Natal na Madeira(…em 1870)


Onde, provavelmente, o nascimento do Menino-Deus é celebrado com mais pompa e entusiasmo, é neste éden de fresco e verde. Nove dias antes começam a celebrar-se, em quase todos os templos, missas chamadas do parto, que são ditas a expensas das comissões que se organizam para esse fim, e que, de porta em porta, solicitam aos fieis os meios para as levar a cabo. E é tanta a adesão do povo que vem à cidade, que se despovoam aldeias e vilas, às vezes bem longínquas e de acessos difíceis e custosos.
Pelas ruas vêem-se, em descantes, numerosos grupos de bonitas moças das aldeias, que exibem os seus elegantes trajes campesinos, e que são precedidas por outros tantos robustos Vilões, sobraçando os seus instrumentos favoritos. Uns e outros são acompanhados por homens, estes já idosos, que pelos seus cabelos brancos, impõem tal respeito e reverência que mais faz lembrar aqueles pretores que se passeavam em Roma no meio do aplauso e apreço do povo.
Chega, então, o dia 25 de Dezembro e depressa acontece uma mutação rápida da cena, porque ao movimento sucede um silêncio, que quase parece sepulcral. As habitações conservam as suas portas e janelas rigorosamente fechadas e, interiormente, transformam-se em autênticos pelourinhos: aqui estrangula-se um avantajado peru, ali depena-se uma tenra galinha, mais além, uma mão ímpia e fera, crava o ferro nas entranhas de um inocente cordeiro, ou cabritinho outras vezes. Das chaminés vêem-se sair enormes rolos de fumo, em espirais fantásticas, que parecem querer interpretar os brados de tanta vítima imolada nas hecatombes culinárias!
À hora de jantar, sobrepujam as mesas diversas e apetitosas iguarias; os ditos, os risos, os gracejos ecoam nas salas, nos corredores e nas cozinhas. Já posto o Sol, ao divertimento da mesa sucede outro que produz não menor entusiasmo nos convivas. Vem aí a diversão da noite, e das que se seguem até aos Reis, e para isso são convidadas, de casa em casa, famílias inteiras, que assim reunidas, passam horas de conversas, jogos, danças ao som das concertinas ou dos pianos, até que a lonjura das horas lhes traga cansaço.
Nas aldeias, como se pode observar, agrupam-se anciões e moços, velhas e raparigas, e bastará uma só viola de arame, uma rabeca ou um machete, para que com descantes e danças de roda, as noites passarem em diversão animada.
Em qualquer canto da sala, se levanta uma espécie de altar onde é colocado o Menino. Estes altares, ou pequenas capelas, a que chamam lapinhas, e que se conservam até à Epifania (1) , são sempre ornamentados com flores e frutos.
Passado que seja o Dia de Reis, tudo volta a monotonia da vida e a festa do Menino-Deus passa a ser apenas uma lembrança, ou antes, uma saudade, que, com certeza, será aliviada no ano seguinte.

(1) Apesar da Festa da Epifania ocorrer numa data fixa, ela estende-se liturgicamente por semanas e os seus domingos serão dedicados aos sinais dessa manifestação divina junto à humanidade (teofanias) dentre os quais destacamos: o Baptismo de Jesus Cristo (primeiro domingo depois da Epifania), o Milagre nas Bodas de Caná da Galiléia e a Transfiguração de Jesus Cristo (último domingo da Epifania/domingo anterior à Quarta-feira de Cinzas). Lembrando que o número de domingos depois da Epifania estará sempre limitado pela data da Páscoa (dia sempre móvel no calendário).

 

 

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