a fábula da sardinha

De um modo sintético (até de alguma forma redutor, pode-se dizer) há quem defenda que a fábula tem a mesma idade da escravidão. Teria, porventura, nascido da esperteza dos escravos que, usando a simbologia com manha, ardilosamente faziam chegar a todos os ouvidos (principalmente dos visados...) algumas verdades que, de outra forma, jamais chegariam a ouvir.
Se assim foi, o facto é que os servos (que hoje, ao contrário daquele tempo, se contam aos milhões), apesar dessa sábia argúcia e séculos de combate, ainda não conseguiram a sua total liberdade.
E a peleja prossegue…Tendo visto a sardinha
que o salmonete se vendia caro,
e era estimado como peixe raro,
e que ela, coitadinha,
só era pelos pobretes recebida.
E valia pouquíssimo, lembrou-se,
de no mercado aparecer vestida
de salmonete, ou como se tal fosse…
Vestida, não; pintada… dito e feito!
Tingiu-se de vermelho, aqui e além,
deu ao corpo gentil um certo jeito,
imitando, e imitando muito bem,
o apreciado peixe e, na verdade,
ficou com um aspecto tão bonito,
que uma velha criada dum abade,
a comprou, presumindo ser o dito.
O pior foi em casa, na cozinha,
quando ela a pôs na grelha!
– Ai que peste de cheiro!, disse a velha.
– Qual salmonete! Isto é uma sardinha!
– Nada! Tuta! Fora com ela!…
Agarrou na tenaz,
foi-se à sardinha e… zás!
Enojada, atirou-a da janela
para a rua, onde um gato fez… miau.
E, à falta de petisco de mais luxo,
de carne, ou carapau,
prontamente passou da goela ao bucho.
Por mais que um cavalheiro
queira iludir a nossa boa-fé,
lá virá o dia em que o maldito cheiro

 

 

 

(escravo nem Santo António)

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