Diógenes e a Dialéctica

A propósito dos seus conceitos filosóficos, conta-se amiúde que, vestido de trapos e de lanterna na mão, deambulava pela cidade à procura de um verdadeiro homem. Ou, quando Alexandre da Macedónia o interpelou, na rua, perguntando-lhe o que mais desejava; como Alexandre lhe tapasse o sol, respondeu-lhe não me tires o que não me podes dar.
Há, porém, uma outra história pouco conhecida…
Um dia, numa das ruas da cidade, um homem armado com um enorme pau corria, em fúria desordenada sobre outro, a gritar:
– Agarra! Agarra!…
Diógenes, que por acaso se encontrava no caminho, desviou-se para que o fugitivo melhor corresse. Furioso, o homem do varapau, increpou-o:

– Você é doido?!… Por que não o agarrou?! É um assassino!
– Um assassino? – volveu-lhe o filósofo – E o que é um assassino?…
– Assassino é um homem que mata…

– Um magarefe?!…
– Não se faça de tolo! Assassino é um homem que mata outro homem!
– Um soldado…
– Não!, claro que não! Um homem que mata outro, mas em tempo de paz!
– Ah!, um carrasco…
– Mau! É néscio?!… Um homem que mata outro na sua própria casa…
– Ah!, então já sei: médico!
Por fim o homem compreendeu a inutilidade de prolongar a discussão, soltou um praga e foi, novamente, em perseguição daquele a quem chamava assassino… 

 

 

 

(não haveria má palavra se não fosse mal tomada)

ovelha ranhosa

O sentido atribuído à expressão é qualificar alguém como incorrecto, abelhudo, mau carácter, traiçoeiro, velhaco ou, por extensão analógica, asqueroso, nauseabundo ou mesmo repulsivo. Por isso, quase sempre não aceite em grupo, social e até mesmo familiar. Até aqui, estamos de acordo.
Mas, com calma, digam-me cá: quaisquer destes elevados atributos, ou outros que se lhes comparem, o que poderão ter a ver com uma ovelha, porventura constipada, com algum descontrolo nasal?… Não liga, pois não?
Este é um dos curiosos exemplos de que, por vezes, a corruptela é mais uma acomodação figurativa do imaginário do que propriamente uma alteração provocada pelo hábito da fala. A expressão original refere ovelha ronhosa, o animal que contraiu ronha, uma espécie de sarna com características ainda mais purulentas, que ataca algumas espécies de animais, entre as quais o gado ovino. O desagradável aspecto de um animal doente teria dado azo à expressão. Porque as causas justificativas fossem de parco conhecimento geral ou, até, a imagem de uma ovelha ranhosa fosse mais fácil e apelativa, a adulteração pegou. Não que alguém ronhoso – cheio de ronha – não fosse, igualmente, adaptada, e bem, ao conceito que a frase encerra. Mas isso já são outros quinhentos.
De qualquer modo, ovelha ranhosa não tem, isso não, alguma coisa a ver com mucosidades que, só por si, apenas poderão ser pouco agradáveis à vista, claro…

 

 

 

(à ruim ovelha a lã lhe pesa)