia tecido durante o dia?

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