Barão de Forrester

 


No próximo dia 12 faz 151 anos (foi em 1861) que, com quase 52 anos, morreu afogado no rio Douro, no lugar do Cachão da Valeira, o Barão de Forrester, José James Forrester de seu nome, escocês, escritor, artista e viticultor, que tanto se notabilizou na expansão e propaganda do Douro e dos seus vinhos.
A sua morte, que muito impressionou o país, foi descrita assim, magistralmente, por Camilo Castelo Branco:
(…) No dia 12, um alegre domingo, saíram todos, o Barão de Forrester e vários amigos, do Vesúsio, na intenção de jantarem na Régua. O Douro tinha engrossado com a chuva de dois dias e a rapidez da corrente era caudalosa. Aproando ao ponto do Cachão, formidável sorvedouro em que a onda referve e redemoinha vertiginosamente, o barco fez um corcovo, estalou, abriu um golpe e mergulhou no declive da catadupa. O Barão sofre uma pancada do mastro quando se lança à corrente, nadando. Ainda fez algum esforço para apegar à margem; mas, fatigado de bracejar no teso da corrente, ou aturdido pelo golpe, estrebuchou alguns segundos na agonia, e desapareceu.(…)
(gravura da época)

Este desastre, pelas circunstâncias em que se deu (Dona Antónia Ferreirinha, que viajava com ele, e mais outras senhoras, salvaram-se graças ao fole das suas saias) e ainda pelo facto de apenas ter vitimado o Barão de Forrester, foi durante muito tempo motivo de estranhas e singulares versões, tanto mais que o seu cadáver nunca apareceu (dizia-se, na altura, que era vulgar o Barão carregar muitas moedas de ouro no forro de cabedal do seu largo cinto). Admitiram-se ou criaram-se lendas e fantasias à volta do sinistro Cachão do Douro e, no caso, chegou-se a conjecturar um crime. De tudo, porém, nada se averiguou e nada se provou…
Forrester, há muito radicado em Portugal, no Douro e na cidade do Porto, onde possuía uma riquíssima moradia para as bandas da Ramada Alta, proprietário, produtor e comerciante, foi uma destacada figura da cidade do Porto, naquela época. Dedicou o seu tempo e saber procurando por todas as formas fazer acreditar e qualificar o Vinho do Porto. Entre 1843 e 1860 publicou vários trabalhos, escrevendo-os e ilustrando-os com excelentes desenhos, sobre o cultivo e a produção dos vinhos durienses. Os seus trabalhos A crise comercial explica-se e A verdadeira causa da crise comercial do Porto, contribuíram grandemente para debelar o pânico e estimular as energias das gentes do Douro seriamente abaladas com o flagelo que devastou grande parte dos vinhedos, em 1859. Ficaram famosos os seus mapas e notas no O pais vinhateiro do Alto-Douro, publicado em Português e Inglês e, mais tarde, reeditado pela Câmara dos Comuns, em Londres.
Na sua casa apalaçada da Ramada Alta, mesmo depois de desaparecido, continuaram as famosas reuniões que, antes, ele organizava. A sua memória serviria, nessa altura, para oportunismos e negócios pouco claros, de tal modo que, em 1884, Camilo publicou algumas tremendas críticas aos saraus na casa do Barão, o que provocou um ruidoso escândalo com a forma com que ele tratava as gentes da Assembleia Portuense, os do Palheiro como os qualificou, que se serviam da casa do falecido para provarem e abusarem das libações do magnifico vinho, que tanto o Barão de Forrester procurou dignificar.