discutir o sexo dos anjos

O ponto original da expressão será, com certeza, a conquista de Constantinopla pelo exército Otomano, em 1453. Constantino XI, da dinastia paleóloga, foi o derrotado e o último bastião do Império Romano, quase mil anos depois da queda do Império no Ocidente, desabou com estrondo.
Dizem as crónicas que, durante o cerco à cidade pelas tropas maometanas, as autoridades locais mantiveram-se reunidas em concilio, alheadas do fragor das hostilidades e da tragédia iminente, alimentando acaloradas discussões teológicas, entre as quais a pendência de doutrina que explicasse se os anjos tinham sexo, ou não.
O imperador foi morto e, por sua vez, o Império ruiu definitivamente.

Constantinopla, a actual cidade de Istambul, também era conhecida por Bizâncio (derivação do rei grego Bizas, que fundou a cidade, Mégara, no séc. I a.C), foi a denominação romana adoptada para referir o sistema político e cultural seguido pelo Império, naquela região. O termo bizantismo (ou bizantinismo) acabaria por se tornar numa expressão negativa, associado não só à narrativa da queda do Império como, mais tarde, sugerir teias de intrigas, crimes e traições que, de alguma forma, ilustravam os últimos anos de Roma no Oriente.
Daí que a expressão discutir o sexo dos anjos (criar discussões estéreis deixando de parte o que é importante, perdendo-se em argumentos e complexidade não só inúteis, como também mistificadores, artificiosos, frívolos e pedantes), seja também sinónima de uma outra, evidente, que é discutir ou argumentar de modo bizantino.
A propósito, um outro lado do Bizantismo: a arte. Caracterizada por um acentuado pendor em ornamentações e simbolismos, tem os seus exemplos mais famosos nas Catedrais de São Marcos, em Veneza e na de Santa Sofia, em Istambul.

 

 

 

(os anjos que digam ámen)

Santo António – II

De Santo António, milagreiro, ascético e ardendo em Fé, sonhando com novos trabalhos e ansiando por novas provações ao serviço de Deus – escreve o agiologio cristão e assim corroboram os múltiplos estudos históricos que, entre nós e na Itália, têm sido publicados.De Santo António (ou Sant’Antoninho, também, assim carinhosamente tratado) jucundo, quebra-bilhas, facecioso, santo casamenteiro e coradinho – está cheio o nosso folclore, que na tradição popular assim o recolheu, com mais amorável, doce e ingénuo enlevo do que respeito pela verdade histórica da figura moral (e até física) de Frei António
Ora, muito menos conhecidas são, por certo, as suas tradições militares e as ligações do seu nome com alguns factos históricos e militares, em Portugal. Essa é a proposta que lhes trago nesta efeméride do primeiro dos três santinhos populares…
Comecemos, então, por Lagos. Durante a Guerra da Restauração (1640-1668), de tal modo era a fé que os soldados algarvios atribuíam a Santo António no êxito das acções militares em que as tropas se empenharam, que D. Pedro II, por alvará régio de 24 de Janeiro de 1668, determinou que ‘por tão patriótico serviço’ o Santo fosse alistado como praça (soldado raso) naquele Regimento de Infantaria, de Lagos. Mas, como segundo as leis desse tempo, todo o indivíduo que se alistasse deveria apresentar um fiador, deram como fiador idóneo do novo recruta a Virgem Maria!…
E, Santo António, assentou praça nesse Regimento a 24 de Janeiro de 1668, conforme nos diz o certificado do almoxarife do mesmo regimento, D. Hércules António Carlos Maria de Albuquerque e Araújo Magalhães. Alguns anos mais tarde era promovido a capitão, em 12 de Setembro de 1683, com o soldo de 10.000 réis, que lhe foi abonado até 1779, ano em que passou a vencer 15.000 réis, como consta no livro de vencimentos e de vários mapas do Regimento, existentes no Arquivo Histórico Militar, continuando a servir na mesma Unidade, não apenas em espírito, mas também em imagem. Porque sempre a sua imagem acompanhou o Regimento de Lagos, nomeadamente numa marcha de Juromenha para Olivença, debaixo da ameaça duma surpresa das tropas em Badajoz que, felizmente, se frustrou. Por causa desta acção militar, do certificado passado pelo almoxarife, copio parcialmente:
‘(…) que é verdade ter-se conservado no dito regimento na qualidade de soldado raso até 12 de Setembro de 1683, data em que o mesmo príncipe foi elevado a rei pelo falecimento de seu irmão D. Afonso VI e que nesse mesmo dia S.M. promoveu Santo António ao posto de capitão por ter pouco antes, à testa dum destacamento do mesmo corpo, que marchava de Juromenha para Olivença, desbaratado uma força quatro vezes maior de castelhanos que, advertidos pelos espiões, o esperavam em emboscada com o fim de vencer e o conduzir prisioneiro para Badajoz (…)’.
Curioso ainda, que do mesmo certificado consta que o Santo tinha a ‘caderneta limpa de castigos e nunca ter sido preso ou sofrido punição alguma, jamais tendo sido açoitado e em tudo se tendo comportado sempre como fidalgo e oficial’.
Como capitão ia sendo abonado o Santo dos soldos que competiam à sua patente, soldos que eram pontualmente entregues à Irmandade de Santo António, existente em Lagos, e cujos primeiros estatutos foram aprovados em 1702 e reformados em 1706, como consta em avisos régios de Dezembro de 1733 e Agosto de 1780.
Esses soldos foram sempre pagos até…
Até que o Marquês de Pombal, num dos seus esdrúxulos rasgos administrativos, determinou que os soldos deixassem de ser pagos e que o bom Santo-capitão ‘servisse’ gratuitamente…
Afoiteza, aliás, bem depressa revogada, já que D. Maria I ordenou que ao Santo fossem pagos os soldos que lhe eram devidos. Em Agosto de 1814, o Principe Regente D. João promove-o a tenente-coronel e condecora-o com a Medalha de Ouro nº 5 da Guerra Peninsular, como foi averbado nos registos militares.
Isto no que se refere, apenas, ao Regimento de Infantaria de Lagos, como se pode verificar no Museu Regional da cidade.
Mas a sua carreira militar é vasta, prolífera e muito abrangente. Não cabe aqui referenciá-la por completo. Mas, acrescente-se, Santo António também serviu no Regimento de Infantaria de Peniche (1806) com a patente de alferes e o soldo de seis mil réis mensais. Ainda, também, no Regimento de Infantaria de Cascais (mais tarde Infantaria 19) onde, não tendo graduação militar, era considerado capitão honorífico. Depois da independência do Brasil, por lá também serviu na Baía e no Rio de Janeiro, onde chegou a ser capitão.
Em 1899, o marechal Deodoro da Fonseca, primeiro presidente da República Brasileira, promove-o a general passando-o à reserva, o bom Santo António. Que, feitas as contas, servira nas fileiras militares da história pátria quase três séculos!
Por cá não consta que se tenha reformado e também não consta que lhe paguem o soldo. O que não é muito de admirar. A crise também chegou às Forças Armadas…
Mas, afora isso, o rapioqueiro Santo, diverte-se nas suas festas e vai distribuindo milagres entre um vaso de manjerico e um arquinho com balão!
(ver Santo António – I)