questionário…

Uma ocasião escrevi que não fosse função do Tempo consumir-se sem deixar cinzas, talvez a História, hoje, fosse uma ciência mais exacta que a exacta se diz a Matemática. Mas não é.
E não é, também, apenas isso. A História, por um outro lado, também acerta o caminho pela satisfação da tendência nacional. Essa coisa que, sabe-se lá às vezes porque desígnios, faz perder as asperidades, imperfeições, até aleijões, e se traveste, vaporosa e luzente, sem que se lhe vislumbrem as sombras e os defeitos.
E, no caso português, o Estado Novo soube, como ninguém, tornar esplendorosa, soberba e épica a narrativa pátria, chegando em não poucos casos a raiar o burlesco e a impudência. A História não mais seria a ciência dos factos, como a designou Bacon, mas antes a urdidura papagueada de conveniências à imagem de um povo impar governado por reis que se queriam com centelha de heróis, sempre no rasto iluminado do Céu.
Para o bem ou para o mal, a verdade é que Portugal nunca teve um império, mas ainda há quem acredite que ele existe…
Não cabe aqui, no entanto, dissertar sobre o assunto. Apenas se quer introduzir um facto que, não sendo tido como vulgarmente aceite, assume assim o estatuto de um curioso abalo na placidez do lago…
Isto porque se perguntou, entre dez figuras da história pátria, qual delas seria, de facto, a mais conhecida em todo o mundo.
As setenta e duas colaborações deram o seguinte resultado:
Luís de Camões, 28 votos (38,89%); Fernando Pessoa, 16 votos (22,22%); Vasco da Gama, 11 votos (15,28%); Infante D. Henrique 9 votos (12,5%); Fernão Magalhães, 3 votos (4,17%); Pedro Álvares Cabral e Gago Coutinho, ambos com 2 votos (2,78%); D. Afonso Henriques, 1 voto (1,39%); D. João II e Papa Pedro Hispano, sem votos.
Será Camões, de facto, a figura da história portuguesa mais conhecida em todo o mundo? Ou, talvez, Fernando Pessoa?… Camões será o autor português mais traduzido e Pessoa, porventura, o maior Desassossego da nossa literatura contemporânea. Mas isso fará de um deles, a figura histórica portuguesa mais conhecida além-fronteiras? Não!… Reparem:
Houve uma sonda espacial da NASA com o seu nome. Um sistema internacional de GPS tomou-lhe o nome. É verdade que há poucas ruas com o seu nome; praças, avenidas, largos ou rotundas, menos ainda. Mas a Astronomia tem uma mão-cheia de referências suas: há constelações, nebulosas e estrelas com o seu nome. Até a Geografia escolheu um dos lugares marítimos mais frequentados do mundo para o baptizar com o nome dele. Também uma falha oceânica se chama assim. Se há os PCs, os Macintoschs, também há os que têm o nome dele. Até o inenarrável Hugo Chávez se entusiasmou com eles…
Já percebeu quem é, sim, a figura histórica portuguesa mais referenciada em todo o mundo? Esse mesmo!
Curiosamente (ou não…) pouco sabemos sobre Fernão de Magalhães. Pois, evidentemente, este é o mais universal de todos os portugueses. Mesmo que poucos sejam os que sabem que ele é português. Na Lapónia, na China, no Congo, Papua  ou… em Portugal.
(há uma praça, em Lisboa, que se chama ‘do Chile’. Está lá uma estátua, oferecida por aquele país. Uma estátua de... Fernão Magalhães)
Coisas do Arco-da-Velha!….

O meu agradecimento a todos quantos, amavelmente, responderam ao questionário. Extensivo a todos quantos, ao cabo de seis anos, continuam a dar-me o prazer da visita a esta despretensiosa página.
Obrigado!

 

 

S. Martinho

Os começos de Novembro correspondem sempre às últimas lufadas mornas do Outono, calmo e brando, que se despede de nós com os seus poentes de bronze líquido a refulgirem na vaporosidade do céu que, quase sempre, não tarda a envolver-se na poalha leitosa dos primeiros dias de Inverno.
Nas cidades, essa beleza – quase consoladora para quem medita –  passa como se não existisse, ou fosse lá possível encontrá-la no rumor e na agitação das gentes e das coisas. Mas no campo, nos montes ou nos valadios, as coisas são bem diferentes. Por cima de tudo paira um grande silêncio que, sem o sabermos, se vai tornando reparador e fecundo: deslumbram-se-nos os sentidos com a majestade dos volumes frondosos dos pinhais e dos soutos, enquanto nos envolvemos, extasiados, com as espiritualidades e mistérios que escorrem por todos os lados, a esmo. Os pomares, ainda nas sombras do estio, enchem-se de uma cor dourada, quente e adocicada, enquanto a vinha, aqui e ali rasteira, nua e exausta de frutos, veste-se de cor violácea em ritos de paixão. O castanheiro, agora arredio das disputas ao pinheiro, é a mais simbólica figura do Outono rural. Quase sempre enorme, majestoso e grave, domina a paisagem outonal da altura da sua fronde cerrada e rubra, generoso e útil porque, exactamente neste tempo de S. Martinho, não há fome nas suas redondezas. Graças à castanha, mas também ao vinho, deverá dizer-se, tão intimamente se associam na celebração, às vezes demasiadamente pagã, desta época animada e chocarreira.
Se é certo que cada um festeja o S. Martinho a seu modo, a verdade é que do ritual antigo poucos são os que se afastam porque, afinal, a questão é tão só beber e folgar. Assim é no Minho, nas Beiras e no Algarve. Outro tanto como em Trás-os-Montes. Escrevia o Abade de Baçal: ‘Durante a feitura do vinho novo, os homens percorrem de noite as ruas do povoado, cantando e tocando ao som das gaitas, tambores, ferrinhos e guitarras, enquanto as mulheres reúnem-se à volta da fogueira que acendem na rua e fiam o linho, cantando, rindo e, a espaços, tocando pandeiro e bailando’.
No dia de S. Martinho, em muito lugar transmontano se festeja o santo e cada lugar serve para seu orago. Terminadas que sejam a vespertinas e a janta, o magote asinha se faz em cortejo báquico, homens e mulheres, novos e velhos, e vão-se à guisa de procissão, de adega em adega, lagar em lagar ou de venda em venda, onde cada um escorropicha o seu copo até ao tutano, de noite e dia, até irem caindo um aqui outro acolá, esperando o que mais resiste sem tombar, para ser proclamado Juiz, honra que beberrões famosos de outros lugarejos vêm disputar, com o afã de quem disputa qualquer outra honraria mais civicamente comezinha…
O S. Martinho sempre foi assim uma espécie de orgia tolerada, consagrada à folgança popular, com cheiros a mosto e castanha a crepitar na fogueira, no lar ou no simples pote de barro.
O símbolo mais eloquente deste velho costume, que teve, aliás, mais pujança no tempo em que a castanha ainda reinava sobre o vazio da batata, que as naus de quinhentos iriam trazer, esse símbolo é, sem dúvida, a tela Festejando o S. Martinho, genialmente pintada pelo Mestre Malhoa: não haverá palavra mais facunda do que aquela posição de não posso mais, do ferreiro estatelado, de costas, sobre a quina da bancada. Os figurantes do Mestre, de Figueiró dos Vinhos, quebrados sobre a mesa da locanda, enchem os olhos, cheiram a engaço e trazem na pele a tez da castanha…
Talvez amanhã o dia estremunhe numa molinha de prata e o sol se chegue enfraquecido e tépido. Não chegará para acordar a terra, que já puxa o sobrado sobre a ribeira.
Mas não faz mal: é assim o verão de S. Martinho!