fazer castelos no ar (ou construir)

Dragões, fadas, bruxas, princesas encantadas, cavaleiros e príncipes heróis e generosos, sempre se misturaram indelevelmente com os castelos do inesgotável imaginário da fantasia, da lenda e do conto que tanto povoaram os sonhos infantis.
De outros tempos, é claro: naquele tempo em que as crianças eram crianças e, depois, guardavam-se para sempre nos adultos que se tornavam.
Os contos infantis mais bonitos foram escritos por quem não punha os pés no chão. Mas isso são outras histórias…

Isto porque talvez esteja aqui a parte mais profunda da origem desta expressão. Embora, genericamente, se entenda que fazer castelos no ar signifique conceber esperanças vãs, arquitectar projectos sem qualquer consistência ou fundamento: quem ouve as palavras do Senhor e não as põe em prática assemelha-se ao tolo que constrói sobre a areia. (Evangelho de S. Mateus, 7,26). É curioso, e talvez pouco sabido, que esta expressão tem (ou teve, no uso popular) outras formas: Castelos na Espanha, por exemplo. Os franceses dizem faire châteaux en Espagne, como La Fontaine escreveu (…)quel esprit ne bat campagne?, qui ne fait châteaux en Espagne?(…). O próprio La Fontaine explica a frase, salientando tratar-se de projectos quiméricos, irrealizáveis e que, já no século XIII, se empregavam os modos de expressar château en Asie ou château en Albante com a mesma significação.
Isto, na prática, queria dizer construir castelos em países estrangeiros onde não se vive, nem se possui coisa alguma. Ora, como a Espanha, naquele tempo, era o lugar das aventuras e histórias novelescas, consideravam-na o país onde ocorriam as coisas mais mirabolantes e extraordinárias, sítio, portanto, onde se pensava fazer coisas que, na realidade, eram apenas feitas na imaginação de cada um.
La Fontaine viveu no século XVII. Se porventura fosse nosso contemporâneo, não sei, talvez tivesse escrito, antes… Qui ne fait châteaux au Portugal?
Não ficaria este apontamento completo sem uma outra referência: Machado de Assis e Sá de Miranda, usaram por diversas vezes uma outra variante deste dito popular: castelos no vento.

 

 

 

 

(as fantasias dos gatos passam-se sempre na cozinha)

13 comentários sobre “fazer castelos no ar (ou construir)

  1. mena m. 16 Outubro, 2009 / 08:42

    Há ainda os castelos de cartas, que ao menor descuido têm o mesmo destino dos aqui referidos…
    Mas o que importa é mesmo sonhar!
    Um abraço

  2. Isamar 14 Outubro, 2009 / 20:00

    Fazer castelos no ar é uma expressão que anda associada à nossa eterna capacidade de sonhar. A maior parte das vezes o sonho é impossível, irrealizável, inatingível mas não deixemos por isso extingui-lo. "Sempre que o Homem sonha, o mundo pula e avança…"
    Um abraço
    Bem-hajas!

  3. tinta permanente 14 Outubro, 2009 / 17:21

    Dulce
    É verdade que por cá, também se usa a expressão 'castelos na areia', exactamente por motivos óbvios: geralmente, os castelos, feitos pelas crianças (ou pelos adultos para as crianças) junto à orla do mar, depressa são desfeitos por uma onda mais longa ou pela maré que retorna.
    Quanto aos outros, aqueles que se constroem ao longo da vida, esses, vão sendo os marcos que amarram as memórias. Nunca desista de os fazer…
    abraços!

    mfc
    Oxalá seja sempre assim, meu caro !…
    abraço

    Bartolomeu
    Afinal, a 'arquitectura' que a Vida vai fazendo em cada um, deixando que daí se possa ir caminhando à conta e ao fito do que entendemos porfiar. E isso mesmo.
    abraço!

    Violeta
    Mas não, não! Há-os feitos de muita coisa. E há, também, de muitos tamanhos…
    abraços!

    elvira carvalho
    Há, de facto, várias formas; mas, naturalmente, ficam-nos mais próximas aquelas que eram mais vulgares no tempo e na região de cada um.
    Abraços!

    Baila sem peso
    Uma Lua cheia de versos!
    Agradecido.
    abraços!

    Justine
    Há sempre um espaço onde caiba um castelo. É verdade: mesmo no vento!
    Quanto aos gatos… tens toda a razão!
    abraços!

    Rosa dos Ventos
    É preciso. É tanto como respirar.
    Quanto ao resto… elas podem fantasiar mais com pássaros, mas também uma boa soneca ao sol no rebordo das telhas, também não lhes escapa…
    abraços!

    MagyMay
    É preciso que haja sempre um castelo. Um ou mais…
    abraços!

    a todos os que por aqui passaram…
    agradeço o terem vindo.

  4. MagyMay 12 Outubro, 2009 / 10:14

    Gosto de castelos.
    Vou-os construindo na areia, nas nuvens, no vento…vai-se um… reaparece outro.
    Tenho sempre um castelo!!!

  5. Rosa dos Ventos 9 Outubro, 2009 / 16:17

    Quem daqui sai, sai sempre enriquecido!
    Castelos em Espanha, ao vento ou na areia, tanto faz!
    Sonhar é preciso!
    Desconfio que as minhas gatas fantasiam com qualquer sítio onde haja pássaros! :-))
    Abraço

  6. Justine 9 Outubro, 2009 / 14:53

    Ah, e aos gatos, parece-me, qualquer sítio serve para fantasiar…:))

  7. Justine 9 Outubro, 2009 / 14:51

    Ai de nós se perdemos a capacidade de manter essa parte de criança no adulto que somos. É preciso, é urgente, continuar a construir castelos, seja em Espanha, seja no vento, seja em Pasárgada…
    Obrigada por mais um excelente texto didáctico

  8. Baila sem peso 8 Outubro, 2009 / 22:42

    E a Lua Cheia que estava tão linda!!!
    Na semana que já quase vai finda…
    E castelos no ar lhe ergui, por aí
    Mas todos derrubados pela maré que não vi…
    Frases que nos cantam aos ouvidos
    As memórias que vivem nos sentidos…
    A criança que escondida entre muralhas
    Como que num encanto aqui, tu a talhas
    Castelos erguidos, gatos gulosos, doces lambidos
    Dentro de bolos das avós, os dedos escondidos…
    E os olhos com um brilhozinho…na memória
    Que retribuo com carinho, em dedicatória!

    Vai um beijo embrulhadinho no tempo
    que protege o castelo no vento,
    que ninguém conseguiu roubar…
    E vai a imaginação inteirinha, a dançar!

    E vai também com o vento do tempo:
    "…
    Valera o mesmo na areia
    Rija ameia,
    Rija ameia construir;
    Chega o mar e vai a ameia
    Com a areia,
    Com a areia confundir.
    …"

    E a ternura a sorrir!!!

  9. elvira carvalho 8 Outubro, 2009 / 22:17

    É castelo na areia eu costumo dizer.
    Gostei do post que como de costume me ensinou algumas expressões, ou melhor o significado delas.
    Um abraço

  10. Violeta 8 Outubro, 2009 / 20:26

    e eu a pensar que só havia castelos de areia…
    bjs

  11. Bartolomeu 8 Outubro, 2009 / 16:26

    Tal como a Dulce, sou tambemum construtor de castelos no ar, na areia, na lua… onde calha.
    E… não me tenho dado mal. Alguns castelos conseguiram saltar do imaginário para o real e não foi somente por obra e graça que esse salto sucedeu, foi tambem porque o "arquitecto" foi ajustando o projecto inicial, retocando aqui e ali e compreendendo no decurso da contrução que, para se manter firme, o castelo teria de ter alicerces firmes e esquadrias mais rígidas que as aleatórias, sonhadas.
    Grande post, caro Tinta!

  12. mfc 8 Outubro, 2009 / 14:25

    Chego sempre aqui com uma enorme curiosidade e saio sempre a sorrir.
    Obrigado.

  13. Dulce 8 Outubro, 2009 / 11:26

    Como sempre, um texto interessantíssimo que vem trazer conhecimentos a quem o lê.
    Aqui no Brasil costumamos dizer também "construir castelos na areia" – como a foto que ilustra este seu post – castelos lindos que se desfazem na maré alta, levando sonhos e fantasias…
    Ah, quantos desses castelos construí ao longo de meu caminhar! Todos derrubados pelas ondas… Mas eu, teimosa, vou lá e reconstruo. E fico a habitá-los até que nova onda venha e os leve…
    Tenha um bom dia.

(actualmente os comentários estão encerrados)