Alentejo

 


Na Paródia, semanário lisboeta dos primeiros anos do século passado, onde pontificavam as caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro, o beirão Luciano Castro parodiava assim o Alentejo:


Terra de grandes barrigas
Onde só há gente gorda!
Sopa de cheiro é açorda,
Quaisquer açordas são migas.
Às razões chamam cantigas
Milhaduras são gorjetas;
Maleitas dizem malêtas,
em vez de encostas, chapadas,
em vez de açoites, nalgadas,
e bolotas dizem bolêtas.

Terra mole é atasquêro,
Dar gorjeta é convidar,
Deitar fora é aventar,
fita de couro é avêro.
Vaso com planta é cravêro,
Carpinteiro é abegão,
a choupana é cabanão.
Às hortas chamam hortêjos,
Os cestos são cabanêjos
E ao trigo chama-se pão.

No resto de Portugal
Ninguém diz palavras tais!
As terras baixas são vais,
Monte de feno é frascal.
Vestir bem parece mal,
à aveia chamam cevada,
ao bofetão orelhada,
alcofa grande é gorpêlha,
égua lazã é vermelha,
poldra Isabel é melada.

Quando um tipo está doente
Logo dizem que está morto;
A todo vau chamam porto,
chamam gajo a toda a gente.
Vestir safões é corrente!
Por acaso é: por adrêgo,
Ao saco chamam talêgo
E, até nas classes mais ricas,
Ser janota é ser maricas,
Ser beirão é ser galego.

Os porcos medem-se às varas,
Os peixes vendem-se aos quilos.
E a gente pasma de ouvi-los
Usar maneiras tão raras…
Chamam relva às searas,
às vezes, não sei porquê!…
e tratam por vomecê
pessoas a quem venero.
Não quero diz-se nã quero,
Eu não sei diz-se ê nã sei!