Dom Marques ou Dom Varão (duas histórias, uma são…)

Entre todo um manancial de rezas, responsos, benzeduras e exorcismos surgem, aqui ou ali, algumas histórias, inocentes e lhanos contos populares, por vezes apelidados de lengalengas, onde as pessoas expressam muito do seu sentir quotidiano: as dores, mágoas, alegrias, temores, desejos e conquistas.
São enredos e fantasias que, nos quebrantos das tardes, lhes trazem ânimos de uma vida melhor, forças para as adversidades e ardor para as enfrentar e as resolver.
Este conto, antigo, quase reza, disseminou-se um pouco por todo o país: ouve-se no Minho, como no Algarve, na Madeira ou nos Açores. Perdeu-se-lhe, talvez, a raiz, mas ganhou a diversidade na forma, no jeito e no contar. Por isso, hoje, diversa, mas duas vezes a mesma história: narrada, no modo e na feição do velho contar transmontano e cantada ao desafio da viola, do cavaquinho e do adufe do sul beirão.

Estão os sinos a dobrar pelo cavaleiro Dom Marques que se sente a expirar.
Está assim há sete noites, sem conseguir acabar, com uma pena muito grande que não o deixa abalar.
Rezam os frades e os padres a quem Dom Marques protegeu, e entre credos e salve-rainhas pede-se a ajuda dos céus.
Mas Dom Marques queria morrer sossegado e não se cansa de dizer:
Eu sou um triste velhinho e as guerras me acabarão, de três filhos que tenho, não tenho um filho varão.
Responde a filha mais nova: com toda a veneração, venham armas e cavalos que eu vou ser filho varão.
Dom Marques: tens o cabelo comprido, filha, reconhecer-te irão.
Filha: venha de lá uma tesoura que o quero ver no chão.
Venham armas e cavalos que eu vou ser filho varão.
Dom Marques: tens os ombros muito altos, filha, reconhecer-te irão.
Filha: venham armas bem pesadas que eles abaixarão
Venham armas e cavalos que eu vou ser filho varão.
Dom Marques: tens os peitos muito grandes, filha, reconhecer-te irão.
Filha: venha a casa um alfaiate fazer o justo bordão.
Venham armas e cavalos que eu vou ser filho varão.
Dom Marques: tens os olhos pequeninos, filha, reconhecer-te irão.
Filha: quando olharem para mim, eu olharei para o chão.
Venham armas e cavalos que eu vou ser filho varão.
Dom Marques: tens a boca pequenina, filha, reconhecer-te irão.
Filha: quando olharem para mim, eu olharei para o chão.
Venham armas e cavalos que eu vou ser filho varão.
Dom Marques: tens os pés muito pequeninos, filha, reconhecer-te irão.
Filha: venham de lá umas botas, nunca mais de cá sairão.
Venham armas e cavalos que eu vou ser filho varão.
A filha de Dom Marques, que tomou do pai o nome, foi para os exércitos. Mas um dos cavaleiros tem uma sensação estranha. Era atracção de homem que sente mulher encantada, por perto, e isso o preocupa.
Diz isso mesmo à sua mãe:

Jesus, minha mãe, que eu morro de abafo de coração.
Os olhos meigos de Dom Marques são de mulher, de homem não.
Mãe: convida-a, meu filho, para contigo vir jantar. Se ela, mulher for, no banco mais baixo se há-de sentar.
Dom Marques, como esperta, isso soube respeitar, ainda dobrou o capote para mais alto ficar.
Filho: Jesus, minha mãe, que eu morro de abafo de coração.
Os olhos meigos de Dom Marques são de mulher, de homem não.
Mãe: convida-a então meu filho para ao jardim ir passear, se ela, mulher for, aos cravos se há-de agarrar.
Dom Marques, como esperta, pelos cravos foi passar e às rosas se foi agarrar.
Filho: Jesus, minha mãe, que eu morro de abafo de coração.
Os olhos meigos de Dom Marques são de mulher, de homem não.
Mãe: convida-a então, meu filho, para a feira ir passear. Se ela, mulher for, às fitas se há-de agarrar.
Dom Marques, como esperta, isso soube respeitar. Lindas fitas acolá estão para uma dama se enfeitar, lindas espadas ali estão para Dom Marques guerrear.
Filho: Jesus, minha mãe, que eu morro de abafo de coração.
Os olhos meigos de Dom Marques são de mulher, de homem não.
Mãe: convida-a então, meu filho, para contigo ir nadar, se ela não for homem tem de estar a recear.
Encurralada neste beco sem saída a filha de Dom Marques, que também já se tinha apaixonado pelo rapaz, depõe as armas e como o pai entretanto está prestes a expirar, tem este desabafo:
Sete anos andei na guerra sem ninguém me conhecer. Se lá andasse outros sete anos deitava o rei a perder.
Virando-se para o rapaz, diz-lhe:
Tenho uma bota calçada e outra para calçar. Quem quiser casar comigo, a casa de meu pai me há-de ir buscar.

 

 

 

 (não há cantiga que não tenha o seu lé-lé)