amolador

Era amigo das primeiras chuvas, lá para os começos do Outono. Agarrado aquela geringonça suspensa numa antiga roda charrua ou carriola, lá vinha o senhor Aleixo, rua abaixo, com aquela gaita de latão que fazia deslizar pelos lábios ressequidos do casco que o vinho tinto foi deixando ao longo de muitos invernos…
É o afia tesouras e navalhas, freguesas!; conserto varetas de guarda-chuvas e ponho protectores nas solas ou, então, um pingo no tacho ou uns gatos no tacho ou na bilha quebrada, devagar que o tempo é lento, as freguesas tardam, amolecem, e o dia correu mal para a tigela da sopa e para a côdea…
Um pingo na panela?, é p’ra já! E o homem, num ápice muda a caranguejola de posição, à roda agora estica-lhe uma correia de couro que faz rodar um esmeril que aparece sei lá de onde, e a coisa gira à fartana com o balanço sincopado feito pelo pé numa tábua presa à correia que engatou na roda.
Afia tesouras a cinco coroas, tapa um furo no tacho de esmalte (se for de alumínio já ‘num’ dá…) por cinco paus, um guarda-chuva é consante o estrago e, por vezes, quem faz mesmo o estrago é a chuva que lhe leva os fregueses e lhe deixa para amanhã -se deixar…- a sopa mais o copito do tinto, ali na tasca do sôr Alexandre…
Havia quem o visse como presságio de mau tempo, havia quem julgasse ouvir trinado de gaio no sopro daquela gaita tão característica. Hoje não é fácil ouvir-se o gaio e o tempo já não se dá a cuidados com os presságios que lhe fazem.
Talvez por isso, o amolador tenha ido embora. Para sempre…

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30 comentários sobre “amolador

  1. Catarina 21 Março, 2009 / 19:41

    Olá!

    Numa pesquisa para a pré-escola da minha filha encontrei este site e resolvi deixar aqui um pequeno comentário.

    Aqui na minha terra ainda existe pelo menos um… mas nós cá não damos o nome de “amolador” mas sim de “aguça” e ainda sabe bem ouvi-lo tocar a gaita e normalmente no dia a seguir chove 🙂

    desculpem a intromissão e obrigada 🙂

  2. bettips 9 Março, 2009 / 17:49

    Era um som que alvoroçava as mulheres que na cozinha, procuravam o alumínio furado, as facas rombas…
    Saudade!

  3. triliti star 6 Março, 2009 / 04:07

    ainda não foi para sempre, não, que este inverno passou na minha rua. e lembro-me te o ter ouvido também no inverno anterior, que estas coisas são tão raras que não dá para esquecer.

  4. Teresa David 3 Março, 2009 / 23:58

    HÁ MUITO QUE NÃO A VISITAVA MAS AGORA QUE ME CRUZEI CONSIGO NUM BLOG DE AMIGA COMUM AQUI FICA UM ABRAÇO BEM COMO A RECORDAÇÃO QUE ME FEZ INVOCAR DOS AMOLA TESOURAS QUE QUANDO SE OUVIAM DIZIA-SE SEMPRE: AI QUE VAI CHOVER!
    AINDA POR CIMA O TEXTO ESTÁ MAGNIFICO.
    BJS
    TD

  5. ลndreia 3 Março, 2009 / 19:59

    Já há muito tempo que não vejo um… *

  6. Arabica 2 Março, 2009 / 22:16

    Peço imensa desculpa, mas aqui na minha rua o amolador, de ar cansado e roupa refletindo pobreza, continua a passar, entoando na gaita, o trinado…

    Já ninguem o procura para os pingos nos tachos ou para arranjar chapéus de chuva…hoje em dia, o trabalho consiste em afiar facas e tesouras…e mesmo assim…pouca coisa…

    Um beijinho e boa semana

  7. São 2 Março, 2009 / 16:02

    Voltei à minha infância , obrigada!
    Boa semana.

  8. Graça Pires 2 Março, 2009 / 14:36

    Que bem você nos recorda o amolador com o seu assobio que pressagiava chuva. Ainda hoje quando o ouço digo que vai chover…
    Um abraço.

  9. Rosa dos Ventos 2 Março, 2009 / 11:24

    Ainda o ouço por aqui, mas vem de bicicleta, por isso com menos instrumentos de conserto!
    Mas o assobio é o mesmo da minha infância…

    Abraço pela recordação

  10. Paulo Sempre 2 Março, 2009 / 02:25

    Rara imagem. Só o imaginário colectivo tem o legado do pretérito. Eu não sou do tempo do “gatos no tacho”…mas já vi um alguidar com muitos gatos….uma reliquia…

    Abraço

  11. Dulce 2 Março, 2009 / 02:16

    Ah, como me lembro do amolador de facas das ruas de minha infância!… uma imagem que o tempo levou de minha cidade, mas que ficou guardada no bau de doces memórias…

  12. Teresa Durães 1 Março, 2009 / 20:48

    sempre achei piada ao som do amulador

  13. Justine 28 Fevereiro, 2009 / 17:42

    Tantas nostalgias acordam no teu texto: o ambiente rural, o falar desacertado, os presságios de chuva. Outros tempos, que partiram para sempre, como o amolador…

  14. Licínia Quitério 28 Fevereiro, 2009 / 14:37

    Ainda fico à espera da flauta do amolador. Tenho uma tesoura que ele há-de amolar, com a pirisca ao canto da boca e a samarra de fazenda coçada. E eu encantada pelo fogo de artifício nascido da lâmina da minha tesoura.

    Obrigada por este bocadinho de magia.

  15. Baila sem peso 28 Fevereiro, 2009 / 12:31

    E não é, que a chuva veio!!!
    Não sei se foi por o olhar aqui
    se, porque ainda outro dia o vi!

    …também me pareceu miragem
    mas o certo é que ele lá estava
    no meio da minha rua, de cidade
    e eu da janela espantada!!!!

    E um vizinho de rua, do passeio do outro lado
    lhe deu um sorriso bem adornado
    e um chapéu de chuva para o manter ocupado
    e eu continuava a pensar se não me tinha enganado
    se ia apenas acordar, de um sonho pela chuvinha molhado…

    Um sorriso para este “funileiro” que pelas minhas bandas, era assim chamado

    e

    “olh´à a laranjinha,
    que caiu caiu…
    olh´á a laranjinha
    mais ninguém a viu”

    e era assim que eu cantava
    esta doce modinha (sorrisos amigos)

    beijinhos

  16. aquilária 28 Fevereiro, 2009 / 08:57

    tem piada! ainda há três dias me espantei por encontrar um amola-tesouras em plena avenida de roma, em lisboa.
    são bonitas, estas coisas que nos conta. falam-nos de um tempo cuja memória deve ser preservada. e ainda bem que há quem dele nos fale, com sensibilidade e rigor.

    um abraço.

    (tenho andado completamente embrenhada na leitura de um belissimo romance, escrito a partir de uma cantiga de Afonso, o Sábio. e quando, há dias, vim visitar este blog, deparei com o post sobre a caparica. e a imagem da velhinha que vagueava por esses sítios, com a sua capa,misturava-se com outra, saída do tal romance, e que era a de uma princesa que corre feliz, de noite, pelos campos de villasirga. mundos mágicos que se entrelaçam).

  17. Violeta 27 Fevereiro, 2009 / 20:43

    Obrigada, obrigada, obrigada
    Há tempos que não ouvia a expressão…
    Adorei o post, fez-me recordar coisas de infância.

  18. pin gente 27 Fevereiro, 2009 / 20:40

    eu recordo-me, com ternura, desta musiquinha pelas ruas de lisboa.
    obrigada

    um beijo

  19. mfc 27 Fevereiro, 2009 / 14:01

    Era uma figura característica que desapareceu por completo.

  20. De Amor e de Terra 27 Fevereiro, 2009 / 11:38

    Traz passados à lembrança
    a gaita do amolador
    e velhos tempos d’esp’rança
    de viver um grande amor;

    tudo passa, tudo morre
    nada fica eternamente
    só a vida, corre, corre
    e vai fugindo da gente!…

    Bejo

    Maria Mamede

  21. gaivota 27 Fevereiro, 2009 / 08:45

    pois era, bem me lembro, mas ainda há, aqui na minha aldeia nem é preciso ir à rua, mas na parede ouvia muitas vezes o apregoar do amolador
    muito útil este trabalho, arranjar os guarda chuvas, os furos das panelas e tachos, gatear os alguidares…
    coisas antigas…
    beijinhos

  22. APC 27 Fevereiro, 2009 / 03:27

    Olhó funileeeiro!!!
    Pa mim, este senhor é um funileiro com roda, e o outro é um amolador com caixote, eheheh.
    Bom toque de escrita. Bela evocação!

    Olhó abraaaço!!!

  23. mdsol 26 Fevereiro, 2009 / 22:52

    Também me recordo da figura do amolador… na aldeia. De tal modo que, convertida (que remédio) à cidade, nos meus primeiros tempos de “dona de casa” (ops)tocou à porta um amolador…Acho que me enchi de alegria por ver, inesperadamente, uma “figura” do meu imaginário e corri à cozinha… trouxe as facas todas para ele… estragar completamente… Não me arrependi…. Facas há muitas… recordações doces da infância ao vivo e a cores nem tanto!
    :)))

  24. Vieira Calado 26 Fevereiro, 2009 / 21:47

    Penso que, por aqui, não havia esse ditado.

    Mas ainda há um amola-tesouras!

    Quanto ao cometa… bom… nem sempre é fácil.

    O tempo é sempre o pior inimigo.

    Mas fez bem tentar.

    Eu também tive frustrações dessas…

    Um forte abraço

  25. Multiolhares 26 Fevereiro, 2009 / 21:13

    Aí que medo eu tinha do “amolador” quando era pequenina,
    a minha mãe dizia que levava os meninos que se portavam mal e cortava os dedos, quando o ouvia a tocar ia-me esconder
    Bj

  26. elvira carvalho 26 Fevereiro, 2009 / 20:51

    Também me lembro do amolador. Mas coitado connosco ele não ganhava para a “bucha” porque sempre foi o meu pai que punha fundos novos nas panelas, varetas nos guarda-chuvas, amolava as facas e as tesouras, enfim todo esse trabalho.
    Um abraço

  27. Alma Nua 26 Fevereiro, 2009 / 20:50

    …que poesia conseguistes
    trazer de tempos idos,
    onde estes amoladores,
    e seu esmeril barulhento,
    encantavam as crianças.

    era assim também aqui no
    Brasil.

    e alguns poucos ainda
    sobrevivem nos pequenos
    vilarejos.

    bjusss

  28. Inês Santos 26 Fevereiro, 2009 / 19:30

    Continuo a lamentar o fim das “Folhas da Gaveta” é verdade mas é sempre compensado sempre que aqui venho. Li aí em baixo que tudo isto devia ser escrito em livro a Tinta Permanente. Porque não pensas nisso, meu amigo?
    Inês
    -gosto de saber sempre quando vem novo post!… ficou bonito!
    beijos

  29. mena m. 26 Fevereiro, 2009 / 18:01

    Amolador à porta…

    Ele a amolar as facas e as tesouras e nós de roda dele fascinados pelas faíscas e por aquela roda grande…

    Que bem me lembro!

    Um beijinho

  30. Cata-Vento 26 Fevereiro, 2009 / 17:46

    Ainda não foi definitivamente mas já rareia o amola-tesouras, prega-gatos, pinga-tacho…
    Já nem dos presságios sabem os mais novos que esta profissão não dá p`ró tinto nem P`ra alumiar candeia. Talvez volte se assim continuarmos e lá voltaremos ao alguidar de barro gatado, à gamela pingada ou às varetas consertadas.

    Bem-hajas, amigo.

    Beijos

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