Santo António – II

De Santo António, milagreiro, ascético e ardendo em Fé, sonhando com novos trabalhos e ansiando por novas provações ao serviço de Deus – escreve o agiologio cristão e assim corroboram os múltiplos estudos históricos que, entre nós e na Itália, têm sido publicados.De Santo António (ou Sant’Antoninho, também, assim carinhosamente tratado) jucundo, quebra-bilhas, facecioso, santo casamenteiro e coradinho – está cheio o nosso folclore, que na tradição popular assim o recolheu, com mais amorável, doce e ingénuo enlevo do que respeito pela verdade histórica da figura moral (e até física) de Frei António
Ora, muito menos conhecidas são, por certo, as suas tradições militares e as ligações do seu nome com alguns factos históricos e militares, em Portugal. Essa é a proposta que lhes trago nesta efeméride do primeiro dos três santinhos populares…
Comecemos, então, por Lagos. Durante a Guerra da Restauração (1640-1668), de tal modo era a fé que os soldados algarvios atribuíam a Santo António no êxito das acções militares em que as tropas se empenharam, que D. Pedro II, por alvará régio de 24 de Janeiro de 1668, determinou que ‘por tão patriótico serviço’ o Santo fosse alistado como praça (soldado raso) naquele Regimento de Infantaria, de Lagos. Mas, como segundo as leis desse tempo, todo o indivíduo que se alistasse deveria apresentar um fiador, deram como fiador idóneo do novo recruta a Virgem Maria!…
E, Santo António, assentou praça nesse Regimento a 24 de Janeiro de 1668, conforme nos diz o certificado do almoxarife do mesmo regimento, D. Hércules António Carlos Maria de Albuquerque e Araújo Magalhães. Alguns anos mais tarde era promovido a capitão, em 12 de Setembro de 1683, com o soldo de 10.000 réis, que lhe foi abonado até 1779, ano em que passou a vencer 15.000 réis, como consta no livro de vencimentos e de vários mapas do Regimento, existentes no Arquivo Histórico Militar, continuando a servir na mesma Unidade, não apenas em espírito, mas também em imagem. Porque sempre a sua imagem acompanhou o Regimento de Lagos, nomeadamente numa marcha de Juromenha para Olivença, debaixo da ameaça duma surpresa das tropas em Badajoz que, felizmente, se frustrou. Por causa desta acção militar, do certificado passado pelo almoxarife, copio parcialmente:
‘(…) que é verdade ter-se conservado no dito regimento na qualidade de soldado raso até 12 de Setembro de 1683, data em que o mesmo príncipe foi elevado a rei pelo falecimento de seu irmão D. Afonso VI e que nesse mesmo dia S.M. promoveu Santo António ao posto de capitão por ter pouco antes, à testa dum destacamento do mesmo corpo, que marchava de Juromenha para Olivença, desbaratado uma força quatro vezes maior de castelhanos que, advertidos pelos espiões, o esperavam em emboscada com o fim de vencer e o conduzir prisioneiro para Badajoz (…)’.
Curioso ainda, que do mesmo certificado consta que o Santo tinha a ‘caderneta limpa de castigos e nunca ter sido preso ou sofrido punição alguma, jamais tendo sido açoitado e em tudo se tendo comportado sempre como fidalgo e oficial’.
Como capitão ia sendo abonado o Santo dos soldos que competiam à sua patente, soldos que eram pontualmente entregues à Irmandade de Santo António, existente em Lagos, e cujos primeiros estatutos foram aprovados em 1702 e reformados em 1706, como consta em avisos régios de Dezembro de 1733 e Agosto de 1780.
Esses soldos foram sempre pagos até…
Até que o Marquês de Pombal, num dos seus esdrúxulos rasgos administrativos, determinou que os soldos deixassem de ser pagos e que o bom Santo-capitão ‘servisse’ gratuitamente…
Afoiteza, aliás, bem depressa revogada, já que D. Maria I ordenou que ao Santo fossem pagos os soldos que lhe eram devidos. Em Agosto de 1814, o Principe Regente D. João promove-o a tenente-coronel e condecora-o com a Medalha de Ouro nº 5 da Guerra Peninsular, como foi averbado nos registos militares.
Isto no que se refere, apenas, ao Regimento de Infantaria de Lagos, como se pode verificar no Museu Regional da cidade.
Mas a sua carreira militar é vasta, prolífera e muito abrangente. Não cabe aqui referenciá-la por completo. Mas, acrescente-se, Santo António também serviu no Regimento de Infantaria de Peniche (1806) com a patente de alferes e o soldo de seis mil réis mensais. Ainda, também, no Regimento de Infantaria de Cascais (mais tarde Infantaria 19) onde, não tendo graduação militar, era considerado capitão honorífico. Depois da independência do Brasil, por lá também serviu na Baía e no Rio de Janeiro, onde chegou a ser capitão.
Em 1899, o marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente da República Brasileira, promove-o a general passando-o à reserva, o bom Santo António. Que, feitas as contas, servira nas fileiras militares da história pátria quase três séculos!
Por cá não consta que se tenha reformado e também não consta que lhe paguem o soldo. O que não é muito de admirar. A crise também chegou às Forças Armadas…
Mas, afora isso, o rapioqueiro Santo, diverte-se nas suas festas e vai distribuindo milagres entre um vaso de manjerico e um arquinho com balão!
(ver Santo António – I)

 

RMS Titanic

O RMS Titanic (RMS é a abreviatura de Royal Mail Ship ou steamer) iniciou a sua primeira (e fatídica…) viagem no dia 10 de Abril em 1912. De Southampton, passaria por dois portos, um em França e outro na Irlanda, seguindo rumo a Nova Iorque.
Poucos minutos faltavam para a meia-noite do dia 14 quando colidiu com um iceberg; afundou-se por completo duas horas e quarenta minutos depois.

Muito já se escreveu sobre esta enorme tragédia, que viria a evidenciar a incúria, o facilitismo e o modismo da época, como factores determinantes para esse trágico e evitável desastre.
(estes factores, tidos com o ponto comum da soberba, teriam dado origem ao mito de alguém ter assegurado que o Titanic era inafundável; o que nunca teria sido afirmado pelos responsáveis do seu desenho e construção. Mas que, obviamente, enquadram a catástrofe no contexto dos castigos da Providência sobre a vanglória humana) 
Dentro da história, aqui e ali, ainda se conseguem repescar alguns factos pouco referidos…
Logo aos primeiros instantes, na partida, ao passar perto do navio SS New York, que estava atracado, as hélices gigantescas do Titanic provocaram tal força de sucção que as amarras que prendiam o New York soltaram-se e os dois navios rapidamente ficaram a menos de dois metros de distância. A colisão foi evitada in extremis pelo comandante Edward Smith ao ordenar uma imediata marcha à ré de modo a criar um efeito contrário que empurrasse o New York para longe.
As quatros imponentes chaminés são, provavelmente, o emblema mais visível na imponência do Titanic. Porém a última chaminé, a mais perto da ré, era meramente decorativa.
O filme da James Cameron aproxima-se bastante da realidade quando nos mostra os músicos da orquestra a tocarem ininterruptamente durante as mais de duas horas em que decorre a agonia do navio. Relatos dos sobreviventes confirmam que assim aconteceu.
Curioso também será de referir que o filme teve um custo de produção largamente superior ao custo da construção do transatlântico.
Por falar em custos, é crível que o Titanic tenha levado com ele até ao seu leito de morte, a mais de quatro mil metros de profundidade, um valor bem mais considerável. Difícil de quantificar, já que a maioria dos passageiros iam começar uma nova vida nos Estados Unidos e, provavelmente, guardariam consigo muito dinheiro, impossível de determinar. Além disso, transportava um carregamento de diamantes de dois comerciantes suíços que, segundo os registos de Southampton valeriam actualmente cerca de quinhentos milhões de dólares. Outras coisas, mais ou menos curiosas – e valiosas – também mergulharam com o Titanic: um dos manuscritos de um filósofo persa, Omar Caiam, do século XI, estava na posse de Edward Fitzerald que o traduziu em 1880. Vários quadros, como o La Circassienne au Bain, pintado em 1814 por Merry-Joseph Blondel, tal como uma múmia de uma profetisa egípcia que viveu no reinado do faraó Aquenáton, também estavam a bordo do Titanic.
Louças, peles, vinhos, espumantes e até mesmo dois barris de mercúrio também naufragaram.
(…) Metia pena ouvir os gritos por ajuda. Estava a nadar às voltas à procura de qualquer coisa a que me agarrar, tinha as minhas botas calçadas com os atacadores desatados, e algo as estava a puxar. De repente saíram com um puxão. Era um pobre desgraçado, que me pareceu ser português; encontrou qualquer coisa a que se agarrar e como resultado as minhas botas soltaram-se. (…), teria escrito um forneiro sobrevivente do naufrágio. Provavelmente será está a única referência à vivência dessas horas trágicas dos quatro portugueses que estavam a bordo, naquela fatídica viagem.
Sabem-se os nomes, Manuel Estanislau, José Jardim e Domingos Fernandes Coelho, três madeirenses da Calheta. Um outro, José Joaquim Brito, veio a saber-se ser algarvio. Todos iam a caminho da (sua) terra prometida.
A última sobrevivente do Titanic, Millvina Dean, morreu em 31 de Maio de 2009. Tinha apenas nove semanas de idade quando o Titanic se afundou.
Contam-se hoje 110 anos.

(na fotografia inicial, pormenor do Memorial ao Titanic em Belfast, Irlanda)