P… a… pa Santa Justa


(…) A minha mãe, quando contava alguma ocorrência da aldeia, às vezes dizia que ‘foi assim p… à… pá Santa Justa. Perguntei-lhe algumas vezes o que queria dizer esse trocadilho com a santa, ela ria-se e respondia ‘também eu perguntei à tua avó’. Nunca soube a resposta’ (…), confessou-me a Isabel Fontes, acrescentando que ‘tenho esperança que me esclareça este dito’.

A propósito desta fezada em que a Isabel me mistura com santos, parece-me apropriado que me previna com duas ou três oraçõezitas ao São João Maria Vianney, um dos santos predilectos dos estudantes mais apertados nas sebentas e nos exames. Este santo – conto a chocarrice num instante – quando andava no seminário, por alturas da Revolução Francesa, era considerado um tanto lento do miolo. Depois de algumas reprovações, um dia ouviu o reitor dizer-lhe ‘João, os professores não te acham apto para a sagrada ordenação. Uns até dizem seres um asno que nada sabe de Teologia. Como posso eu promover-te ao sacerdócio?’. O rapaz ficou abalado, mas ainda teve tino para lhe responder de um modo que viria a ser referido pelo Papa Bento XVI quando o ordenou padroeiro de todos os sacerdotes. Disse ele ‘Monsenhor, Sansão matou cem filisteus com a queixada de um asno. O que acho que Deus Misericordioso poderia fazer com um asno inteiro?’.
Com ou sem a ajuda do santo, vamos ver aonde chegamos.
É sabido que, sim, P… a… pa Santa Justa é como dizer que alguém contou o sucedido tal e qual, sem esconder a verdade ou omitir qualquer circunstância do sucedido. Sendo assim, onde está a relação com o P… a… pa Santa Justa?
Não é difícil entrar-se em mare magnum de suposições, de historietas, possibilidades e ‘ses’. É que, já sabemos, o tempo e a língua do povo são mestres useiros e vezeiros em inverter, modificar, tirar e pôr letras, sentidos à frase, deixando o futuro sem norte ou sequer rasto de origem.
Mas… se alguma vez encontrarmos antigos documentos religiosos, com relativa frequência encontramos no final dos textos uma curta proclamação que diz ‘Papam Santctum juxta’. Se um dos postulados da Igreja diz que todo o crente confesse ao sacerdote a verdade, tudo diga sem nada ocultar, mais evidente e necessário é que assim se proceda Papam Sanctum juxta, ou seja, junto do Santo Papa.
Poderia (ou não?…) quem atabalhoadamente sabe a língua de Camões e, pior ainda, é ignorante na língua de Roma, separar o primeiro P do a seguinte e, como por vezes aparece escrito o a seguinte com til a substituir a letra m, (e temos o P… a…pa) com o Sanctum frequentemente abreviado para Sanct. e trocar o x por s? Seria, assim, difícil chegarmos a Sanct Justa e à frase que tanto intriga a amiga Isabel?…
Ou, mais simples, a frase dita e repetida por um gago, ou bambo na língua?

Outra, ou até melhor hipótese, quem sabe, talvez um dia.

 

 

 

(a verdade não tem pés e anda)

o galego

Foi nos primórdios do século XIX que os galegos, há longos anos já imigrados por todo o Portugal (com particular incidência no Minho e nas cidades do Porto e Lisboa) que começaram – também eles… – a pagar tributo à Fazenda Nacional.
Em nome do regente D. João, o ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho dirigiu-se ao Intendente Pina Manique, perguntando-lhe o número de imigrados galegos e fazendo-lhe saber que o produto de uma tal contribuição poderia ser aplicada no auxílio das rendas da polícia de que Pina Manique era Chefe Geral.
Aqui está, na íntegra, o ofício de Sousa Coutinho:
O Príncipe Regente Nosso Senhor manda remeter a V. S.ª os papéis inclusos de João Baptista Queiroz para que V. S.ª informe, interpondo o seu parecer sobre as Preposições do Suplicante em quanto dizem respeito a considerar se haveria inconveniente em taxar cada Galego que entra em Portugal, em oitocentos réis por ano, visto que por este modo também eles podem concorrer para os que necessariamente vêm a este reino buscar a sua subsistência; e que seria um imposto indiferente para ajudar as despesas da Polícia da Cidade e do reino: Pondo V.S.ª igualmente na Real Presença um cálculo aproximado do número de Galegos que anualmente entram no Reino. O que participo a V.S.ª para assim executar.
Deus guarde a V.S.ª – Palácio de Queluz, em 15 de Janeiro de 1802
D. Rodrigo de Sousa Coutinho’
Faltam-nos indicações (a resposta de Manique) para sabermos quantos galegos trabalhavam, ao tempo, pelas cidades e vilas do Reino. Lisboa, só por si, empregava uma multidão. Os serviços de incêndios, os recados, o pessoal das carvoarias e das tabernas eram trabalhos quase da sua exclusividade. Embora, sem dúvida, tenha sido a figura ímpar do aguadeiro a que, em Lisboa, mais se colou à pele do galego
Isso e as frases feitas que daí vieram a advir a partir desta personagem, especialmente dos seus duros, esfalfados e incessantes trabalhos: achas-me com cara de galego?, pensas que sou teu galego? e outros.
‘Filósofo espertalhão… De tudo o que menos tens vendido, é água!… Tens vendido amor, os negócios, a resposta, boa ou má, dada às esperanças, mercê da paciência incansável, que na tua raça tem representado o talento de ganhar a vida parecendo carregar… e carregando os outros!
Encostado à esquina de um prédio, que nunca haverás pensado nem terias que viesse a ser teu, por evitares no teu supino egoísmo as sensaborias gratuitas da propriedade; de saca ao ombro, braço arqueado, mão desdenhosamente encostada ao quadril, ouvindo pronto o pschiu de quem te quer chamar, contemplas com desprezo as glórias, e as grandezas que passam pela rua, e descai-te o beiço inferior num sorriso para os mistérios que avistas, e de que só tu, tu só, tens a chave!
Conheces tudo e conheces todos, galego sábio’,
escrevia Júlio César Machado, sobre A Vida em Lisboa (1832)

 

 

 

(guarda-te de cão preso e de moço galego)