Alves dos Reis

Decorria o ano de 1924.
Adolf Hitler era condenado por alta traição, por causa do golpe de Novembro do ano anterior; dias depois seria libertado por ser ‘declaradamente inofensivo’. Em Janeiro tinha morrido Vladimir Lenine. Nasceram Bernardo Santareno, António Ramos Rosa, Sebastião da Gama e Henrique Santana. Iam nascer Alexandre O’Neill e Mário Soares já com a trapaça em marcha.
Em Londres, a antiga e respeitável Waterlow & Sons, Lda., da rua Great Winchester, tinha aí os seus austeros escritórios que se dedicavam ao vultoso e quase sempre delicado negócio de fabricação de papel-moeda para governos do mundo inteiro.
No dia 4 de Dezembro deste ano de 1924, Karel Marang van Ysselveere, conceituado negociante e banqueiro de Haia, apresentou credenciais como enviado especial do governo português. Foi imediatamente conduzido ao gabinete do Sir William Waterlow, a quem o holandês, de modos afáveis e figura distinta, explicou que o Banco de Portugal precisava sem demoras de duzentas mil notas de 500 escudos. Por motivos políticos, a emissão teria de ser feita em segredo, com rigorosa discrição, e fora por isso que a administração do banco português o incumbira das negociações, em vez de recorrer às vias diplomáticas habituais.
Sir William anuiu, compreensivamente habituado às especificidades pontuais de cada emissão, mas, sem dúvida, precisaria da autorização do governador do banco e do costumeiro contrato. O esmerado holandês respondeu que isso era muito natural e que os papéis seriam remetidos de Lisboa sem qualquer demora.
Deste modo começou uma das mais fantásticas e mirabolantes fraudes na história das finanças internacionais. Nas semanas seguintes, chegou à Waterlow & Sons uma série de documentos com a marca de rigorosamente confidencial. Uma carta com o selo e a assinatura do governador do Banco de Portugal, Camacho Rodrigues, autorizava a impressão das notas. Explicava a carta – para ser lida exclusivamente por Sir William – que Marang tinha poderes para receber o dinheiro e levá-lo para Lisboa. Ali seria entregue a um sindicato de banqueiros adstrito ao governo, para ser utilizado na recuperação das finanças da colónia angolana.
Como o dinheiro só seria gasto em Angola, poderia ser impresso com as mesmas chapas e os mesmos números de série usados pela Waterlow na última emissão de notas de 500 escudos que circulavam em Portugal, mas, para evitar confusão entre as duas emissões, o governador ultramarino mandaria imprimir a palavra Angola sobre as notas novas.
Se houve qualquer suspeita de irregularidade no espírito de Sir William Waterlow, ela se desvaneceu com a chegada de contratos assinados pelo Alto Comissário de Angola e por outras destacadas personalidades das finanças portuguesas. As máquinas da Waterlow produziram notas de 500 escudos no valor de cem milhões de escudos, que foram devidamente entregues em vários lotes a Marang. O negociante holandês levou as notas para Lisboa sem qualquer fiscalização aduaneira, graças às imunidades diplomáticas de que gozava, pois era portador de um passaporte diplomático liberiano.  Sir William não suspeitava que todas as cartas e todos os contratos, agora cuidadosamente guardados no seu cofre, eram falsificações e que as notas nunca levariam o carimbo prometido, nem circulariam em Angola; só iria descobri-lo um ano depois, quando já havia imprimido mais duzentos milhões de escudos.
No dia 5 de Dezembro do ano seguinte a Polícia de Investigação Criminal de Portugal   efectuou uma busca na filial do Porto do Banco de Angola e Metrópole (uma instituição de crédito, nova e extremamente próspera), em virtude de denúncias de que o estabelecimento realizava manobras ilegais com moedas estrangeiras. Mas quando o inspector encarregado das investigações e os seus peritos contabilistas chegaram à casa-forte do banco, encontraram coisa muito mais espantosa que libras e dólares ilegalmente adquiridos. Os cofres encontravam-se entupidos com milhares de notas de 500 escudos. Elas encontravam-se embrulhadas em pacotes com cintas do Banco de Portugal, mas não estavam arrumadas ordenadamente pelo número da série, como o pessoal do banco costumava fazer.
Foi imediatamente chamado o principal perito do Banco de Portugal, e este disse que as notas, sem quaisquer dúvidas, eram autênticas. O fiscal, no entanto, mandou o dinheiro apreendido para a filial do Banco de Portugal no Porto, com ordens para que se conferissem os seus números com os de todas as notas de 500 escudos em caixa. Ao anoitecer, haviam sido encontrados quatro pares de notas com números idênticos.
No dia 7 de Dezembro, todo o país estava em pânico. Quando o público levou aos balcões do Banco de Portugal milhares de notas de 500 escudos para serem resgatadas, começaram a aparecer, cada vez em maior número, notas idênticas. Logo que se percepcionaram os extensos contornos da fraude, a cotação internacional do escudo, na altura tido como uma moeda estavelmente sólida, caiu rapidamente. O governo de Lisboa manteve-se reunido em sessão extraordinária de forma quase permanente. Os factos apurados nas investigações mostravam-se cada vez mais incrivelmente espantosos. Não só alguém iludira a firma londrina de Waterlow, fazendo-a imprimir para si trezentos milhões de escudos, mas também fundara com esse dinheiro sem valor o Banco de   Angola e Metrópole, comprara quantidade avultada de acções nas maiores empresas industriais de Portugal, adquirira imóveis também em grande quantidade e articulara tão valioso activo num fantasmagórico império financeiro. Igualmente por intermédio do cerebrino Banco de Angola e Metrópole, esse alguém comprara considerável parte das acções de propriedade particular do próprio Banco de Portugal. Assim, se o criminoso houvesse podido prosseguir na sua fabulosa artimanha por mais um mês ou dois, conseguiria a maioria das acções do mais importante banco nacional e ficaria em condições de fazer desaparecer as provas contra ele existentes, livrando-se provavelmente de ser apanhado pelas malhas da justiça. O grande embuste ficaria impune para sempre.
O cidadão Artur Virgílio Alves Reis nasceu em 1896 em Lisboa, era filho de um funcionário aduaneiro de baixa categoria. Muito moço ainda ficou fascinado com a história de Cecil Rhodes, o grande desbravador da África do Sul, e sonhou um dia poder criar um império semelhante nas colónias portuguesas. A fantasia acompanhou Alves Reis até a idade adulta. Depois de se diplomar na Escola Politécnica de Lisboa, o jovem candidatou-se ao lugar de engenheiro afim de prestar serviço nas colónias. A concorrência era grande, mas Alves Reis transpôs esse obstáculo de maneira muito própria. Porque era um hábil desenhista, falsificou um diploma da Universidade de Londres, e assim conseguiu o emprego, uma vez que havia grande procura, como ele descobrira, de engenheiros que tivessem estudado na Grã-Bretanha.
Em 1916 chegou a Angola como inspector dos caminhos de ferro. Dois anos depois era director das ferrovias oficiais e, pouco depois, com apenas 25 anos de idade, passou a inspector de Obras Públicas – a mais alta autoridade técnica da colónia.
Angola é rica em borracha, algodão, minérios, ouro e diamantes. Alves Reis viajou pelo território e ficou entusiasmado. O aproveitamento das riquezas minerais, das ligações ferroviárias para o norte e para o sul e um adequado aproveitamento dos grandes rios poderiam fazer de Angola uma das mais prósperas regiões do continente africano. Demitiu-se do cargo, fundou a firma Alves Reis, Ltda., em Lisboa, obteve concessões com exclusividade para explorar a zona mineira de Angola e começou a procurar capital.
Mas era difícil conseguir dinheiro. Angola tinha má reputação financeira, e nem a extraordinária eloquência de Alves Reis pôde convencer os banqueiros da Grã-Bretanha e da Holanda a darem-lhe uma parte dos seis milhões de libras que ele almejava. Já estava desesperado quando a oportunidade surgiu de lado diferente.
Alves Reis tinha fama de ser grande habilidoso e inventivo na resolução dos mais difíceis problemas financeiros. A Real Companhia dos Caminhos de Ferro Transafricana, de Angola, estava em dificuldades e os seus accionistas estrangeiros pediram a Alves Reis que assumisse a direcção dos negócios até que os mesmos se normalizassem. Na casa-forte da companhia havia mais de dois milhões de escudos em ouro, destinados ao pagamento de dívidas. Reis fizera-se presidente da companhia e usou da sua autoridade para transferir os fundos para a firma Alves Reis, Ltda. Escassos meses depois, o homem que sonhou ser o fundador de um império estava na cadeia à espera de julgamento.
Em Julho de 1924 as finanças de muitos países europeus estavam periclitantes. Na prisão, Alves Reis leu vários artigos, em alguns jornais ou revistas, a respeito da decisão que o governo alemão tomara ao mandar imprimir numerosos biliões de marcos para sustentar o seu tesouro vazio; então, reflectiu que, se pudesse encontrar algum meio de mandar imprimir notas portuguesas para uso próprio, poderia ainda realizar seus projectos coloniais. Aparentemente uma boa solução.
Conseguiu dos amigos que lhe levassem todas as informações possíveis sobre as operações monetárias do Banco de Portugal, e chegou a duas óptimas – e adequadamente complementares, para ele… – conclusões: durante os anos mais recentes o banco havia emitido notas muito além do limite estabelecido por lei – situação que poderia tornar-se embaraçosa para o banco e para o governo; e que o banco não tinha meios de saber exactamente quantas notas de determinado valor estavam em circulação, em dado momento.
Outra coisa que também chamou a atenção de Alves Reis foi o facto de que, embora as oficinas do banco imprimissem a maior parte do dinheiro, algumas das notas de 500 e 1.000 escudos eram feitas pela Waterlow & Sons, de Londres. Portugal fora por muito tempo vítima de falsificadores, e as chapas, tintas e técnicas da Waterlow eram à prova de falsificação. No espírito de Alves Reis, a grande estocada começou a tomar forma.
Em Agosto, foi considerado culpado de haver lesado os accionistas da companhia dos caminhos de ferro, mas. três meses depois a sentença foi comutada em instância superior.
Alves Reis escolhera como cúmplices do seu plano três amigos especialmente elegidos: Karel Marang van Ysselveere, bem sucedido negociante e financeiro de Haia, devia ser o seu testa-de-ferro; José Bandeira, irmão do ministro de Portugal em Haia, seria seu assistente, e um alemão de nome Gustav Hennies, que tinha uma equívoca reputação em virtude de transacções monetárias irregulares na América do Sul, assumira o lugar de conselheiro pessoal de Alves Reis.
Marang e Bandeira, segundo resolveu Alves Reis, conheceriam apenas uma pequena parte do plano. ‘Quando um homem age de boa fé’, escreveu Alves Reis nas suas Confissões, publicadas mais tarde, ‘a pessoa com quem está tratando, especialmente se é um homem de bem como Sir William Waterlow, reagirá favoravelmente a essa boa fé’. Tanto Marang como Bandeira deviam acreditar (e durante muito tempo acreditaram!…) que, embora a transacção fosse irregular, Alves Reis agia com plena aprovação do governo de Angola para salvar a colónia da ruína.
José Bandeira convenceu seu irmão ministro a escrever uma carta que apresentava oficialmente Marang como emissário diplomático de Portugal – as credenciais que tanto haviam impressionado Sir William. Logo que Marang voltou a Lisboa, depois da sua visita a Waterlow, Alves Reis começou a trabalhar na falsificação de vários documentos importantes.
No primeiro, o Banco de Portugal autorizava o governo de Angola a emitir determinado número de notas; o segundo continha a autorização, por parte do governo de Angola, para se efectuar a emissão; no terceiro, Reis nomeava Marang como seu representante. Algum tempo depois, Reis falsificou uma carta do governador Camacho Rodrigues para Sir William Waterlow autorizando-o a imprimir as notas.
Sem nada suspeitar, Marang levou essas obras-primas da patranhice para Londres – e Sir William, tal   como Alves Reis tão certeiramente calculara, ‘reagiu favoravelmente a essa boa fé’….
Alves Reis tinha chegado à conclusão de que cem milhões de escudos em notas de 500 eram o máximo que, com segurança, se podia pôr em circulação naquela época. Entretanto, mesmo para operar com essa quantia sem despertar suspeitas, ele    precisava de um banco. Em Julho de 1925, o seu Banco de Angola e Metrópole abriu as portas em Lisboa e no Porto.
Alves Reis revelou-se um banqueiro competente e imaginoso. O seu banco prontamente adquiriu fama de facilitar certos empréstimos, principalmente os de pequena monta, com uma presteza e uma boa vontade muito diferentes do usual nos outros bancos portugueses. Alves Reis e Hennies haviam elaborado o plano de trocar as notas da Waterlow pelas garantias dos seus devedores. Dentro de poucos meses haviam investido com segurança 50 milhões de escudos da sua moeda ilegal, e os seus clientes se tornaram, em número cada vez maior, depositantes da benévola instituição. Em pouco tempo o banco prosperara.
Contudo, o aumento de circulação das notas de 500 escudos fora notado. Houve rumores de falsificação. O Banco de Portugal reagiu precisamente como Alves havia esperado: anunciou oficialmente que eram infundadas todas as notícias de inflação da moeda portuguesa em consequência de falsificação ou de outros meios.
Alves Reis calculou acertadamente que o banco não tinha a menor ideia da sua transacção e que o público aceitaria sem discutir a declaração do respeitável chefe do Banco de Portugal. Colocou imediatamente o restante das notas impressas pela Waterlow em investimentos sólidos e, por intermédio de Marang, encomendou a Londres mais duzentos milhões de escudos em notas.
Ao mesmo tempo, Alves Reis ia, sem alardes, comprando acções do Banco de Portugal. Daí a mais ou menos dois meses teria maioria de acções desse banco e seria provavelmente governador do mesmo. Aí, poderia então fazer desaparecer todas as provas da sua fraude.
Certo do triunfo, em Outubro de 1925 Alves Reis partiu para Angola. Com o mesmo alto comissário cuja assinatura havia falsificado discutiu vários projectos interessantes. O seu banco estava pronto a financiar a construção de uma ferrovia para levar o produto das ricas minas de cobre de Bembe até o porto de Luanda (curiosamente, um projecto semelhante, subsequentemente completado por outros, revelou-se de inestimável valor para os aliados na Segunda Guerra Mundial.Isso é outra história a qual iremos um dia…). Alves Reis propôs também encarregar-se do financiamento do transporte de mil famílias de colonos portugueses para as férteis terras dos planaltos de Angola. O alto comissário escutou fascinado, ao mesmo tempo que o seu ex-inspector de Obras Públicas traçava planos para aquela região.
Enquanto isso, vários outros acontecimentos em Lisboa sucediam-se rapidamente. O governador Camacho Rodrigues e os seus directores haviam tido notícia dos misteriosos esforços de compra das acções do Banco de Portugal. Procedeu-se a uma investigação, e vários indícios apontaram… Alves Reis. Houve então a busca na filial do banco no Porto e a descoberta das notas falsas pelo encarregado da investigação.
Vindo de Angola, Reis chegou a Lisboa no dia seguinte e foi preso. O falsário, contudo, ainda não estava vencido. Na prisão, conseguiu   fabricar impressionante quantidade de documentos que sugeriam que o governador Camacho Rodrigues e alguns dos directores do Banco de Portugal tinham sido os verdadeiros escroques e que ele, Alves Reis, fora apenas vítima de um cambalacho político. Os documentos eram tão convincentes que dividiram Portugal por longo tempo em dois campos e retardaram durante cinco anos o julgamento de Alves dos Reis. Finalmente, em Maio de 1930, ele foi julgado, condenado em virtude da sua confissão e sentenciado a 20 anos de prisão.
O assombroso e surpreendente sonho de um império concebido por Artur Alves Reis abateu e desvaneceu-se. Tendo cumprido sua sentença, desapareceu das notícias durante alguns anos. Depois tornou a aparecer, envolvido mais uma vez num processo de fraude. Acusado de haver obtido de suas vítimas a importância de sessenta mil escudos por uma encomenda de café que vendera, mas não entregara, Alves Reis recebeu, no dia 5 de Março de 1955, uma pena de quatro anos de prisão. No entanto, desta vez já não existiam quaisquer resquícios da opulência do passado. Envelhecido, sem recursos e sofrendo de uma enfermidade cardíaca, Reis não pôde sair de sua cama durante o período em que decorria o seu processo. Morreu passados alguns meses, em Setembro de 1955. Seus dois filhos viriam a revelar que a má reputação do pai os tinha impedido de conseguirem emprego e, por isso, as suas famílias subsistiam graças à caridade dos amigos que lhe davam guarida e alimentação.
De forma inglória e deplorável, chegou ao fim a carreira do homem que perpetrou o escândalo dos escudos portugueses.

 

 

 

(Rompe-se o saco à força de querer enchê-lo.)

 

aos tombos…

O meu contacto formal com o Arquivo Nacional da Torre do Tombo foi em 1976 quando procurava documentação que me ajudasse a desenredar a urdidura que parecia envolver aquele mistério(a) que, então, me sugestionava.
Como muita boa gente, acreditava que o nome do Arquivo Nacional derivava de uma antiga torre, necessariamente muito alta, donde alguém tivesse dado, ou fosse forçado a dar, um tombo de tal ordem que tivesse ficado para a história. Ou coisa parecida…
Mas não. Se formos ler a Crónica de D. Pedro, diz-nos Fernão Lopes, lá para o Capítulo VI, sobre a maneira como os reis, até então, procediam para criar tesouros e os acrescentar de sobras a cada ano (o nosso conhecido superávite…) que eram convertidos em ouro e prata ‘para se poer no castelo de Lisboa (Paço Real e Paço da Alcáçova, no seu apogeu, finais do século XIII), em uma torre que para esto fora feita, que chamavam a torre alvarrã’. ‘Esta torre’, continua o cronista, ‘era mui forte e nom foi porém (por isso) acabada. Estava em cima da porta do castelo, ali poínham o mais do tesouro que os Reis juntavam em ouro e prata e moedas e tinham as chaves dela um guardiam de S. Francisco, e outra o Priol de S. Domingos, e a terceira um beneficiado da Sé’.
Torre alvarrã, ou albarrã parece significar torre exterior, o que pode harmonizar-se com a indicação que Fernão Lopes nos dá, quando diz estar a torre por cima da porta do castelo. Ora nessa torre albarrã, ou do Aver (Haver), – como também ele a designa noutras páginas das suas Crónicas – mandou o rei D. Fernando guardar não só o tesouro, mas ainda o arquivo geral do Reino que, antes disso parece não ter tido poiso certo e seguro, acrescenta Fernão Lopes.
Com esta nova ordem passou a torre alvarrã a chamar-se, ora do Aver, ora do Tombo, pois esta palavra significa não só trambolhão ou queda, mas também arquivo.
Lá vem o Francisco Torrinha que vai da etimologia grega ‘tómos’, ou seja, parte, pedaço, porção; daí, é fácil saltar para inventário dos bens e terras de alguém, com suas confrontações, rendas, direitos, encargos, demarcações. Também, extrapolando da origem para tomo e volume, assim acrescentando à torre a guarda e a conservação dos livros, registos, ou originais das leis, escrituras públicas, contratos, tratados e todas as outras mais importantes publicações do reino.
Torre do Tombo – expurgado o tesouro, que seguiu outros ínvios caminhos… – significa, portanto, torre do arquivo e assim se chama ainda hoje ao Arquivo Nacional, desde 2006 designado por Instituto dos Arquivos Nacionais Torre do Tombo.
Mas, voltando à História, a torre albarrã desapareceu, a porta também e quase todo o castelo, no fatídico dia 1 de Novembro de 1755. Isto é: deram uma espécie de tombo, esse sim, não vinha nada a propósito!
Felizmente que, Manuel da Maia, então guarda-mor da dita torre, era um homem cioso e digno da sua responsabilidade, conseguiu salvar praticamente todo o seu precioso arquivo que, em 1757, foi transferido para o Mosteiro de São Bento da Saúde, hoje transformado na Assembleia da República. Primeiro para uma ala do lado da Estrela e, mais tarde, em 1862, para os baixos do edifício, do lado do antigo mercado de S. Bento. Aí se manteve até 1990, altura em que seria transferido para a sua localização actual, na Cidade Universitária. 
Da albarrã não há memória. O castelo foi, sim, reerguido, mas sem honra ou glória. Desde 1755 não foi mais do que umas poucas, toscas e fracas muralhas a acobertar quartéis e cavalariças até ao empenho de António Ferro, sob a égide de Salazar – nos finais dos anos 30 do século passado -, em louvor do Estado Novo, devolver ao castelo a sua imponência de outrora.
No entanto, fosse nas caves do Palácio de S. Bento ou, agora, no seu actual espavento, continuamos a chamar-lhe torre do tombo, sem quaisquer considerações pelas novas circunstâncias ou tempos. Porquê?
Vou meter-me em assados (a que propósito vem a culinária?…), mas não resisto a concluir que, provavelmente, será pelo mesmo motivo por que os franceses continuam a remonter os seus relógios, embora já não haja quase nenhum com aqueles pesos que era preciso fazer subir de novo. Para quê inventar e decorar outra palavra se a gente (pouca, muito pouca…) se entende perfeitamente com o velho dar corda, ou o velho remonter?
Por exemplo, no caso de chumbar os dentes, podíamos falar como os dentistas empregando o verbo obturar; mas parece-nos isto falar caro e preferimos dizer o que todos dizem, falar como toda a gente, a ter carinha de nos darmos a ares de querer falar muito bem, Falar muito bem, nos usos correntes da comunicação, parece-me sempre falar bem de mais, e os bem falantes são gozados com muito mais crueldade do que aqueles que erram ao falar. É só lembrar o Eça…
Voltando ao assunto, e para armar bagunçada até podia dizer alguma coisa, certa e segura, sobre a etimologia de tombo (que é inventário, arquivo) e de tombo (que também é queda). Mas os estudiosos da matéria, é sabido, não estão de acordo a este respeito.

Adolfo Coelho propõe para étimo de tombo (inventário, arquivo) a palavra grega tomo. Cortesão e Figueiredo inclinam-se para tumula, que é latina e que (cá vai o escangalho…), até meados do século XIX, significava montículo, por serem assim os primitivos túmulos: simples montículos de terra e pedras. Ainda hoje, os arqueólogos chamam tumuli a esses montículos ‘artificiais ou monumentais, de origem pré-histórica’.
Mas a voz popular, de sabedoria bem mais prosaica, a esses e outros semelhantes, mesmo que não sejam pré-históricos, chama-lhes mamoas (‘e parte pela mamoa, que está a par da estrada’, lê-se em documento de Pendorada, Santo Tirso, de 1345, como se vê no Elucidário, de Rosa Viterbo, 1865), em comparação com os seios da mulher. Mas, por outro lado, é curioso observar que, em Trás-os-Montes às mamoas dão o nome de tombeirinhos. Ora, então, o tombo com sentido de inventário ou arquivo podia muito bem originar-se na ideia de amontoar. Ou não? A considerar a verosimilhança neste processo etimológico teríamos a palavra monte com sentido de herança. Foneticamente o tumulo deveria dar tombro como cumulu deu combro. Está a ver?…
Não, não está a ver! É que tombar, donde vem tombo, também é tomber, tumbar ou tombolare, se for em francês, espanhol ou italiano. Mas há quem queria colocar a origem em taumeln, que em alemão é tombar, mas também cambalear. Mais: e se o verbo for de origem onomatopaica (tum! tum! tumb!), pela imitação do ruído de um corpo a cair?…
Não? É que nós, por cá temos a expressão tumba!, que dá razão a essa hipótese, lembra-se?…
Olhe!, e já agora, no século passado, durante os apertos económicos, por causa das guerras, quando era preciso aproveitar o calçado gasto, sabe como se chamavam os remendos que se aplicavam? Tombas! Será que as tombas que o pagode metia nas botas e nas chancas eram parentes dos montículos?…
Olhe, a isso já não sei responder…

(a)Na caixa, à direita, em ‘procurar por palavra’ escreva crime com 700 anos.

 

 

 

(Parentes? Só os dentes.)