bacalhau à moda antiga

(na Ribeira do Porto, um formigueiro humano, esforçado e despachado,
acaba de fazer a descarga do bacalhau de um patacho, chegado da Terra Nova (1920)

 

(…) Ser marinheiro e pescador de dóri, não era na realidade tarefa fácil, e nem todos os rapazes que embarcavam nesses barcos conseguiam vencer. Era necessário coragem, força de vontade, espírito de luta e muita prática da vida do mar. Mas prática daquela que só se adquire nessas terras da nossa costa, onde se nasce ouvindo as vagas, e onde os mais velhos, como estímulo para os jovens, quando por descuido ou preguiça a tarefa fica incompleta, costumavam dizer:
– Então, é assim que queres ir ó bacalhau? Safa-te, moço, e não te atarantes!…
Assim, estes rapazes cresciam com a certeza presente, que se mais tarde quisessem ser bacalhoeiros, tinham de ser expeditos e desembaraçados. Pelas histórias que ouviam contar a seus pais e aos irmãos mais velhos, eles sabiam que no dóri não podiam esperar por ninguém, nem aguardar ordens para cumprir senão as que recebiam do capitão do seu barco, por sinais de bandeira ou de buzina de nevoeiro, quando faltasse a visibilidade. Depois, era realmente necessário cada um safar-se e não se atarantar…
Tinham de saber remar e velejar, o que era fundamental, cartear (saber interpretar) a agulha magnética, dando descontos às correntes de água e ao abatimento do bote quando andavam à vela, e arrumar o peixe que apanhavam de forma a poder carregar o máximo, mantendo o melhor possível as condições de navegabilidade e de segurança da sua pequena embarcação. Assim eram os pescadores e marinheiros que, quando ouviam o seu capitão dar ordem de suspender o ferro, dando por concluída a pesca daquela campanha a bordo dos velhos lugres e patachos ancorados, aqui e além, nos bancos da Terra Nova, gritavam alegremente:
– Vamos p’ra casa, malta! Imos imbora!…(…)