Sarrabal para o anno de 1728 e seguyntes

Regimento muy util, e necessário para conservar a saúde e alargar os dias da vida, tirado da Medicina de Avicena e outros Authores, composto por Rodrigo Alcoforado.
(…) Aproveyta muyto lavar as mãos, e a cara pela manhãa com agoa fria, porque diz Avicena que além do contentamento, e utilidade, que recebem os sentidos, fica o cérebro confortado, e vista aguda, forte, e muyto mais clara.
Ao levantar da cama pela manhãa he saudável passear e fazer ezercicio.
He muy proveytoso pentar a cabeça pela manhãa, e alimpar os dentes, e estes se podem alimpar, e purgar, com a raiz de ourégão cozido em vinho branco e com ella lavar os dentes, e cozida a arruda e com elle lavando-se os olhos faz a vista clara, e aguda.
O sal nos comeres he cousa utilíssima, mas hã de ser com bom temperamento. Depois de comerem peyxe usem de alguma nós e sobre a carne queyjo. O pão deve ser levado, e bem cozido, mas não he bô comello quete.
Assim como o vinho bom moderadamente bebido causa mil bens, assim também causa diversos males, se se bebe sem temperança.
Depois de comer, se deve fazer pouco, ou nenhum ezercicio porem, algum se pode fazer depois da cea, mas deve ser co brevidade.
O que foi costumado a fazer algum ezercicio, ou tem alguna inclinação honesta não se aparte disso de repente, mas pouco e pouco se vã retirando, e deyxandos.
Tenha o vinho três circunstancias: boa cor, bom cheyro, e seja de boa casta.
A carne de cabras, lebre e boy causa mãos humores, e peor a de porco se se bebe sobre ella agoa, porem não faz mal usando-se com ella de vinho.
Aproveyta beber quando se come pão para que o estamago faça bom cozimento, e também aproveyta beber depois de comer ovos, que devem ser sempre frescos.
Dão dannificamento aos olhos os banhos de agoa quente, ou demasiado vinho, o acto venéreo, e as demasiadas sangrias, muyto mais gasta a vista o demasiado velar; fá ra porem das fleymas, o moderado comer, e beber, e estar com o animo socegado.
A agoa de funcho, berbena, rosa, erva andorynheyra, e arruda fazem a vista muy clara e aguda.
A mostarda cozida em Lua mingoante purga a cabeça, faz distilar a reyma, e tira as fleymas.
He também saudável a salva, e a hortelãa, e tem tão grande virtude que mata, e lança fora as lombrigas, do ventre, e bichas do estomago, tomando em jejum o summo della; se for seca, beber os pós em vinho brãco, ou comellos assim simplesmente.
Tem força esta erva cótra a mordedura do cão danando, pisada, e misturado cô tal azeyte, e vynagre, tira a peçonha da mordedura das alecrães.
Finalmente não he bom beber agoa entre o comer, porque interrompe a digestão.
Conserva a vista guardar de comneres fortes, como são alhos, cebolas e seus semelhãtes, de iguarias salgadas, e estar muyto tepo com a cabeça descuberta ao sol, de velar muyto, e de beber vinho azedo e gordo. (…)
(manteve-se integral a grafia em toda a transcrição)

Dezembro nos provérbios

Dezembro deriva do latim December, décimo e último mês do calendário romano. Tornou-se o 12º aquando da reforma de Numa. É o último mês do ano moderno desde 1564.
(no dia 22, pelas 06:08 horas, o Sol dá entrada na constelação do Capricórnio, iniciando o solstício do Inverno)

Entre o Menino e Tomé (21) três dias é
Depois do Natal os dias crescem uma passadinha de pardal
Inverno geral é sempre um mês antes do Natal
Em Dezembro trem o frio em cada membro
No Santo Ambrósio (7), frio para oito dias
Pelo Natal, neve no monte e água na ponte
Por São Nicolau (6), neve no chão
Em Dezembro lenha e dorme
No dia de São Tomé pega o porco pelo pé. Se ele disser ‘quié-quié’, diz-lhe que tempo é; se ele disser ‘que tal-que tal’, guarda-o para o Natal
Em Dezembro a chuva e em Agosto a uva
Em dia de São Tomé favas à terra
No Natal bico de pardal vai ao laranjal
Pelo Natal quer-se cada ovelha no seu curral
Pelo Natal semeia o teu alhal, mas se o queres cabeçudo semeia-o pelo Entrudo
Pelo Natal se houver luar senta-te ao lar; mas se houver escuro semeia outeiros e tudo
Dezembro quer lenha no lar
Tudo vem a seu tempo e os nabos pelo Advento (1)
Ande o frio por onde andar o Natal o irá buscar
Em dia de Santa Luzia (13) onde o vento fica de lá aporfia
Descansa em Dezembro para trabalhares em Janeiro
(1) O Advento é, grosso modo, o período de quatro semanas que decorre antes do Natal.