as voltas do vinho


Antigamente os judeus ‘não podiam ir comer nem beber às lojas e tabernas dos cristãos, nem mandar vinho para as suas casas de outras casas ou lojas que não fossem judaicas’. Ora, como essas casas ou lojas, de alimentos e vinhos, não estavam disseminadas por todo o país, os judeus eram obrigados a recorrer às vendas e aos botequins cristãos, pelo que se viam, na maioria das vezes, ‘perseguidos, não só pelas autoridades do fisco real, mas também pelos fiscos das comarcas, incorrendo em penas graves, que consistiam em multas pecuniárias, em prisão e, em alguns casos, até açoites de vergasta’.
Os judeus da comuna de Lamego, em meados do século XV, queixaram-se ao rei, D. Afonso V, destes vexames e destas perseguições. O Rei, depois de os ouvir e reunir com os conselheiros da Fazenda Pública, despachou favoravelmente o requerimento dos judeus, ordenando aos executores fiscais que ‘permitissem aos judeus fazer uso do vinho cristão nas terras onde não houvesse vinho judengo atabernado’.
Isto, em resumo, é o que diz a Carta Régia de D. Afonso V, passada em Almeirim a 24 de Maio de 1541.
Seria interessante saber, mas isso a Carta e o cronista não nos diz, se o vinho cristão (christengo) era pior que o judaico (judengo), visto que, provavelmente, seria baptizado. Ou, até, se qualquer deles teria alguma mixórdia, o que não seria de surpreender pois que no falsificar os vinhos tão abalizados deviam ser uns tão bons como os outros…