pôr os pés à parede

Pôr (ou deitar) os pés à parede é um dito bem conhecido. Menos conhecida será, porventura, a sua origem. Origem que, valha a verdade, não está convincentemente comprovada. No entanto…
Pôr os pés à parede é, basicamente, um jargão que pretende significar obstinação, teimosice, birra ou casmurrice. Mesmo que, pelo tempo e pelo uso, se tenha estendido a uma outra interpretação que o leva a colar-se a resistência, oposição, tenaz determinação, até rebelião.
Não sendo, de todo, justificativa da sua origem, cita-se a este propósito uma referência nas páginas de Alexandre Herculano sobre a conquista de Lisboa aos mouros. Escreve ele a dado passo: ‘(…) dura foi a peleja que durou 117 dias entre o primeiro desembarque dos cruzados, inda mal fundeados no Tejo, a 26 de Junho de 1147. Tempo de hediondas pleiteadas frechas e bestas, catapultas, azeite e pedras. Só à sorte de torres arma-das que seguiram aos arpéus atirados e aferroados às ameias e com os pés postos às paredes em duro amarinhar fez quebrar a resistência e o ânimo sarraceno que acabaram de mãos abertas à capitulação (…).
Talvez caiba lembrar a fina e confusa linha que separa esta máxima de duas outras, que podem muito bem ser o resultado de levar, desta, extremos ou desvarios. Diz o povo, também, que há quem queira dobrar a sombra (cega teimosia) ou, outrossim, mais figurado, respirar pela palhinha.
De qualquer deles, deixo a referência ao vosso cuidado.

 

 

 

(ou vai ou racha ou arrebenta a tampa da caixa)

só me saem duques e cenas tristes

só me saem duques (…)’: é pessoa, situação ou coisa que não vale nada e, também, estado ou postura lamentável de alguém que, por tolice ou fanfarronice tenta parecer o que não é. O que poderá ajustar-se a outro tipo de ocorrências semelhantes.
A emanação está, com certeza, no jogo das cartas: o 2 duque(1) (de qualquer naipe) é uma carta sem outra valia que não seja a de completar o número de cartas a distribuir por cada jogador; do mais não tem qualquer valia que não seja, isso mesmo.
‘(…) e cenas tristes’. O caso do 6 sena será porventura o acréscimo necessário para que a frase fique composta, com ritmo e, sobretudo, com a sentença que é condição neste tipo de motejo: a homofonia (sena de paus, cena de paulada) permitiu dar sequência à asserção anterior aludindo a situações de prosápia ou caricata pedantice que, pelo conteúdo, se tornam aflitivas e indigestas.… cenas.


1 (em Portugal, as primeiras dez cartas de cada naipe são: 1 ás, 2 duque, 3 terno, 4 quadra, 5 quina, 6 sena, 7 manilha, 8, 9 e 10)

 

 

 

(cântaro vazio soa muito)