as diferenças… vão para cem anos.

 

Já ouviu dizer ‘ele tem muito know-how’, que  ‘a Guidinha foi fazar um wokshop’, ou que ’o chef Pató é um guy  que organiza brainstormings  sempre a bombar’? E ‘quando fizemos um coffee break’ será que ‘até tirei uma selfie’?… Grrr!….
Deixe lá, não se rale: há cem anos podia ser diferente; mas se vir bem, olhe!…, era igual!

Se ao mundo agora viessem
João de Barros e Vieira,
Suar-lhes-ia a moleira,
Se acaso escrever quisessem.
Muitos hoje desconhecem
O idioma adoptado,
E um pobre ancião, coitado,
Ficava a chuchar no dedo,
E exclamaria com medo:
Portugal está mudado!

Tenho um filho, um doidivanas,
Um asno, um janota, um tolo,
Que tem voltado o miolo
A mim, à mãe e às manas.
Passam-se dias, semanas,
Até meses, creio eu,
Em que o maldito sandeu
Traz a família confusa,
Pois que a linguagem, de que usa,
‘Té ao diabo esqueceu.

Diz que é a língua da moda,
Que hoje fala toda a gente,
Que é elegante e decente,
Assim é p’rá nação toda.
Eu reconheço que incomoda
Tanta tolice escutar;
Mas vou-lhes sempre contar
Algumas frases melhor
De tal língua, o tal primor,
Que é hoje moda falar.

Um patusquinho, um ratão,
Que sabe apanhar dinheiro,
É agora um brejeiro,
O que dantes um intrujão.
A mentira hoje é palão,
À pobre cozinheira
Dá-se o nome de sopeira,
Um doido diz-se telhudo;
Mas é pior do que tudo
Ser a cabeça trapeira.

Chama-se bronze ao pataco,
Aos cinco tostões carinha;
Um tostão é uma rodinha,
Dinheiro em geral é maco;
E até chega a meter dó
Chamar-se ao frio taró,
E ouvir dizer das senhoras:
Está cheia de nove horas;
Vai toda coxa e liró!

Velhote de perna fina,
Que traz chapéu cheio de sebo,
Recebe o nome de gebo;
E d’isso não se amofina.
Chama-se sócia à menina,
Ao pai polaco ou patrão,
E não conheço a razão
De ser o burro um jerico,
o chapéu quimbombo ou quico
e a bebedeira ser um pifão.

Um toleirão deputado –
Letras gordas, um lapónio –
Que se chame Possidónio
Ordenou Manuel Roussado.
E também acho engraçado
Que um patusco desordeiro,
Palrador e rezingueiro,
Que em tudo mete o nariz
E só mal dos governos diz,
Se chamasse um penicheiro.

Há dias fiquei pateta
D’ouvir (não direi a quem)
Que a moeda de vintém
Podia ser uma cheta.
E mais ouvi (não é peta)
Chamar pileca ao sendeiro,
E a um pobre homem useiro
A beber o seu copinho
Chamava-lhe um ratãozinho
Agora chicarado ou pileireiro.

Não é palavra hoje usada
Meu namoro, meu derriço;
Mas sim ourelo ou serviço.
E para não faltar nada,
Se um sujeito dá pancada
Diz-se que fez um banzé;
E, se acaso esperto é
Para no meio da bulha
Poder fugir à patrulha,
Tingou-sepassou-lhe o pé.

Em vez de trem alugado
Diz-se: vim n’uma tipóia.
Um cocheiro do Lagoia
É também gato pingado.
Tudo, tudo está mudado
Na linguagem de Camões
E de certo convulsões
Teria Filinto Elísio
Ouvindo que um olho é clizeo
E as suíças matacões.

O que d’antes era apito
Hoje é grilo ou rouxinol;
A bela pinga é briol,
Cigarro é pavio ou palito.
E é sobretudo esquisito
Ser um barulho chinfrim.
Ou entrar n’um botequim
Um tipo, fraca figura,
E em vez d’uma mistura
Dizer: traga um arlequim.

A história hoje é balela
Uma libra é uma loirinha
E do cigarro a pontinha
Dá-se o nome de beata;
O rosto é facha ou é lata.
Chama-se banza à viola
E é coisa que desconsola,
Em vez de: gosta de mim,
Usa-se dizer assim:
Vai ou não à minha bola?…

Quem gosta de chalaçar
De pandego o nome tem;
Não possuindo vintém
Diz-se que está à apitar.
À música popular
Chama-se hoje solidó,
Se a gente vai ao Cócó
E come dois pastelinhos
Muito bons, muito quentinhos
Diz: são X.P.T.O.

Mulher que namora, adiça,
Chama-se tanso ao idiota,
Casa de jogo é batota
Estar com fome é ter larica;
Porém o que não se explica
É ser o cabelo solho,
Ser o vinho breu ou molho
E mostrar que se é esperto,
Dizendo com o luzio aberto:
O pai Paulino tem olho!

Eu muito dizer podia,
Mas tenho certo receio
De maçar; mesmo já creio
Ter dito mais que devia.
E declaro que me ria
Se alguns, a quem estou falando
Tanto ficassem gostando,
Da língua do filho meu,
Que exclamassem como eu:
São horas… vou-me raspando.