Burro!…

Adeus!… Adeus meu ‘Jeremias’!… Vai-te embora!…
Como um traste qualquer foste dado à penhora!
Vais tu em vez de mim… nesta hora amargurada,
tu vales uns vinténs e eu… não valho nada!
És levado, também, na força deste enxurro,
e eu fico sem saber qual de nós dois é o burro!
Bem sei que te desgosta o freio e essa albarda…
Mas isso, meu amigo, anda por aí em barda
na boca e nos costados de toda a humanidade.
A albarda, chama-se Vida… ao freio, dizem, é Liberdade!…
Deixa-me dar-te um beijo, um só, o derradeiro!
Neste beijo de pai, neste ósculo arrieiro,
vai todo o meu perdão por tudo o que fizeste,
até – ó meu amor – p’lo coice que me deste
quando eu numa fornada… – como a gente se afunda! –
estava a misturar farinha de segunda!
E essa patada só, tão simples na aparência,
não me foi dada aqui… foi, sim, na consciência!
Foi esse coice afinal, esse teu gesto irado,
que fez do teu Tibério um homem bom e honrado!
E sempre, desde então, lembrando-me de ti,
fui leal, fui honesto, fui digno e… fali!…
Vai e sê feliz por toda a eternidade!
Eu choro a viuvez… tu ficas na orfandade!

 

 (‘O adeus ao burro’, monólogo da opereta ‘A mulher do padeiro’, de Arnaldo Leite e Heitor de Campos Monteiro, interpretado com a mestria do grande Vasco Santana, nos anos trinta do século passado;
…embora não pareça!)