está escrito

O assunto voltou à baila, agora por causa de uma reportagem da TVI.
Não vou tecer comentários sobre isso, apenas referenciar, a propósito, que o Malleus Maleficarum (martelo das bruxas), a célebre cartilha de um inquisidor alemão frustrado pela sua demanda às bruxas, se torna parvamente actual. Aqui, mais uma vez, se volta a agitar o panfletário bíblico: ‘está escrito na Bílblia!’.
Umas quantas evidências para que se possa condimentar melhor o caldo…
A ignorância bíblica está bem patente em vários estudos feitos pela própria Igreja. Em Portugal (com uma taxa de catolicismo assumido na ordem dos 92%), cerca de 86% estão convictos de que o Antigo Testamento foi escrito vários anos após a morte de Cristo e 87% ‘têm a certeza’ de que a Bíblia condena inequivocamente a homossexualidade. Um dos ‘argumentos’ mais citados é a destruição de Sodoma e Gomorra.
No entanto, Sodoma e Gomorra (de onde deriva a palavra sodomia) foram arrasadas por Deus por, embora a região fosse muito fértil, ‘o povo era muito perverso’ (Génesis 13:12). E quando Abraão pede ao Senhor misericórdia, Deus responde-lhe que não destruiria Sodoma e Gomorra se o profeta ‘encontrasse apenas 10 homens justos’. Não há, aqui, qualquer referência à homossexualidade.
Não está escrito que Jesus Cristo alguma vez tivesse dito uma palavra sobre comportamentos sexuais.
Os profetas sempre manifestaram uma postura silenciosa em relação à homossexualidade.
Não haverá sequer uma dezena (entre mais de um milhão) de versículos bíblicos a referirem-se ao comportamento sexual entre o mesmo sexo. Há este, por exemplo:
Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão e o seu sangue será derramado sobre eles’ (Levítico 20:13).
Mas também há outros versículos semelhantes, no que respeita a desígnios comportamentais. Por exemplo:
Também o porco, porque tem unhas fendidas, a fenda das unhas se divide em duas, mas não rumina, este vos será imundo. Das suas carnes não comereis, nem tocareis nos seus cadáveres; estes vos são imundos’ (Levítico 11:7). E como é, ontem não comeu uma costela de porco?…
Não vos virareis para os adivinhadores e encantadores; não os busqueis, contaminando-vos com eles. Eu sou o Senhor vosso Deus’. (Levítico 19:31) Não tem nada a ver com isto, pois não? É que nem os conhece!…
Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher do seu irmão, derramava o sémen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou (Génesis 38:9). Do irmão, primo, cunhado, sócio, vizinho, amigo…
Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós. Eu sou o Senhor (Levítico 19:28). A tatuagem não se vê, é?…
Mas todo o que não tem barbatanas, nem escamas, nos mares ou nos rios, todo o réptil das águas, e todo o ser vivente que há nas águas, estes serão para vós uma abominação (Levítico 11:10). Gambas, lagosta?! Ah!, nunca comeu…
‘Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos… (Timóteo 2:9). Só chinelo…
‘Estatuto perpétuo é pelas vossas gerações, em todas as vossas habitações, nenhuma gordura nem sangue algum comereis (Levítico 2:17). Picanha? Papas de sarrabulho?…
Porém se isto for verdadeiro, isto é, que a virgindade não se achou na moça, então levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da cidade a apedrejarão, até que morra, pois fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai; assim tirarás o mal do meio de ti (Deuteronómio 22:20).
Há (muitos) mais, mas só com estes, alguém quer atirar a pedra?
Oportunidades para o fundamentalismo não faltam. É só escolher.
Homem/mulher gostar, entender e querer viver com outro homem/mulher é mais imoral do que comer lagosta? Ou levar a amiga a ver estrelas?
É ridículo não poder saborear picanha, ou um naco de porco preto? Ou não poder tatuar uma borboleta na nádega? É. E ainda bem que assim se considera.
Tal como se considerou, nos finais do século XIX, abolir a escravatura. Se assim não fosse:
‘E quanto a teu escravo ou a tua escrava que tiveres, serão das nações que estão ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas. Também os comprareis dos filhos dos forasteiros que peregrinam entre vós, deles e das suas famílias que estiverem convosco, que tiverem gerado na vossa terra; e vos serão por possessão. E possuí-los-eis por herança para vossos filhos depois de vós, para herdarem a possessão; perpétuamente os fareis servir; mas sobre vossos irmãos, os filhos de Israel, não vos assenhoreareis com rigor, uns sobre os outros.  (Levítico 25:44).

 

 

 

(ite, missa est)

outra fava dos três magos

A amiga Olinda, a propósito do texto anterior ‘a fava do bolo-rei’, perguntou-me ‘será a galette du roi o mesmo que bolo-rei?’. A mesma coisa não será, mas é, sim, um parente. E não muito afastado…
A Galette des Rois é uma sobremesa tradicional muito vulgarizada em França (também no Quebeque, na Suíça e na Bélgica) que, basicamente, comemora a visita dos Reis Magos ao Menino Jesus. Daí o nome, bolo (ou tarte) dos reis.
De alguma forma, tal como o Natal conserva usos e tradições que remontam à época romana e, posteriormente, à doçaria francesa (já lá vamos), também o Dia de Reis conserva alguns desses costumes pagãos.
Assim, a Epifania (palavra de origem grega que significa aparição; no caso dos Magos, refere-se à estrela que os guiou até ao presépio de Belém), que corresponde ao período de tempo que decorre entre a Natividade e o encontro dos Magos com o Menino – 6 de Janeiro -, vai apropriar-se dos festejos da romana Saturnália, por ocasião do solstício de Inverno, em que à hora do meio dia, os senhores e os escravos revertiam o seu papel e poder: o servo que ganhasse a fava da lotaria, seria mestre até o sol se pôr. Depois tudo voltava ao seu curso habitual, onde o servo tanto poderia retomar a sua vida costumeira como ser colocado perante e morte.
Já nos finais do século XIX, com a recuperação da tradição doce, em França, a fava (ou moeda de prata ou ouro) romana dá lugar à fava em porcelana ou, então, uma nova variante, ser substituída por diminutas imagens de santos (designados por santons).
Desde aí (depois dos tempos conturbados da Revolução), especialmente os franceses, celebram o Dia de Reis – o último dia da Epifania, 12º após a Natividade – com o tradicional bolo conhecido por Galette des Rois. O bolo é dividido por inteiro de forma a que cada comensal receba uma fatia e, mesmo assim, que obrigatoriamente haja uma fatia de sobra, simbólica, para qualquer visitante inesperado ou então qualquer pobre que, na altura, possa deambular nas redondezas (tal e qual como na representação do costume romano). Curioso que um pequeno pormenor se lhe acrescentou: as fatias do bolo são atribuídas geralmente por uma criança que, previamente colocada debaixo da mesa, as distribui sem, desse modo, poder haver outra possibilidade de acerto na fava ou no santon, que não o mero atributo da sorte.
A quem calhar a sorte da fava ou do santon caberá a incumbência de garantir o bolo no ano seguinte. Honra-o ser rei (ou rainha) por um ano e o direito de receber uma coroa feita com papel dourado, que usará durante todo o dia da festa.
Mesmo que sem este atributo do bolo, o Dia de Reis é, em algumas regiões da França e outros países com reminiscências francófonas, tão ou mais importante que os festejos do Natal. Assim como em Espanha, mesmo que aqui o Bolo-Rei pouco ou nada tenha a ver com as favas ou os santinhos de porcelana…
Não ficaria completo o artigo se não registasse a receita da Galette des Rois. Cá vai:
Dois pedaços de massas folhadas
Dois ovos para o recheio e outro para dourar a massa
150 gramas de amêndoas em pó
80 gramas de manteiga meio derretida
125 gramas de açúcar
1 fava ou uma prenda (o santon)
Comece por colocar a primeira massa folhada numa forma. Com um palito grande, faça pequenos furos na massa, para evitar que ela atufe no forno – por vezes forma-se uma bolha de ar que estraga o aspecto da tarte.
Noutro recipiente, prepare o recheio – que, em França se designa por frangipane: misture as amêndoas em pó, a manteiga derretida, o açúcar e os dois ovos.
Com uma espátula espalhe o recheio sobre a massa que já deve estar na forma.
Coloque onde desejar, escondida, a fava ou a prenda, dentro do recheio e tape com a outra massa folhada. É importante que as bandas de cada uma das massas fique bem solidificadas uma contra a outra.
Faça desenhos na massa, com um garfo ou qualquer outro utensílio, o que poderá ser mais ou menos elaborado conforme a sua habilidade ou saber.
Num copo à parte misture a gema do outro ovo com um pouco de água. Com um pincel, vá passando-a sobre a massa de modo a que o seu bolo dos reis tenha um tom dourado quando sair do forno.
Deixe no forno cerca de 30 a 40 minutos a 180 °C. Este valores são muito dependentes das características do seu forno. Saberá como controlar este aspecto.
Depois… bom appétit. E, já agora. Bonne année a tous!

 

 

 

(nunca tam doce que as moscas acentem)