páginas que (não) acabam

(…) Tudo paxa
mas custa tanto a paxare
Tudo isquece
mas custa tanto a isquecêre
Tudo morre
mas custa tanto a bibêre (…)
(oralidade de riba Minho)

 

Raramente temos poder decisório sobre o começo ou fim de qualquer coisa; e mesmo, quando isso tal nos parece, o engano se mostra tarde ou cedo. Já será, porventura, muito o saber, ver o fim a que se tende e, sobretudo, esperá-lo, sabiamente, com naturalidade. Querer suspendê-lo é quase sempre uma temeridade e desejar excedê-lo, então, é absoluta loucura. Porque – adivinha-se, aprende-se – o fim, a serenidade concede de igual forma, à alegria ou à dor.
Estas páginas chegaram ao termo da sua viagem.
Com o saber da exacta medida que valeu a sua existência. O mesmo saber que lhe dá a certeza de que nada termina, nada fenece. Tudo aquilo que acaba tem, inevitavelmente, o seu começo num outro lado qualquer.

velho rifão

Aremos, diz a mosca; e estava nos cornos do boi.

A propósito deste provérbio pouco conhecido (bastante antigo e, como creio, de uso muito circunscrito às cercanias de Castro Laboreiro, no Alto Minho), lembrei-me desta história, já com barbas, contada entre as gentes do teatro…
Um autor teatral lê aos actores escolhidos uma representação em três actos, supostamente dramática e erudita. No fim da leitura, todos acharam que seria um êxito garantido. De tal forma assim foi que, feita a apresentação, os artistas saíram eufóricos.
Ao jantar, nesse dia, o actor principal diz à sua namorada:
‘Uma peça magnífica! Uma história soberba, digo-te! Tudo à volta de um rapaz humilde, mas empreendedor (é o meu papel), que se apaixona por uma herdeira e que…’
A actriz, por seu lado, diz à amiga: ‘Espantoso este meu novo desempenho, sabes? É a sobre a filha de um grande industrial (sou eu que faço esta personagem) dono de um enorme complexo fabril que, embora apaixonada por um indivíduo, simpático é certo, mas…’
Outra actriz, confidencia à cabeleireira: ‘
Tive sorte, com este trabalho, digo-lhe!… Uma história muito boa, sobre uma rapariga pobre, mas muito sedutora (é o meu papel), que se envolve com um tipo, meio escaganifobético, que está noivo de uma desmiolada endinheirada a quem… ‘
Um outro actor, este já entradote, ao jantar, diz à mulher: ‘
Desta vez, vá lá, deram-me uma interpretação interessante, queres saber? É um drama sobre um pai generoso, um individuo elegante e atraente (eu, claro!…) que vive um desgosto por causa da filha e de um rapazola que não se sabe bem quem é e que…’
E este, aquele e mais outro actor e actriz da peça, lá vão falando, mais ou menos assim, sobre a dita peça destinada ao sucesso…
Um desses actores, cuja personagem era de criado, conta assim o que vai ser a dramática peça que não tardará a estrear: ‘É uma peça estrondosa! Com muita classe, muita profundidade no tema, vocês vão ver! Trata-se da história de um criado, um criado mas com muita classe, muito estilo, distinto e com aspecto impecável (eu é que sou esse criado!). Trabalha em casa de uma família riquíssima, de influências. Claro que se vão sucedendo algumas peripécias, mas sem grande importância para o caso, a maioria delas por causa de problemas de família, casamentos, condições sociais e coisas assim. Mas, já perto do final do terceiro acto, quase a terminar a peça, aí sim, há um momento crucial! É precisamente o momento em que eu entro na sala, onde estão todos reunidos e digo: senhores!, o jantar vai ser servido!…

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(presunção e água benta, cada um toma a que quiser)