O racionamento

distribuição de senhas de racionamento, no Porto
(senhas de pão, em baixo)

Pelo Natal de 1942, em plena crise nacional agravada pelas chagas da guerra, o Instituto Nacional de Estatística refere que a alimentação dos portugueses se baseia na broa com umas três ou quatro sardinhas salgadas, mais ou menos batatas, duas tigelas de caldo com legumes secos. Na população rural o problema agrava-se, achando-se a maioria das pessoas em estado de subalimentação, com regime insuficiente, tanto em qualidade como em quantidade. Se o trabalho falta e o merceeiro não fia, apenas um dia ou outro calará a fome com um prato dado à míngua e por caridade, lê-se no relatório.
As manifestações de protesto e as greves desencadeiam-se um pouco por todo o lado. Ocorrem dezenas de motins campesinos no Minho e em Trás-os-Montes contra as requisições de cereais feitas pelo Estado, a falta de géneros alimentícios e, em alguns casos, a perseguição policial à recolha e venda ilegal de volfrâmio. A repressão do Estado, porém, não impede alguns aumentos salariais que rompem a política de contenção, acelerando assim a espiral inflacionária que acaba por prejudicar quem depende do rendimento de trabalho.
Salazar alarga o racionamento de bens essenciais, até então só existente para a gasolina e a electricidade, o que atira o povo para maior penúria e para o inferno do mercado negro. A fruta e o peixe tornam-se praticamente proibitivos, fora de controlo o leite surge falsificado com água e o açúcar aparece misturado com farinha. Quem pode, quem tem um palmo de terra que seja, planta legumes, e criar galinhas, coelhos ou patos, em gaiolas improvisadas, caixas ou até em casa. Os cães vadios rareiam nas ruas: nesse tempo sabem como cabrito.
A sujeição dos produtos ao racionamento é progressiva: o arroz, açúcar, bacalhau, massa, sabão, azeite, óleo, manteiga, café, cacau, cereais, farinhas. Até o pão não escapa e passa a ser reduzido, o branco, a 120 gramas por dia e por pessoa ou, em alternativa, o pão escuro a 180 gramas. A batata é meio quilo por semana e por pessoa.
O racionamento não seria só nesse tempo, nesse Natal. Prolongar-se-ia para além da guerra, por mais Natais…

São Nicolau

Em tempos já muito recuados, no dia 6 de Dezembro, no Porto, festejava-se este dia de São Nicolau, padroeiro da Invicta, com grande pompa e muito alarido.
Nas vésperas, crianças de várias escolas reunidas a muita outra gente, mais a confraria administrativa da paróquia, dividiam-se em grupos e percorriam toda a freguesia, gritando e cantarolando ao som de muita campainha e tambores improvisados:
Quem dá lenha ou algum pau
P’rá fogueira de São Nicolau…
E, então, desde as oficinas de tanoeiro, ali para os lados da Porta Nova e da rua dos Banhos, até à Corticeira, os magotes de gente com a miudagem, faziam grande colheita de barricas, canastras velhas, aparas de madeira, dos tanoeiros, carqueja e tudo o mais que servisse para abrasar o lume. Acarretavam tudo para defronte da igreja e, logo que anoitecia, toca a pegar-lhe o fogo.
Depois, a confraria dava castanhas, e o senhor abade por regra acrescentava um alqueire delas, para assarem. Para animar a festarola, os confrades arremessavam as castanhas do alto da igreja, o que dava origem a que entre a chusma de ganapos que já estavam acotovelados à roda da fogueira, houvesse enorme barulheira à mistura de muito tombo e não poucas chamuscadelas, na disputa das castanhas assadas ou por assar!
Este magusto, enorme estenderete por todo o adro da igreja, que se chamava, nessa altura, a festa do rapazio, terminava quase sempre numa tremenda sementeira de brasas, cinzas e tições, para a arrelia dos vizinhos, é certo, mas para grande e prolongado gáudio da garotada.
Não se faz ideia de quando a festa terá começado e porquê, mas sabe-se que acabou cerca de 1885.