1127 dias…

(Minhota, de José Malhoa)

Foi com um retrato mais ou menos desfocado que o Coisas do Arco-da-Velha começou, neste dia, há três anos atrás. Não é meu propósito qualquer balanço, conjecturar mais substância no haver e pouca importância ajustar ao deve, coisas essas quase sempre a reboque de mandingas inconfessadas…

Basta-me o agrado na feitura e os fios laçados de palavras amigas que lhe vão tramando teias de bem-querer e amizade. É verdade que, ora aqui ou ali, tempo houve em que ajuntei palavras de despedida e achava por bem que assim fosse. Mas não foi. Talvez por, ainda, achar por bem que assim (devia que) fosse.

Portanto, será continuando a recorrer aos meios mais diversos, às vezes bem estrambóticos, que aqui se vai dando estampa a curiosidades, memórias, ou até mesmo saberes, palavras, factos e coisas, que pelo tempo, foram deixando lembranças ou esquecimentos. As coisas do Arco-da-Velha

Cabe lembrar, a propósito, que especialmente no caso das palavras, foi o povo que criou a Língua, que a animou, que lhe deu vida, ao mesmo tempo que, vivendo-a, a deturpava, enriquecia, aviltava e exaltava. Creio que, neste cadinho, se forjam os adágios, rifões, anexins, ditos, sentenças ou apenas palavras nascidas ao calhas do falar, ou seja, no caldo da cultura oral onde não há a rigidez a que tanto se apegam os eruditos, presos à forma e à fixação das regras, seja na escrita ou na leitura. Repare-se que o poeta popular nunca diz o verso rigorosamente do mesmo molde; cada vez é um novo acto, uma nova enunciação da poesia que representa, para ele, uma atitude criativa e empreendedora da circunstância e do momento. É esta a mesma verdade para o rifoneiro que, quase sempre de origem anónima, colectiva e popular, acaba carregando mutações constantes do uso franco e livre na boca do povo. Sabemos bem que, não raras vezes, alguns sapientes cultores, misturam um bocejo com esta ou aquela locução que a populaça criou e consagrou, e que, mesmo sabendo-lhe o sentido, acham que tudo o mais é perda de tempo, arrazoado sem nexo ou valor, e, bem pior, grave lesão aos preceitos estabelecidos das coisas do bem dizer e falar. Na freima da sua erudição bacoca esquecem que ‘o mister de recordar o passado, é uma espécie de magistratura moral, uma espécie de sacerdócio. Exercitem-no os que podem e sabem porque, não o fazer, é um crime’, escreveu Herculano.

Enquanto vão arranjando sarna e mão que a coce com Acordos sem ponta nem nó (digam-me, deste último, se há alguém, capaz de explicar por que, agora, deverá ser hifenizado cor-de-rosa ou água-de-colónia e a cor de laranja ou o fim de semana não lhes assiste tal direito tão jeitoso e traçadinhoSabem? Não?!… Também eu!…).

Bem ficaria eu de candeias às avessas se por artes de berliques e berloques, alguns desses doutos de patavinices, armados em carapaus de corrida, se aguentassem no balanço a explicar tudo isto. Não lhes pagaria tuta e meia, com certeza…

Agradecido que vos sou, a todos.

Vou ali e já venho.

(Arco-da-Velha pela manhã,
mal do pobre que não tem pão e da ovelha que não tem lã)