No fim do ano… em 1742

Nos últimos dias de 1742 (já lá vão 268 anos…) na Gazeta de Lisboa, entre outras notícias onde se faz memória dos nascimentos, todas as mais acçoens militares, civis, negociaçoens politicas e outros succesos mais dignos da attençaõ, publicaram-se as que aqui trazemos, à guisa de despedida do ano de 2010.
(…) Nesta corte anda pregando uma mulher de mais de 70 anos de idade, em trajes de pastora, pelas ruas, com muito espírito e incansável zelo e abundâncias de conceitos predizendo muitas coisas que hão-de suceder para o futuro. Dizem que foi chamada ao Tribunal do Santo Ofício, onde será examinada a sua vida e costumes se estes lhe deram faculdades para explicar a doutrina cristã (…)
(…) De Lamego vieram degredados por um decreto de S. M. três cónegos da Sé da mesma cidade, por excessos que ali fizeram. Tanto que chegaram a estes coutos (a notícia era originária de Alcobaça) quiseram como curiosos ver tudo. Um chamado José Teixeira escolheu para domicilio o sítio da Nazaré onde pretendeu dominar a terra assim como fazia na Beira e fazer nela o mesmo por que veio degradado: porém lhe sucedeu o contrário, porque em uma noite lhe foram a casa e obrigando-o a abrir a porta lhe deram tanta pancada que o puseram a lençóis de vinho. Os dois companheiros fizeram assento na vila da Batalha dentro do Real Convento de N. Senhora da Vitória onde fizeram uma comédia em que ostentavam a sua riqueza porque em qualquer acção gastam com mão larguíssima e o povo já os manda embora (…)
(…) Indo passando na procissão do Corpo de Deus a comunidade dos Grilos, da rua da Correaria para a Prata, repreendeu um leigo a um cabo de esquadra do Monteiro-Mor, que com um soldado estava falando jocosidades e respondendo-lhe ele uma liberdade, o frade lhe cingiu a cara com a vela, mas o cabo lhe deu uma pancada com o piquete de tal sorte que ele caiu. A comunidade se amotinou, parando a procissão e acudindo a justiça. O soldado resistiu a tudo com a espada na mão, mas depois fugiu (…)
(…) Ontem de tarde levou o corregedor Francisco Xavier Porcile para uma das naus da Índia uns embuçados presos que se afirma serem pessoas de distinção, tendo vindo escoltados por uma companhia de granadeiros, mas ainda não se sabe quem individualmente eles sejam. Nestes últimos dias se prenderam nesta corte para a Índia, de assalto, algumas pessoas de distinção, sem pressentirem este sucesso (…)
Segue-se 2011. Perdão…, 1743!

 

 

 

(quem sempre foi sempre o será)

o gaiteiro de Santo André

(21

Como em muitas outras tradições, perde-se a origem no tempo e as razões nos caminhos que as gentes andaram ao jeito da terra e à condição das colheitas. Ao solstício do Inverno chegou-se a epifania do Deus Menino, caldearam-se receitas com orações, estrelas a mais os círios, temores e devoções. Perdeu-se-lhes, em muito, o sentido; mas, de tantas, venera-se o costume.
Nas funduras abatidas entre as serras da Peneda e do Soajo, à encoberta das penedias viradas a norte, acoitam-se dois ou três povoados que, em tempos idos, ainda juntavam quase uma centena de almas. Hoje, três velhos, duas cabras, uns bicos e um rafeiro, sobram pelas sombras do que já é ruína…
Mas, dantes, chegado que fosse o Advento, todos se preparavam para o moço de Santo André. Que chegava pela matina, que fosse alva de neve, com chuva ou aos favores de um sol rasinho, vindo de lado nenhum a caminho de todas as moradas que houvesse no vilarinho. Ouvia-se, ao longe, o sopro suave e longo da gaita, até que no outro longe a música se esmorecia à mistura do sussurro do vento. O rapaz da gaita não falava, só tocava. As gentes assomavam aos saguões e pelas veredas as moças mostravam-se em risos e vergonhas disfarçadas, à cata da cara de qual pastor naquele ano tocava para o santo…

Um anafado gaiteiro
de belbutina vestido,
esbelto e bem-parecido,
folgazão e galhofeiro;
no bailarico o primeiro
e nos descantes sem par,
tinha por uso cantar
logo pela manhãzinha:
ao som da minha gaitinha
as moças hei-de enganar!
Se no povoado entrava,
como em terra que era sua,
logo ao por o pé na rua,
no tambor se acompanhava.
E se na gaita soprava
era tão meigo o soprar,
que bem fazia em cantar
logo pela manhãzinha:
ao som da minha gaitinha
as moças hei-de enganar!
Caminho da romaria,
debaixo d’uma figueira,
cantando, moça solteira,
seu amor lhe prometia;
mas ele só respondia
na sua gaita a tocar…
Pois bem fizera em cantar
logo pela manhãzinha:
ao som da minha gaitinha
as moças hei-de enganar!
E todas o adoravam
todas por ele morriam;
se o tinham perto sorriam,
se longe o tinham choravam.
Pobrezinhas!, mal cuidavam
que era fingido o folgar,
de quem dizia a cantar,
logo pela manhãzinha:
ao som da minha gaitinha
as moças hei-de enganar!…

(O Gaiteiro de Santo Andrécantiguinha do Cantar Antigamente, Alto Minho, 1902)

 

 

 

(do menino a Santo André três dia é)