agarrar pelos cabelos…

É comum no início de cada ano, entre outras tradições, fazerem-se promessas, mais ou menos numerosas, mais ou menos ao sabor da ocasião… Acontece que, na maioria das vezes, se deixam fugir oportunidades para fazer ou mudar algumas coisas. Ou seja: não se agarram (as ocasiões) pelos cabelos…
A maior parte das mitologias atribui um poder energético aos cabelos. É vulgar, por isso, associar-se, nos homens, a farta cabeleira à força e, no caso das mulheres, à formosura. Cortar o cabelo a alguém significava colocar o tosquiado em situação de obediência, fraqueza, humildade ou mesmo humilhação. Na mitologia germânica, por exemplo, os cabelos compridos indicavam indivíduos de condição livre, enquanto noutros locais a cabeleira solta e abundante das mulheres as apontava como virgens e solteiras.
agarrar pelos cabelosNo Evangelho, segundo S. Lucas (7.37.38) narra-se o episódio de Madalena que veio determinar que o cabelo desgarrado e flutuante ficasse como símbolo de penitência. É conhecida a história do Antigo Testamento, de Dalila cortando os cabelos a Sansão para que ele perdesse a sua descomunal força. No século VII d.C., a Vamba, o heróico rei visigodo de Espanha, apararam-lhe o cabelo durante o sono para lhe furtarem a coroa. Lembrando-nos dos sofrimentos dos mártires e outros supliciados, os cabelos foram sempre o ponto mais fácil (e mais doloroso) para os forçar a atitudes não desejadas, puxados, arrastados ou, pior ainda, amarrados às caudas dos cavalos. Talvez que, neste tipo de crueldade, resida a origem de outra expressão vulgar: tirar pelos cabelos, extrair pelos cabelos, ou, simplesmente, pelos cabelos
No entanto, na frase que demos como título, agarrar (a ocasião) pelos cabelos, vai buscar a sua razão de ser a outra fonte, bem distinta. Entre os deuses alegóricos da mitologia latina existia uma deusa a quem foi dado o nome de Ocasião (ou Fortuna), cuja função primacial consistia em presidir ao momento mais favorável para se ter êxito em alguma coisa. A deusa era representada por uma mulher nua, com a parte traseira da cabeça completamente calva, mas mantendo uma longa mecha de cabelos na parte dianteira, um pé apoiado numa roda e outro suspenso no ar, segurando numa mão uma navalha e na outra um véu. Às vezes, figuravam-na, também, caminhando sobre um fio de lâmina. Quando a deusa Ocasião passava, só havia uma hipótese de apanhá-la: agarrar-lhe a cabeleira da frente, livre ao vento. A deusa, de resto, como em muitos outros casos, era a transposição romana do deus grego Kairos, o mais novo dos filhos de Zeus. A representação desta divindade secundária assemelhava-se à deusa Ocasião, tendo, porém, asas nos ombros, ou nos pés, e deslocando-se sobre uma roda alada, em grande velocidade. Aliás, como as nossas intenções de agarrar as oportunidades…
Também se associa, talvez mais à variante estar pelos cabelos, como exemplificação de já não poder aguentar mais uma qualquer situação, de ter chegado à última, uma outra origem, mesmo assim relacionada com as explicações anteriores. Ambas as expressões, presumivelmente comuns à cultura árabe, tinham aqui um outro significado: segundo acreditam os muçulmanos, os crentes (mesmo os carecas) devem conservar sempre na cabeça alguns cabelos, pelo menos um…
Porquê? Bom, acreditam que, se um dia se afogarem, o profeta Maomé pode puxá-los por esse cabelo e levá-los para o Céu…
(ver sal na moleira)

 

 

 

 

 

(as ocasiões são más de achar e boas de perder)

 

13 comentários sobre “agarrar pelos cabelos…

  1. APC 22 Janeiro, 2008 / 23:08

    Vim buscar um acento que cá deixei por engano (em “quisémos”). Obrigada por teres tomado bem conta dele, mas sentiu-se a mais.
    Pronto, OK… É uma desculpa das piores!… Eu estava era com vontade de te reler, confesso! 🙂

  2. Ana Paula 21 Janeiro, 2008 / 10:22

    Um texto repleto de factos curiosos ao nível das expressões, cuja origem aqui nos revela da forma mais interessante!
    Parabéns por mais este excelente post, enriquecedor, pois sinto que aprendi mais… 🙂
    Obrigada!

  3. samuel 20 Janeiro, 2008 / 22:53

    Então fiz bem em agarrar este post pelos cabelos…
    Já cá canta!
    (O “já cá canta” tambem deve ter uma boa história…)

  4. Gi 18 Janeiro, 2008 / 03:20

    Se eu disser que este é um dos mais completos e interessantes posts que aqui tens parece que estou a ser redutora em relação á qualidade dos outros o que não corresponde à realidade. Apenas o digo porque à excepção da história de Sansão tudo o resto é novidade para mim e eu adoro “descobertas” mesmoq ue desenterradas por outros 🙂
    Obrigada por este banho de cultura que nos vais dando por aqui.
    Um beijinho

  5. vsuzano 17 Janeiro, 2008 / 22:32

    tou triste…. sou careca por opção…. nunca pensei que o cabelo fosse tão importante… embora adore passar a mão pelo pêlo da minha metade….

  6. Jardineira aprendiz 17 Janeiro, 2008 / 21:15

    Quem diria que o cabelo tem tanto que se lhe diga! Não conhecia estas características da Fortuna, mas não fiquei surpreendida que caminhe sobre o fio de uma lâmina…
    A música, como sempre, é giríssima!

  7. un dress 17 Janeiro, 2008 / 15:51

    agora percebo a inspiração de alguns penteados que por aí proliferam!!:))
    engraçadíssimo é confirmar de novo aqui sentires e sentidos!
    e por isso mesmo…obrigada!
    abraÇo

  8. M.M 16 Janeiro, 2008 / 22:06

    chegou o eco, sim. :))
    Um abraço

  9. velha gaiteira 16 Janeiro, 2008 / 19:03

    embora me considere moderna, tenho um fraquinho saudosista pela tradição (menos as da igreja, claro)

  10. Sophiamar 16 Janeiro, 2008 / 18:29

    Saio sempre mais rica deste blogue. Às vezes fico pelos cabelos com a minha farta cabeleira. Dizem lá na serra que é das coisas mais belas que a mulher tem. Os cabelos e o olhar.
    Vou sair e agarrar a ocasião pelos cabelos.
    Beijinhossssss

  11. Maria Laura 16 Janeiro, 2008 / 12:54

    Essa deusa passa por nós tantas vezes e nem a vemos… 🙂
    Foi bom aprender mais qualquer coisa. Aqui, isso é uma ocasião que não desperdiço.

  12. APC 15 Janeiro, 2008 / 01:31

    Ricos ensinamentos, sem dúvida!…
    Gosto de todo o pensamento em redor das janelas de oportunidade que se nos abrem (ou que abrimos), e a verdade é que a felicidade não nos chega por termos hoje aquilo que ontem quisémos… Ela só está presente quando no presente se reunem ambas as variáveis: se eu consigo ter agora aquilo que agora desejo, agora eu sou feliz! E o agora é coisa que passa a correr! ‘Nada à toa, que a tal da Ocasião seja difícil de agarrar pelos cabelos, e que depois de ter passado já não haja como a puxar!
    Lembrei-me de te deixar este Kairos (parte de uma trilogia, com Chronos pelo meio), e um abraço desta que é tão fã das tuas escritas!***

  13. Justine 14 Janeiro, 2008 / 20:01

    Tp, já cá fazias falta os teus belos escritos, que sempre nos ensinam coisas. São uma pitada de cor neste Janeiro tristonho e chuvoso, em que o que me tem salvo tem sido a recordação partilhada da experiência de férias.

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