fino com o alho

Sabe qual é a rua mais pequena da cidade do Porto?
É a rua Afonso Martins Alho (terá, aproximadamente, trinta metros).
Pois, este senhor Afonso Martins Alho foi um acreditado mercador portuense, que juntamente com lisboeta Gomes Limpas, em 1352, foram a Londres negociar com Eduardo III os fundamentos da Aliança Luso-Britânica, o mais antigo pacto diplomático do mundo (se bem que já houvesse uma ligação entre os dois povos, desde 1147, quando os Cruzados cooperaram com D. Afonso Henriques nas tomadas de Santarém e Lisboa, a verdade é que seria esse acordo de 1352 que serviria de patamar ao Tratado de Windsor, que uniu a Casa de Lencastre com a Casa de Avis, com o casamento de Filipa de Lencastre – neta de Eduardo III – e D. João, Mestre de Avis).
Mas, voltando ao nosso Afonso Martins Alho, como mensageiro e negociador voltou mais vezes a Londres, onde se notabilizou pela forma prudente, sagaz, contumaz e habilidosa que usava nos brilhantes e benéficos ajustes das suas negociações. A sua mestria e sagacidade acabaria por lhe criar a fama de astuto, que associada a ele se popularizou a expressão de fulano ou beltrano serfino como o alho’ (embora seja vulgar, erradamente. dizer-se ser ‘fino como um alho’).

A propósito, porque esta última e errada forma nos remete para o alho (allium ampeloprasum), poder-se-á pôr a questão ‘alho, porquê… porro?’. Apenas se trata de variantes da mesma espécie (allium ampeloprasum porrum).
Logo de imediato, a simples e fácil relação que se estabelece com porra, causa alguns embaraçosos engulhos. Sem razão, mesmo assim. Será curioso referir que porra apenas ganhou sentido e significado pejorativo no século XVIII, a partir da poesia do nosso folgado Bocage.
Referida nos dicionários como uma interjeição grosseira, de cariz sexual, a verdade é que essa forma se limita, exclusivamente, ao calão popular.
Então… que porra é essa? Configura o formato da cabeça (a flor) do alho, em forma de bola, no topo de um caule longo e esguio. Esta forma dá-lhe muita semelhança com a maça, clava, porrete ou bastão, arma medieval que consistia em um cabo de madeira com uma cabeça, bem saliente, de pedra, cobre ou ferro, onde se colocavam tachões ou pontas de ferro para infligir maior dano.
Ao que parece a confusão nasce no latim: a semelhança da planta (porrum) com o adjectivo porrea, que qualifica uma maça ou clava.
Espero ter esclarecido… essa porra.

 

 

 

(quando se pisa o alho, o almofariz conserva o cheiro)

o sonho falhado

Afora os sessenta anos do domínio filipino, Portugal passou por várias contingências que ameaçaram a sua independência. Ao contrário, houve um único momento na história portuguesa em que diversos factores se propiciavam para a união dos dois reinos ibéricos, mas desta feita, com a soberania portuguesa. E, curiosamente, foi uma simples postura de verticalidade e honra de um escudeiro que fez desmoronar tal hipótese.
A história desse episódio, pouco conhecido, é assim, contada por Vasco Geraldes, na sua crónica sobre o Príncipe Perfeito, em 1680:
‘Por morte de seu filho, o príncipe D. Afonso 1, – que morreu em consequência de uma queda do cavalo – D. João II procurou fazer suceder-lhe no trono, D. Jorge 2, seu filho natural; e para lhe preparar os apoios que lhe garantissem a sucessão, pensou casa-lo em Castela, pedindo a mão de uma filha dos Reis Católicos, Isabel e Fernando.
Para isso enviou a Castela, Lourenço da Cunha, seu fiel escudeiro, munido de instruções particulares, e em quem o monarca depositava a maior confiança. Ambos sabiam que a empresa não era fácil, pois Isabel, que era uma mulher muito inteligente, tinha uma grande habilidade política e orgulho régio inteiramente à altura do nível em que se firmava o seu trono. Todavia, as perspectivas que o rei português preparava para o seu filho, e o esplendor da coroa que lhe destinava, eram fundamento bastante para ele admitir realizável aquilo que, em segredo, incumbia ao seu embaixador.
Quando Lourenço da Cunha chegou a Castela, encontrou o rei doente e não pode acercar-se dele; mas como Isabel expedia todos os negócios do reino, obtida a audiência particular da rainha, entregou a esta a carta manuscrita e selada do soberano, na qual se propunha que, deixando este reino ao senhor D. Jorge, seu filho, mandava pedir a sua alteza a rainha D. Isabel, para mulher dele a infanta D. Catarina, sua filha mais moça.
A rainha leu, e sem buscar mais aviso, respondeu que ‘a infanta D. Catarina, não; mas que el-rei D. Fernando tinha filha bastarda, e que esta sim, lha daria’.
Havemos de convir que a rainha respondeu galhardamente, como quem era, e que o embaixador português devia ter tido um momento mau, daqueles em que, segundo o nosso pitoresco dizer, se fica ‘engolindo em seco’. Mas Lourenço da Cunha, depressa cobrou a serenidade, que nunca lhe faltou em outras grandes ocasiões e, com prontidão igual à da rainha, respondeu-lhe ‘Senhora, el-rei D. João, meu senhor não pretende assim aparentar-se com el-rei vosso esposo, como tanto com vossa alteza, e assim… se vossa alteza tem sua outra filha bastarda, ele a aceitará para seu filho’.
Do que a rainha de Castela disse ou fez, não há crónicas que rezem. Lourenço da Cunha voltou para Lisboa, com o negócio desfeito neste pé. E apesar de se lhe terem frustrado, por tal maneira, as negociações de que o rei o encarregara, este fez mercê de lhe dar as comendas de Beja, Serpa e Moura… pela resposta.

1 – O príncipe Afonso de Portugal, prometido desde o berço a Isabel de Aragão, morreria na sequência de uma (muito) estranha queda de um cavalo, em 1491.
2 – D. Jorge de Lencastre, filho bastardo de D. João II e de Ana Mendonça, foi educado por Joana de Portugal, conhecida por Santa Joana Princesa (embora a Igreja Católica apenas a reconheça como Beata), irmã do rei D. João II, nunca chegou a ser legitimado, porventura na sequência da embrulhada com o Tratado de Tordesilhas, depois de recusar a viagem a Cristóvão Colombo.