o galego

Foi nos primórdios do século XIX que os galegos, há longos anos já imigrados por todo o Portugal (com particular incidência no Minho e nas cidades do Porto e Lisboa) que começaram – também eles… – a pagar tributo à Fazenda Nacional.
Em nome do regente D. João, o ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho dirigiu-se ao Intendente Pina Manique, perguntando-lhe o número de imigrados galegos e fazendo-lhe saber que o produto de uma tal contribuição poderia ser aplicada no auxílio das rendas da polícia de que Pina Manique era Chefe Geral.
Aqui está, na íntegra, o ofício de Sousa Coutinho:
O Príncipe Regente Nosso Senhor manda remeter a V. S.ª os papéis inclusos de João Baptista Queiroz para que V. S.ª informe, interpondo o seu parecer sobre as Preposições do Suplicante em quanto dizem respeito a considerar se haveria inconveniente em taxar cada Galego que entra em Portugal, em oitocentos réis por ano, visto que por este modo também eles podem concorrer para os que necessariamente vêm a este reino buscar a sua subsistência; e que seria um imposto indiferente para ajudar as despesas da Polícia da Cidade e do reino: Pondo V.S.ª igualmente na Real Presença um cálculo aproximado do número de Galegos que anualmente entram no Reino. O que participo a V.S.ª para assim executar.
Deus guarde a V.S.ª – Palácio de Queluz, em 15 de Janeiro de 1802
D. Rodrigo de Sousa Coutinho’
Faltam-nos indicações (a resposta de Manique) para sabermos quantos galegos trabalhavam, ao tempo, pelas cidades e vilas do Reino. Lisboa, só por si, empregava uma multidão. Os serviços de incêndios, os recados, o pessoal das carvoarias e das tabernas eram trabalhos quase da sua exclusividade. Embora, sem dúvida, tenha sido a figura ímpar do aguadeiro a que, em Lisboa, mais se colou à pele do galego
Isso e as frases feitas que daí vieram a advir a partir desta personagem, especialmente dos seus duros, esfalfados e incessantes trabalhos: achas-me com cara de galego?, pensas que sou teu galego? e outros.
‘Filósofo espertalhão… De tudo o que menos tens vendido, é água!… Tens vendido amor, os negócios, a resposta, boa ou má, dada às esperanças, mercê da paciência incansável, que na tua raça tem representado o talento de ganhar a vida parecendo carregar… e carregando os outros!
Encostado à esquina de um prédio, que nunca haverás pensado nem terias que viesse a ser teu, por evitares no teu supino egoísmo as sensaborias gratuitas da propriedade; de saca ao ombro, braço arqueado, mão desdenhosamente encostada ao quadril, ouvindo pronto o pschiu de quem te quer chamar, contemplas com desprezo as glórias, e as grandezas que passam pela rua, e descai-te o beiço inferior num sorriso para os mistérios que avistas, e de que só tu, tu só, tens a chave!
Conheces tudo e conheces todos, galego sábio’,
escrevia Júlio César Machado, sobre A Vida em Lisboa (1832)

 

 

 

(guarda-te de cão preso e de moço galego)

esquerda, direita, um, dois…

Há uns dias, o amigo Tomás Gavino Coelho perguntava-me se o poderia ajudar no deslindar as origens da dicotomia esquerda, direita. Se não acho saber para uma resposta exacta, experimentemos acertar alguns passos…
A origem da terminologia genérica de esquerda e direita não é consensual. Ao abordar a questão é comum dizer-se que as relações estabelecidas com ambos os lados aparecem na Revolução Francesa. É verdade que há várias referências e histórias sobre isso, mas o aparente vazio anterior não significa que tudo tenha começado aí. Por outro lado – convém não esquecer – outras hipóteses apontam para uma origem religiosa, mormente cristã. Parece-nos mais agizado conciliar alguns factos históricos e daí, sim, formular uma pista provável e coerente para a origem da(s) associações com esquerda e direita.
Comecemos a andar para trás, no tempo.
De todas as convulsões e dos mais relevantes factos dos séculos XIX e XX, é óbvio que o conceito esquerda e direita resultam, de modo directo e factual da Revolução Francesa, nos finais do século XVIII. É durante o consulado imperial de Napoleão Bonaparte, com os membros da Assembleia Nacional a dividirem-se entre partidários do rei sentados à direita e apoiantes da Revolução postados à esquerda. Curiosas algumas referências da época que asseguram a direita a opor-se à disposição dos assentos por defenderem que os deputados deveriam, antes de mais, apoiar e pugnar por causas gerais e não tomar a defesa de interesses particulares, de grupos ou mesmo de partidos políticos. Curioso…
A verdade é que, daí e ao longo de todo o tempo que se viria a seguir, esquerda e direita seriam usadas para referir lados opostos, contraditórios e, por isso, de conceitos e filosofias dissonantes, tão desiguais quanto antípodas.

Entretanto, mesmo que apenas como figura de estilo (ou de caricatura, como se queira…) virá a propósito lembrar o que disse, na altura, um dos deputados da Assembleia ‘Nós começamos a reconhecermo-nos uns aos outros: aqueles que eram leais à Religião e ao rei (imperador), ficavam sentados à direita, de modo a que pudessem ficar longe dos gritos, os juramentos e as indecências que tinham rédea livre no lado oposto‘. Pode parecer apenas semântica, mas não é.
A partir daí surgem as derivações e aglutinações, da esquerda à direita. Ou vice-versa para não ofender ninguém: centro, moderado, radical, ultra, inovador, democrata, social, liberal, conservador, republicano e por aí fora…
Recuemos mais ainda.
O coração do sábio se inclina para o lado direito, mas o do estulto para o da esquerda. Sentença de Eclesiastes (10:2). A tentação é pensarmos que os conceitos de esquerda e direita já eram assimilados na cultura da época. Mas se fizermos uma análise um tudo nada mais pausada e desapaixonada verificamos que este terceiro livro do Velho Testamento foi escrito no tempo de Salomão. Ora Salomão era rei. A monarquia era o regime mais comum entre os povos da época e, no caso, com características absolutas, onde o rei dispunha de um poder supremo muito afastado de quaisquer dúvidas ou hesitações do povo. Assim, qualquer conceito, político ou não, de direita ou esquerda, sequer passariam pela mente de Salomão. Ou outro que fosse rei.
É verdade que, no seu todo, a Bíblia faz referências à dicotomia esquerda e direita, sempre em desfavor da esquerda. Senta-te à minha direita, até eu colocar os teus inimigos debaixo dos teus pés (Mateus 22:44). O lado direito é referido mais de uma centena de vezes, enquanto a esquerda aparece apenas menos de três dezenas, e quase sempre de modo negativo.
Não se pode relativizar ou mesmo omitir essa importância, seja qual forma a forma como analisarmos os factos. Os escritos bíblicos nas suas presumíveis sugestões de que o lado (a mão) direito é divino, ou abençoado, teve consequências desastrosas desde sempre, especialmente na Idade Média. A esquerda (o lado ou a mão), durante a Inquisição, na Europa e mais tarde a Caça às Bruxas no continente americano, deu no que deu. Os resquícios ficariam até aos dias de hoje.
Mas haverá algum fundamento para que o conceito tenha a sua origem nos textos sagrados? Não creio. No seu Sermão aos Catecúmenos, Santo Agostinho afirma que no Céu é tudo a mão direita de Deus Pai, porque lá não há miséria (7:15).
Um Céu sem canhos só pode ser uma má notícia para o bigode do Ned Flandres, dos Simpson.
Onde, então, procurar a génese da querela esquerda e direita?
Talvez, hoje, seja ainda mais difícil: um estudo publicado em Fevereiro na revista eLife diz-nos que ao contrário do que se pensava, não é do córtex cerebral que derivam os movimentos de coordenação entre braços e mãos, mas sim da espinal medula. A investigação científica encontra um novo ponto de partida no momento decisivo de se formar o ser canhoto ou destro no feto.
A questão é essencial? É. Deparamo-nos com evidências todos os dias. Sendo assim, tão básica e simultaneamente tão primordial não deveria ter uma origem bem definida? Não sei, talvez…
Basicamente tudo me faz supor que durante a maior parte da história humana, o lado esquerdo e os que utilizam mais a mão desse lado, foram vítimas de preconceitos e segregações de toda a espécie. Os outros conceitos foram-lhe consequentes. Tenho isso como um facto inquestionável.
Há cerca de trezentos e cinquenta mil anos, os povos Neandertais europeus começaram a dar origem as populações ocidentais existentes. Nessa altura, os nómadas orientavam-se, à noite, pela Estrela Polar. Durante o dia, o Sol parecia movimentar-se da direita para esquerda. Assim, à direita estaria o lado nascente, que traz a vida e, à esquerda, o lado da mão que a tira, no poente.
Será assim tão simples?

 

 

 

(o caminho não tem prazo)