há noventa anos…ou a história da bota e da perdigota


No final dos anos vinte do século passado, a população sentia-se cansada da guerra, do frenesim político imposto ao seu quotidiano, decepcionada pela incapacidade do regime em garantir estabilidade e ser capaz de definir um rumo estratégico para a nação.
Apesar de ainda se fazer sentir a escassez dos bens essenciais, o irreprimível optimismo gerado pelo fim da guerra, faz explodir o consumo, mesmo que o país esteja endividado ou que a moeda tenha caído num abismo cambial. Os sucessivos governos lançam-se na emissão fiduciária sobre emissão fiduciária, esquecendo os legalismos, as contas, ou até mesmo a indispensável cobertura em ouro. O lema é gastar, já que dinheiro guardado, às tantas, já não é dinheiro mas sim apenas papel velho: Gasta o Estado, gasta o povo, acumulam-se dívidas astronómicas e quem vier a seguir que acerte contas.
O certo é que pelo meio, mais até pelos entremeios, fabricam-se fortunas instantâneas, manipulam-se bancos, companhias de seguros e variadíssimas empresas, vivendo-se um cenário de pirataria sem quartel.
Raul Brandão, angustia-se: ‘O dia de amanhã talvez não exista; o que existe são as grandes oligarquias, económicas ou financeiras; os grandes negócios, as grandes casas bancárias, onde através das redes de arame doirado o papel corre e transborda. Toda a gente enriquece de um dia para o outro e toda a gente gasta, gasta, gasta. Aqui há tempos correu a notícia de que vinha aí a bancarrota: Houve pânico, sim, mas o jogo não parou, ganhou já uma importância capital nesta sociedade que se dissolve – a vida é uma roleta’.
Os extremos chocam, cada vez mais. ‘Eu sou do tempo -continua Brandãoem que ser rico não era uma afronta para os pobres. Conheço dez, vinte, cinquenta casos cuja fortuna assenta numa infâmia. Conheço mil pobres com uma vida digna de quem ninguém faz caso. Há muita gente que se sente afrontado e no íntimo deseja que isto desabe… Só falta um passo.

Esta atmosfera febril e delirante também se reflectiu no traje urbano. As mulheres seguem, agora, a andrógina linha garçonne ou charleston: cabelo curto, chapéu até às sobrancelhas, soutien em vez de espartilho, cintura descida e saia subida com generosidade. Nos homens, o chapéu mole, em vez da cartola ou do chapéu de coco, procura dar a ilusão da eliminação de classes. Ainda vai tornar, mais adequados, maleáveis os colarinhos e os punhos, até então rígidos. Que continuam brancos. A polaina perde terreno e o sapato toma o lugar da bota…

Quer nesse tempo, quer por agora, o barrete, esse, afinal, sempre vai batendo com a… perdigota!

 

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