as sentenças do rei

O rei D. Pedro I foi um dos mais controversos reis da nossa História. Não lhe bastasse a conturbada história da bela Inês, outros episódios do seu reinado, mais ou menos rocambolescos e esdrúxulos, ficaram–lhe associados com mais ou menos veracidade ou pinceladas de lenda.
A propósito, talvez, de uma das suas leis (a que proibia a advocacia, cuja motivação daria uma curiosa e engraçada metáfora para os tempos actuais…), Pinho Leal refere no seu Portugal Antigo e Moderno, um caso que, a ser verdadeiro, acrescente-se, dá uma ideia clara da excentricidade daquele monarca a quem chamaram de Justiceiro, Vingativo ou, até, Cruel.
Então, cá vai a história:
D. Henrique da Silva, cónego da Sé de Évora, matou um sapateiro à bordoada, segundo uns porque ele lhe fez uns sapatos que não lhe agradaram, e segundo outros, porque ele se opunha a que o cónego lhe seduzisse a mulher.
Por único real castigo, foi o assassino condenado a não assistir ao coro por um espaço de um ano!…
Tempos depois, um filho do sapateiro, para vingar e saldar a honra paterna, matou o cónego à punhalada, em plena rua e num dia de festa. Por isso foi preso e os juízes do Paço condenaram-no a ser esquartejado vivo. D. Pedro, que estava em Évora por causa dos festejos, informou-se das razões que tinham levado o moço a cometer o crime. Inteirado das razões, avocou a si o processo, revogou a sentença dos juízes e, então, condenou o rapaz a não fazer botas durante um ano.
O rapaz era pedreiro.