o gaiteiro de Santo André

(21 de Dezembro, dia de Santo André)
Do Menino a Santo André, três dia é
.
Como em muitas outras tradições, perde-se a origem no tempo e as razões nos caminhos que as gentes andaram ao jeito da terra e à condição das colheitas. Ao solstício do Inverno chegou-se a epifania do Deus Menino, caldearam-se receitas com orações, estrelas a mais os círios, temores e devoções. Perdeu-se-lhes, em muito, o sentido; mas, de tantas, venera-se o costume.
Nas funduras abatidas entre as serras da Peneda e do Soajo, à encoberta das penedias viradas a norte, acoitam-se dois ou três povoados que, em tempos idos, ainda juntavam quase uma centena de almas. Hoje, três velhos, duas cabras, uns bicos e um rafeiro, sobram pelas sombras do que já é ruína…
Mas, dantes, chegado que fosse o Advento, todos se preparavam para o moço de Santo André. Que chegava pela matina, que fosse alva de neve, com chuva ou aos favores de um sol rasinho, vindo de lado nenhum a caminho de todas as moradas que houvesse no vilarinho. Ouvia-se, ao longe, o sopro suave e longo da gaita, até que no outro longe a música se esmorecia à mistura do sussurro do vento. O rapaz da gaita não falava, só tocava. As gentes assomavam aos saguões e pelas veredas as moças mostravam-se em risos e vergonhas disfarçadas, à cata da cara de qual pastor naquele ano tocava para o santo…

Um anafado gaiteiro
de belbutina vestido,
esbelto e bem-parecido,
folgazão e galhofeiro;
no bailarico o primeiro
e nos descantes sem par,
tinha por uso cantar
logo pela manhãzinha:
ao som da minha gaitinha
as moças hei-de enganar!
Se no povoado entrava,
como em terra que era sua,
logo ao por o pé na rua,
no tambor se acompanhava.
E se na gaita soprava
era tão meigo o soprar,
que bem fazia em cantar
logo pela manhãzinha:
ao som da minha gaitinha
as moças hei-de enganar!
Caminho da romaria,
debaixo d’uma figueira,
cantando, moça solteira,
seu amor lhe prometia;
mas ele só respondia
na sua gaita a tocar…
Pois bem fizera em cantar
logo pela manhãzinha:
ao som da minha gaitinha
as moças hei-de enganar!
E todas o adoravam
todas por ele morriam;
se o tinham perto sorriam,
se longe o tinham choravam.
Pobrezinhas!, mal cuidavam
que era fingido o folgar,
de quem dizia a cantar,
logo pela manhãzinha:
ao som da minha gaitinha
as moças hei-de enganar!…

(O Gaiteiro de Santo André,
cantiguinha do Cantar Antigamente, Alto Minho, 1902)

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