uns são santos outros santos são, por quê?

Decifrado o trocadilho e posta a questão, a resposta seria (bem) diferente se ela não estivesse associada a uma pergunta: se São Tiago é o mesmo que Santiago, então qual a forma correcta de o escrever?…
Um abreviado preâmbulo, antes da resposta pretendida pelo amigo Nuno.
Esta pequena palavra, ‘santo’, gera uma profunda controvérsia de contornos incomuns entre as várias correntes filosóficas e teológicas da cristandade. Segundo o apóstolo Paulo, tudo que está a mais do que a Palavra de Deus deve ser considerado Anátema, ou seja, Maldição (Gálatas 1.8.11). Assim, os cristãos devem ter como regra de Fé apenas a Palavra de Deus e não o que ‘os homens criarem com os seus costumes e tradições ao longo dos séculos’ (Timóteo 3.16.17). Registe-se o facto, mas deixemos esta contenda, talvez a roçar um pouco a bizantinice do sexo dos anjos, até para evitar bater de frente na fé (ou falta dela) de cada um.
A palavra ‘santo’ (ou santificados) seja na sua origem grega (hagios) ou na depurada derivação, agora hebraica, ‘Qadash’ ou ‘Kadosh’, significa sagrado, consagrado, separado. Mais comummente utilizada e acentuada no sentido de separado. Ou seja, trata-se de uma especificação, de uma característica que permite marcar, fazer prevalecer e enobrecer, a separação entre o Profano e o Sagrado à vista do Senhor. E isso é válido para uma pessoa, tal como para um determinado tempo, um local ou mesmo um objecto. Daí que, nessa linha, no que concerne ao humano, é intitulado santo o que é separado dos costumes mundanos, o que vive de acordo com a Palavra de Deus ou em comunhão com os ensinamentos e o exemplo de Jesus Cristo. Em geral é aquele que vive neste mundo, mas não faz parte dele, que entregou a sua vida a Deus e, por isso, pela fé, está isento de defeitos e pecados e assim, desse modo, será considerado santo. Curiosamente, neste tema, a maioria das referências bíblicas são feitas no plural ‘Senhor, de muito tenho ouvido a respeito desse homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém’ (Actos 9:13). ‘Passando Pedro por toda parte, desceu também aos santos que habitavam em Lida’ (Actos 9:32). ‘…encerrei muitos dos santos nas prisões…’ (Actos 26:10).
Quanto ao entendimento geral sobre estas figuras, continuamos sem… entendimento: Na teologia católica, os santos estão no Céu. Na Bíblia, os santos estão na terra. No ensinamento católico, uma pessoa não se torna santo a menos que seja ‘beatificada’ ou ‘canonizada’ pelo papa ou por um bispo proeminente. Na Bíblia, todo aquele que recebe Jesus Cristo pela fé é um santo. Na prática católica, os santos são reverenciados, recebem orações e, em alguns casos, são adorados. Na Bíblia, os santos são chamados a reverenciar, adorar e orar apenas a Deus. Confuso?
Vamos ao resto…
Meu caro Nuno: por uma regra de adaptação morfofonémica, o padrão é usarmos Santo (ou Santa) antes de nomes começados por vogal ou pela letra H, e São antes dos nomes que iniciem por todas as outras consoantes. Há, no entanto, alguns casos que fogem a esta norma, sendo o mais comum a simples aglutinação por vício de eufonia, tal como em Santonofre, Santana ou Santahelena. Mais singular será o caso de Tomás de Aquino que a maioria dos autores clássicos referem como Santo Tomás de Aquino, embora o padrão geral (São Tomás de Aquino) se venha a aplicar, mais acentuadamente, a partir do século XIX. Como caso desviante o Houaiss refere Santo Tirso (em vez de São Tirso). No feminino, não há problema, porque vamos usar sempre santa. 
Onde a porca torce o rabo (perdoe-se-me o oblíquo impropério…) é, sim, no caso de Santiago (nunca São Tiago, e já vamos ver o porquê…).
O nome Santiago tem origem numa errónea coalescência, Sant’Iago (pronunciado Santiago), sendo Iago uma derivação do latim Iacobus, ou Iacohus, que significa, literalmente, calcanhar. Iacohus teria nascido segurando o calcanhar do seu irmão gémeo Esaú (também há quem referencie que terá o sentido de suplantar, de se diferenciar, em alusão ao prato de lentilhas que Jacó toma em lugar de Esaú, quebrando o direito de primogenitura). De qualquer modo Iago surge por queda da terminação bus, do latim Iacobus, entendida erradamente como uma desinência do dativo/ablativo plural, quando na verdade, não o era. E assim passou ao galego, português, leonês e castelhano. (talvez interesse lembrar que, com muito mais acuidade, nos estamos a referir a Santiago Maior, um dos doze apóstolos, que viria até Compostela – festejado a 25 de Julho – e não a Santiago Menor (mais novo), também discípulo de Jesus).
O nome Santiago, lógica e sequencialmente, surge da aglutinação dos dois elementos, Santo e Iago que, por sua vez, ao separar os dois componentes iniciais dão origem à corruptela que viria a criar um novo nome: Tiago.
Santo Iago ou Santiago é uma coisa; Tiago é outra, diferente.
Dos iniciáticos Iacobus ou Iacobus surgiram Iago, Jacob, daí para James, Jaime, Diogo, Diego, Yago, Jaume, Jacques, Jim, Xaime, Séamas e Seamus, Giacobus, Giacobbe, Jacobus, Jakub, Yakov, Jaakko. Em latim, grego, português, castelhano, catalão, galelgo, francês, inglês, italiano, arménio, irlandês, polaco, romeno ou russo. E haverá mais.
(ver Tiago? Não!...)

 

 

 

(Em dia de Sant-Iago vai á vinha e acharas bom bago)
                                                        séc. XVII

 

Vaticano

Admite-se que, provavelmente, a palavra terá passado do etrusco para o latim, funda-se em vates, cujo significado era o de adivinho ou profeta (curiosamente, na sua evolução semântica veio a dar vate, como sinónimo de poeta…), e em vaticinium, predição, oráculo.
Os romanos não tinham, como se sabe, deuses antropomórficos próprios. Cultivavam os poderes sobrenaturais a que não faziam corresponder quaisquer formas humanas. O Vaticano era uma das colinas de Roma, situada entre os montes Mário e Janículo, na margem direita do Tibre. Nela existiam vários oráculos, os Vaticinia. O mais concorrido ficou conhecido como o oráculo do monte Vaticano, mais tarde designado Vaticanus deus, o deus Vaticano que proferia previsões e era o protector dos primeiros sons vocais, da revelação da fala, dos recém-nascidos (interessante dizer-se que Cristianismo é a Palavra revelada!…).
A região foi ocupada por vinhas e vilas de nobres. Agripina, a Antiga, mulher de Germâncio viveu lá. Aí também Calígula edificou um circo e Nero, por herança da sua tia Domícia (por ele mandada assassinar) construiu o que viria a ser conhecido como os jardins de Nero. E é aí que, em 64 d.C., ele ordena o morticínio dos cristãos que acusara de incendiarem Roma. E é aí que, também pela mesma altura (talvez lendariamente, diga-se) foi crucificado São Pedro, cujo corpo acabaria enterrado perto do circo.
Em finais do século V, São Símaco, levanta no local uma modesta habitação que servia de estância de descanso para os papas que, então, viviam em Latrão. Depois da saída dos pontífices de Avinhão (cerca do século XII), o Vaticano começa a transformar-se naquilo que é hoje…
E assim, não deixa de ser curioso que a origem de uma das mais carismáticas palavras do Catolicismo, tenha a sua origem na mitologia pagã…

 

 

 

(é muito pouco se com Deus havemos)