as sereias da Bandeirinha

São raros os lugares que não tenham as suas lendas, os seus mitos à mistura de tudo quanto é sítio por onde passe gente. Se, por um lado, fontes, rios ou montes, lugarejos ou falésias solitárias agarradas ao mar, ainda preservam muitas dessas histórias, os paradeiros citadinos esses, se histórias tinham, as mais das vezes já se perderam encafuadas nas bocarras do cimento…
Não é o caso (nem é único, felizmente…) da apalaçada residência, que foi da família Cunha Osório Portocarrero, construída lá pelos meios do século XVIII, no morro sobranceiro ao actual edifício da Alfândega, na margem direita do Douro. Conhecida pelo Palácio da Bandeirinha, o palacete tomou essa designação, curiosamente, porque num dos seus muretes exteriores, nesses tempos, estava instalada uma bandeira que marcava a linha de atracagem para todos os navios que aportassem ao rio: ali era o limite, que não podia ser ultrapassado, caso houvesse suspeita de peste a bordo.
Mas, para além de Palácio da Bandeirinha, outro nome o torna, porventura, mais conhecido: Palácio das Sereias. O nome vem, claro, das duas exóticas e monumentais sereias que ladeiam o portal central do Palácio. Provavelmente de origem na mitologia grega e romana, as sereias (namoradas, usando velhas expressões tripeiras), sempre ficaram associadas aos encantamentos que exerciam sobre os homens, fosse no mar fosse em terra. Ora, as sereias da Bandeirinha, há mais de dois séculos que, se não encantam, pelos menos desnorteiam a moçarada que por lá passa fora de horas. Ainda não vão assim tantos anos sobre as juras pelas alminhas que a lenda era bem verdadeira e que bem embruxada ficava a garotada que fosse ao portão espreitar as mulheres nuas. Mesmo que elas fossem feitas de pedra e com rabo de pescada…

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21 comentários sobre “as sereias da Bandeirinha

  1. M. 21 Março, 2009 / 16:55

    São belíssimas estas sereias. E o modo de aqui falares delas também.

  2. Idun 16 Março, 2009 / 08:30

    pelos vistos, mesmo aprisionadas na pedra, as sereias não perderam o seu poder encantatório.

  3. Rosa dos Ventos 12 Março, 2009 / 17:35

    Há uns tempos tirei 3 dias para visitar o Porto, na companhia da minha irmã e duas primas…
    Pelos vistos ficou-me este palácio encantado para trás.
    Tenho de lá voltar, para sentir o sortilégio que tu transmites nesta narrativa tão completa!

    Abraço

  4. triliti star 12 Março, 2009 / 01:44

    coisas que são pérolas…

  5. triliti star 12 Março, 2009 / 01:43

    sois certamente um mago de longas barbas branca e alguns séculos de existência…

    tanto conhecimento que me delicia.

    e já por lá passei, algumas vezes, porventura, levianamente desatento…

    é bom perceber que sentes prazer em trazer-nos estas “coisas”.

  6. Arabica 11 Março, 2009 / 20:38

    Cá ficaram as sereias para nos lembrar do seus cantos 🙂

    Um beijinho

  7. Teresa Durães 11 Março, 2009 / 14:11

    Talvez a lenda venha mesmo dos Lusitanos porque eram mais dedicados ao mar do que os romanos. Mas gostei da descrição

  8. mena m. 11 Março, 2009 / 12:44

    Como eram inocentes as sereias, que os meninos espreitavam pelo portão e que os deixavam sem ceia…

    Gostei, como sempre!
    Ah e vi que mudaste de caneta!Desenho teu?

    Um beijinho

  9. São 10 Março, 2009 / 14:25

    Como as lendas me agradam…
    Fique bem.

  10. APC 9 Março, 2009 / 23:18

    De pedra e com rabo de pescada, mas com uns belíssimos argumentos que, pelos vistos, não sucumbem ao passar do tempo. Estou a falar dos argumentos históricos, é claro!…
    É à conta desse zoom que ali vejo feito, suponho que tenhas ficado sem ceia durante uns tempos, não?
    Adorei!

  11. elvira carvalho 9 Março, 2009 / 23:11

    Antigamente o País estava cheio de lendas. Desde lobisomens, bailes de bruxas em encruzilhadas até damas de pé-de-cabra, havia de tudo um pouco.
    Um dia conto-lhe uma história uma destas histórias, e essa garanto-lhe é verdadeira…
    Um abraço

  12. alice 9 Março, 2009 / 23:10

    sempre pensei que o mundo seria um mundo melhor se este tipo de criaturas existisse de facto, mas já é bom podermos vê-las na ficção.

    um beijo.

  13. mdsol 9 Março, 2009 / 22:35

    Como sempre! Como sempre! Interessante, criativo, sei lá… não sei mais que adjactivos usar. Sou directa: gosto muito de aqui vir!
    :))

  14. Maria 9 Março, 2009 / 20:57

    Parabéns pelos textos e blog também.
    abraços

  15. Justine 9 Março, 2009 / 18:19

    A tua bem disposta lição de história sobre as belas especificidades do Porto obrigam-me a agendar uma viagem para breve! Quero ir espreitar essas sereias e ver o que acontece…:))
    Abraço

  16. bettips 9 Março, 2009 / 17:58

    Ó caro: quem se deita sem ceia, toda a noite rabeia!
    A Escola da Bandeirinha foi a primeira escola primária onde andei…
    Aquelas ruas são um encanto! As tuas memórias ainda mais.
    Bjinho

  17. Isamar 9 Março, 2009 / 16:59

    ” há histórias que são para os meninos dormir sem ceia” e esta é uma delas.Os miúdos e os graúdos ainda se assustam quando a negritude da noite se acentua em lugares mais ou menos ermos. Neste caso com as mitológicas sereias que com o seu melodioso canto atraíam os humanos para profundezas desconhecidas. Ainda há aleivosas que o fazem e todo o cuidado é pouco.
    Saio mais rica. Como sempre!

    Um abraço fraterno

    Bem-hajas!

  18. Baila sem peso 9 Março, 2009 / 16:30

    …”Toda a gente se salvou…
    ai toda a gente,
    só o S.Macaio não…”

    e as sereias da Bandeirinha
    também não se salvaram, não…

    de figurar em cantinho bem perfeito
    para lendas, de rosto de águas!
    que podem causar alegrias…
    podem causar mágoas…

    mais histórias…das memórias…
    e o menino…dormiu sem ceia? 😀

    Beijinhos

  19. Dulce 9 Março, 2009 / 16:00

    Maravilhosas essas histórias, ou lendas, que vem nos trazendo em seu blog. E assim, ilustradas por fotos, completam-se melhor.
    Um abraço.

  20. Meg 9 Março, 2009 / 15:59

    Tinta Permanente,

    Depois de 2 meses privada de net, por ter mudado de residência, aqui estou de regresso, finalmente, e venho, numa primeira visita, deixar um abraço e a promessa de voltar para ler e comentar, como é devido.

    Um abraço

    Meg

  21. Vieira Calado 9 Março, 2009 / 15:59

    Mitologia à portuguesa…

    Obrigado pela informação acerca do texto de astronomia.
    Vou tentar remediar.

    Um forte abraço.

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