Casa dos Vinte e Quatro


Nas suas Memórias para a História de Portugal, José Soares da Silva, em 1720, refere que, “no Porto, um tanoeiro, de nome Affonso Annes Penedo, na nova junta, que por ordem do Mestre se fazia na Casa da Câmara, e havia assistido ao congresso de S. Domingos, levantando a voz e empunhando a espada, lhes disse (aos nobres):

‘- Que estais vós outros cuidando? Duvidaes de convir no que consentem todos? Tendes porventura outro que não seja o Mestre d’Aviz, que vos defenda do poder castelhano? O certo é que só n’isto não pareceis portugueses”.
Isto disse e, com a mesma acção, começou a passear pela Casa; vendo que tambem se lhe não respondia, com voz então mais desentoada e gesto mais enfurecido, lhes repetiu estas palavras:
“- Ainda tendes duvida ao que vos propomos? Pois á fé que haveis de dizer se acceitaes ou não o Mestre por Defensor do Reino, mas que eu arrisque a vida: porem seguro-vos que primeiro o pagou com a sua quem disser que não, ou repugnar que ele o seja”.
Estas mesmas palavras disseram todos os que ali se achavam da parte do povo, com que atemorizada a nobreza, que duvidava dar n’esta eleição o seu consentimento, prevaleceu o temor do perigo, que todos conheciam proximo, ao receio que temiam remoto, e todos, de unanime accordo, elegeram e acclamaram o Mestre por Defensor e Regente do Reino.
Um dos primeiros actos do reino de D. João I foi o estabelecimento da Casa dos vinte e quatro, junta popular composta de 24 homens, sendo dois de cada officio. O tanoeiro Affonso Annes, em premio da sua coragem e civismo, foi nomeado pelo rei juiz do povo, que era o mais graduado de todos os vogais da Casa dos vinte e quatro. Assim foi em 1385.’

A Casa dos 24, também designada por Torre da Rolaçam (Relação), a mais primitiva sede do poder autárquico,situava-se junto à , encostada à Cerca Velha (Muralha Primitiva) no morro da Pena Ventosa, sobranceiro ao rio Douro. Serviu até meados do século XVI. Ao abandono, degradou-se até acabar em esparsas ruínas. Em 1995 a edilidade resolveu ‘homenagear’ a Casa, erguendo no local um estapafúrdio e apascaçado paralelo de betão…